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Plateia: Inquieta e insatisfeita

Sessões tumultuadas por barulho e agitação apontam para conflito de expectativas entre espectadores

TEXTO Gabriela Alcântara

01 de Janeiro de 2012

Muitas das escolhas de filmes são feitas em função do horário da sessão, sem informações sobre eles

Muitas das escolhas de filmes são feitas em função do horário da sessão, sem informações sobre eles

Foto Ricardo Moura

A imagem exibida na tela é de tensão: Justine – personagem de Kirsten Dunst no filme Melancolia, de Lars Von Trier –, em uma crise de depressão, está traindo o marido no jardim da casa de sua irmã, onde acontece uma festa para celebrar o seu casamento. A cena é de sexo nervoso e abrupto. Em algum ponto da sala de cinema, uma menina solta uma gargalhada, juntamente com um comentário jocoso, igualmente audível. Algum espectador reclama do barulho, e o silêncio é retomado. Em outro momento, dessa vez num cinema multiplex, a sala está razoavelmente cheia para a exibição do vencedor da Palma de Ouro em 2011. O público que foi ver A árvore da vida, de Terrence Malick, é heterogêneo. Diante da narrativa reflexiva e não linear do diretor, parte das pessoas ali presentes se sente incomodada. Entre conversas paralelas e agitações, alguns chegam a se retirar da sala. Houve salas de exibição, nos Estados Unidos, que colocaram avisos de que não devolveriam o dinheiro do cliente que desistisse da sessão.

Em meio a ofensas e pedidos de silêncio, o espectador que foi ao cinema com o objetivo de apreciar a obra em exibição questiona-se sobre o motivo da agitação do outro. Variadas são as possíveis respostas, mas, dentre elas, uma ecoa: a de que boa parte do público de cinema no Brasil está tão acostumado às narrativas novelescas e hollywoodianas, que, ao deparar-se com um estilo diferente, estranha e, em alguns casos, rejeita esse “novo” produto.

Para o escritor Fernando Monteiro, o público atual está “viciado” no modelo narrativo do cinema “arrasa-quarteirão” americano. Ele afirma que isso acontece porque “quase não temos mais contato com outras cinematografias, como acontecia há 30, 40 anos, quando filmes de outras procedências conseguiam espaço na programação ‘normal’ de salas comerciais, e não apenas naquelas chamadas alternativas, que se tornaram uma espécie de ‘gueto’ ”.

Tal mudança, por parte dos cinemas comerciais, deve-se a uma ideia pré-concebida de que o público que frequenta essas salas não está interessado em consumir o cinema de diretores como Apichatpong (Tio Boonmee que pode recordar suas vidas passadas) ou, num âmbito nacional, Cláudio Assis (A febre do rato). A linha de pensamento, além de preconceituosa, é também perigosa, pois impõe barreiras ao espectador, dificultando que este crie um raciocínio crítico mais amplo em relação ao cinema que lhe é oferecido.

O que acaba acontecendo é que esse espectador, considerado pelos críticos como parte do público médio, forma a ideia de que todos os filmes classificados como “de arte” e que são exibidos em cinemas alternativos, como o Cinema da Fundação, no Recife, possuem histórias muito complicadas ou sem sentido. Dessa forma, ele se vê impedido de experimentar novos contextos e ampliar seu conhecimento cultural, ficando reduzido a uma fórmula cinematográfica cada dia mais gasta e previsível.

O cineasta e crítico Kleber Mendonça Filho, que é também programador do Cinema da Fundação, rejeita a classificação de “filmes de arte”, que geralmente é denominada para a grade exibida na Fundaj. Kleber acredita que esse tipo de definição dada pelo mercado facilita de maneira imprecisa a compreensão de uma obra. O cineasta diz, ainda, que sempre compara o cinema com uma refeição: “Se você come, todos os dias, arroz com batata frita e uma coca-cola, e, na sexta-feira, alguém traz uma pizza com ovo em cima e bacon, você, provavelmente, vai ter uma indigestão muito grande”.

Para o programador, cinemas como o da Fundação funcionam como uma espécie de mercearia, com produtos nacionais e internacionais. A ideia é que a grade traga sempre variedade de escolhas e estilos, para que o consumidor experimente um pouco de cada tempero, identificando-se ou não com o que lhe é proposto, mas arriscando-se de forma saudável.


Apesar de terem atores conhecidos e bons orçamentos, narrativas de filmes como Melancolia e Árvore da vida (foto seguinte) ainda causam estranhamento, ou mesmo repulsa. Foto: Divulgação

DISTRIBUIÇÃO
A discussão, que começa com um questionamento do gosto pessoal daquele espectador que incomoda e interfere na sessão, acaba rapidamente apontando suas raízes, cada vez mais fortes e evidentes: a gestão dos cinemas de mercado, em sua maioria, interessada no lucro, o que acarreta a má distribuição dos filmes, fazendo com que o cinema independente – especialmente o brasileiro – se torne refém de poucas salas, procurando outras alternativas para que as obras cheguem ao público.

Isso fica claro, por exemplo, no Recife, cidade considerada um dos polos de produção cultural e cinematográfica do país, e onde a programação das 44 salas de cinema multiplex é exatamente a mesma, mudando apenas os horários da grade. O espaço para outras linguagens é quase nulo, e restringe-se a uma sala considerada modelo nesse aspecto (a Fundaj) e três “cinemas de bairro” que caminham vagarosamente – Cinema Apolo, São Luiz e ETC –, mas que, ainda assim, buscam dar espaço às produtoras independentes ou menos conhecidas.

