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Alexandre Berzin

Um outro olhar sobre o carnaval

TEXTO Fabiana Bruce

01 de Fevereiro de 2012

Berzin ia ao encontro dos clarins para registrar a festa nas ruas do Recife

Berzin ia ao encontro dos clarins para registrar a festa nas ruas do Recife

Foto Reprodução

Hoje em dia, muitos são os fotógrafos que perseguem os passistas que perseguem os clarins no Carnaval. Cada invenção espontânea, cada cor de fantasia, cada brilho, cada alegre presença podem vir a ser guardados para além do click, que já é muito mais um “zigbóin” digital. Não é à toa que, cada vez mais, o espetáculo carnavalesco de qualquer um é a imagem gravada. A lembrança da folia intensamente vivida é multiplamente fotografável.


O fotógrafo, nascido na Letônia, documentou o carnaval pernambucano por mais de 50 anos. Foto: Reprodução

Mas não é de hoje que a folia permanece como fotografia. Alexandre Berzin (1903 – 1979) é um desses fotógrafos que vão ao encalço dos clarins. Morando durante anos na Rua da Imperatriz, foco de festas carnavalescas na época, acabou eternizando suas imagens com incrível sensibilidade e estudada percepção, pois dizia encontrar a beleza em toda a parte. Fotografou ruas, cenários, personagens e o movimento do frevo que hoje tanto caracteriza o carnaval de Pernambuco.


Na premiada imagem, Berzin explora os passos da dança e os efeitos 
sombreados. Foto: Reprodução

Ficou conhecido na cidade como o fotógrafo de Sombras do frevo, fotografia exibida pelo menos em duas ocasiões. Premiada entre fotógrafos amadores, foi o próprio que a exibiu no Salão de Arte Fotográfica do Recife, em 1954. Depois, foi exibida em 1982, quando o “velho fotógrafo”, já falecido, foi homenageado por alguns de seus antigos alunos da escola de fotografia do Foto Cine Clube do Recife.


As imagens de caboclinhos e caboclos de lança comprovam a diversidade de manifestações populares da festa. Foto: Reprodução

Na primeira exibição, o fotógrafo, assumindo a manipulação, corta as sombras da fervura do frevo, dos passistas. Seus passos ficam abertos no ar e as sombras do movimento voam suspensas, como os corpos. Gestos congelados, as sombras atingem o chão que brilha. Na segunda exposição, a fotografia é mostrada por inteiro, como um contexto que explica e caracteriza o mesmo movimento.


Personagens míticos do Carnaval também mereceram especial atenção do fotógrafo, como Dona Santa. Foto: Reprodução

Mas essa não teria sido nem a primeira nem a última fotografia da dança. Incansavelmente, Berzin fotografou o carnaval e as ruas do Recife por mais de 50 anos. Nascido em Riga, na Letônia, teve formação em fotografia em Dresden, na Alemanha, após o final da Primeira Guerra, e conviveu com a estética moderna que se fazia, então, por fotógrafos de outras nacionalidades e do Brasil. Chegou ao Recife em 1928, através de um convite da Casa Fotográfica Fidanza, que possuía uma filial na capital pernambucana. Sua imagem mais conhecida parece abrir caminho, como um clarim de cortejo, para sua rica produção fotográfica, para seus álbuns.


Além das imagens carnavalescas, os álbuns de Berzin reúnem outras referências, como o circo. Foto: Reprodução

Persistentemente, ele registra o homem, seus trabalhos e essa terra nas décadas de 1940 e 1950. De valor inestimável, as imagens chamam a atenção para a generosa produção visual de Pernambuco e suas relações com outros mundos fotografados. Atualmente, as fotografias de Alexandre Berzin se encontram em vários acervos fotográficos do Recife, como o da Fundaj e o do Museu da Cidade do Recife que, junto com o Laboratório de Imagem e História da UFRPE, por mim coordenado, e a Cepe Editora, começam a divulgar sua obra, em publicação ainda este ano. 

FABIANA BRUCE, historiadora, antropóloga e professora de História, da UFRPE.

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