A crise atinge não só o público, mas também os autores, que se veem obrigados a optar por novas formas de divulgação e disseminação de seus trabalhos, voltando-se muitas vezes à internet. E que não se engane quem pensa que esse problema é específico dos novos realizadores: recentemente, o cineasta franco-suíço Jean-Luc Godard, um dos maiores nomes da Nouvelle Vague, resolveu voltar-se aos meios alternativos para divulgar seu último longa. Um dia antes de seu Film Socialisme chegar aos cinemas, Godard disponibilizou o trabalho, na íntegra, no Youtube.

Tal saída acaba tornando-se insatisfatória. Por não possuir estrutura física ideal – seja ela sonora ou visual –, a experiência de assistir a filmes no computador ou na televisão mostra-se obviamente inferior à da sala de cinema, podendo impedir que o espectador tenha sensações que se tornariam possíveis num ambiente apropriado.

A solução que salta à vista é o sonhado “equilíbrio” entre grandes e pequenas produções. Kleber aponta, como exemplo, o cinema Arteplex, do empresário Ademar Oliveira, que está presente em cidades como Rio de Janeiro, São Paulo, Salvador e Fortaleza. Segundo o cineasta, “ele mistura o blockbuster de bom gosto com duas ou três salas exibindo filmes de outros estilos”. Observando a grade dos cinemas mais comerciais, Kleber acredita que a falta de diversidade é, de certa forma, tola, por não se abrir a novas experiências, embora ele saiba que “os empresários apresentam números que corroboram suas decisões”.

Para o crítico Luiz Joaquim, que também é programador do Cinema da Fundação, não é por acaso que os filmes de grandes produtoras, como a Globo Filmes, por exemplo, fazem sucesso – com marca aproximada de 1 milhão de pagantes por longa. Segundo ele, há uma massiva campanha de marketing para esse tipo de produto.


Foto: Divulgação

Luiz Joaquim cita o exemplo da estreia, para convidados, de 2 Filhos de Francisco, que contou com uma equipe de jornalismo da Globo na porta de saída de um multiplex do Rio de Janeiro: “Com eles, estavam os dois cantores sertanejos, Zezé di Camargo e Luciano, cuja trajetória é retratada no filme. Ainda com os créditos finais subindo, os cantores entraram na sala pela porta de saída, eles cantavam ‘É o amor...’. Enquanto isso, os jornalistas entrevistavam os espectadores sob o impacto do longa e a presença dos cantores. A matéria foi ao ar no programa Fantástico daquele fim de semana e, não por acaso, o segundo fim de semana do filme teve uma presença maior de espectadores. Isso era algo inédito”.

O crítico Marcelo Costa concorda em que a desigualdade não está só na geografia das salas, mas também na divulgação: “Existem alguns cinemas que mantêm uma programação com variada filmografia, capaz de atrair a curiosidade do público. Mas, ao mesmo tempo, o espectador é induzido a assistir blockbusters pelo fluxo intenso de publicidade desses filmes. Ao somar a propaganda à quantidade de salas que são dominadas por grandes lançamentos, o resultado é uma luta injusta, em que filmes de menor orçamento mal conseguem espaço”.

Para Costa, a noção de expectativa de público que orienta a indústria é, ao mesmo tempo, óbvia e dúbia: “A gente cria a ilusão de que tem uma fórmula moldada, e que dentro dela você sabe exatamente que peças mexer para atrair ou atender a essa expectativa de público. Mas a realidade é muito mais complexa que isso. Pouquíssimos realizadores conseguiram fazer uma leitura bem-sucedida do que é uma expectativa de público. Não estou negando que existe uma fórmula fácil, com atores famosos e narrativa novelesca, mas muitos filmes pensados para grandes bilheterias acabaram ruindo, e vice-versa”.

Entre casais de namorados, donas de casa, estudantes e advogados, os frequentadores de cinemas de shopping abrangem vários segmentos. A maioria não nega que já chegou a assistir a filmes sem saber direito o que iria encontrar, escolhendo pelo horário de início da sessão, como o funcionário dos Correios, Rodrigo Dantas, entrevistado antes de assistir a uma comédia romântica.Dantas afirma, porém, que também se interessa por outras linguagens e formatos, como os curtas-metragens, e diz que gostaria de assisti-los antes das sessões normais. Assim como ele, outros frequentadores de multiplex demonstram interesse em experimentar outras cinematografias, como os estudantes de biologia Julião Neves e Williams Souza, que dizem ir ao cinema de shopping por questões de segurança e localização. Williams disse, ainda, que os chamados filmes de arte “atingiriam um público maior, se concentrados nos multiplex”, atendendo, assim, a uma comodidade do público em geral.

Para Rodrigo Carreiro, jornalista e coordenador do curso de Cinema da UFPE, a mudança é gradual e demorada: “O circuito exibidor teria que se expandir em direção às periferias, com redes de cinemas de bairro e ingressos mais baratos. Seria preciso reeducar visualmente o espectador, dando a oportunidade de contato com produções mais interessantes e menos baseadas em fórmulas prontas da televisão diária, das novelas ao jornalismo”.

A mudançade raciocínio, ainda que tênue, sobre o gerenciamento e o consumo da programação têm sido crescente, o que pode resultar no amadurecimento do público e no refinamento cultural do país. Como afirma Marcelo Costa, a obra de arte precisa de público e este só saberá se ela agrada ou não quando tiver acesso adequado ao que é produzido. 

GABIELA ALCÂNTARA, estudante de Jornalismo e estagiária da Continente.

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