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XIV Virtuosi: Mais “antenado” com a atualidade

Festival chega à sua mais extensa edição, enfatizando obras contemporâneas e discutindo problemas estéticos e sociais

TEXTO Carlos Eduardo Amaral

01 de Dezembro de 2011

Foto Carolina Bittencourt/Divulgação

Só o fato de o Virtuosi ter a oportunidade de homenagear dois dos compositores standard mais arrojados do período romântico, em lugar de outros mais palatáveis ao gosto estabelecido, já poderia prenunciar algo de diferente na programação da 14ª edição do festival. Mas não, Mahler e Liszt haveriam de ser lembrados de toda forma, devido ao calendário: estamos no ano do centenário de morte do primeiro e do bicentenário de nascimento do segundo.Vejam também que o Virtuosi, nos últimos tempos, rendeu tributo a personalidades pernambucanas e, agora, parece ter-se dobrado aos apelos das efemérides.

E como poderia “prenunciar algo de diferente”, se o concerto de abertura apresentará as seis suítes de Bach para cello, com Leonardo Altino, de uma única tacada? Fora que, somente para Brahms, serão realizados cinco recitais em três dias no salão nobre e, em uma única apresentação, Vivaldi terá cinco concertos (incluindo dois recém-descobertos e atestados por Anton Martynov) tocados pelo violinista moscovita na Série Vicente Fittipaldi, no palco principal do Santa Isabel.

Então, basta prestar atenção no programa completo do festival e assinalar as obras recentes ou nunca ouvidas por aqui. Por exemplo: a primeira parte do concerto dedicado a Vivaldi, dia 13, às 20h, marcará a volta de Christian Lindberg ao Recife, depois de uma involuntária ausência em 2010. O solista e compositor sueco, que possui uma relação de amor ao Recife desde o Virtuosi 2007, estreará nas Américas sua peça Euro Arctic, para trombone alto e cordas, além de apresentar, na noite seguinte, um repertório inusitado com o Trombone Unit Hannover (TUH) e o Ensemble São Paulo.

O TUH, octeto alemão liderado por Frederic Belli (solista da première mundial do Réquiem para um trombone, de Eli-Eri Moura, no Virtuosi 2010), faz um primeiro concerto no dia 11, às 20h, na Igreja da Sé, em que uma transcrição de Händel serve de abertura para obras de contemporâneos especializados na escrita para metais, como o uruguaio Enrique Crespo, o inglês Derek Bourgeois, o holandês Saskia Apon e o suíço Daniel Schnyder.

No Teatro de Santa Isabel, dia 14, às 20h, o Trombone Unit Hannover e o Ensemble São Paulo centrarão o concerto em obras escritas por Lindberg, cujos títulos nos instigam a “pagar” para ver o respectivo resultado musical (pagar entre aspas mesmo, pois todas as apresentações do Virtuosi 2011 serão gratuitas): Reino cigano, para trombone e quarteto de cordas, Debaixo do travesseiro e Dr. Decker, o dentista, que inclui dois narradores.

Para completar a passagem pelo festival, na condição de compositor residente, Lindberg promoverá, no dia 15, na Série Vicente Fittipaldi, a primeira audição nas Américas de seu concerto para viola e orquestra, intitulado Steppenwolf, estreado há dois meses em Odense, na Dinamarca. Nele, o solista Rafael Altino não será livrado das extravagâncias interpretativas que Lindberg protagoniza, quando está na posição de intérprete (procure por A motorbike odyssey, no YouTube).

Nessa mesma noite do Steppenwolf, talvez cause um certo frisson a execução do Concerto para violoncelo e orquestra de sopros (1980), do austríaco Friedrich Gulda (1930-2000). Dentre os maiores especialistas em Mozart no século 20, a ponto de ter desejado – e conseguido – morrer no aniversário de nascimento do gênio salzburguês, Gulda foi igualmente um dos grandes nomes da Terceira Corrente, vertente do jazz que transitava por instrumentações e técnicas de composição da música clássica.

TEMAS SOCIAIS
Com efeito, será uma quebra de expectativa brutal ouvir um primeiro movimento em ritmo de disco funk, com o cello solista equiparando-se a uma guitarra distorcida (não vamos antecipar a surpresa toda), mas brutal, propriamente falando, promete ser o espetáculo eleito para celebrar o II Virtuosi pela Paz – que, desta vez, infelizmente, não terá as mesmas 24 horas de duração que em 2007. Baseada numa das seções do livro História universal da angústia, de W. J. Solha, a Cantata bruta nasceu como uma experimentação de artes integradas em que seis compositores buscaram lograr um esforço de aproximação entre linguagens musicais e temáticas sociais da ordem do dia.

Eli-Eri Moura, Marcilio Onofre, Didier Guigue, J. Orlando Alves, Valério Fiel e Wilson Guerreiro decidiram tratar da violência urbana e, ao mesmo tempo, registrar a passagem dos 70 anos de Solha; daí escolherem alguns poucos dos 126 contos da seção A gigantesca morgue como libreto e argumento da cantata, e a conceberem para cantores solistas, coral, orquestra, dois declamadores e sons eletroacústicos manipulados ao vivo. As duas primeiras audições ocorreram no final de outubro, em João Pessoa, e o escritor aprovou o resultado.

Os pontos de encontro entre música e temas sociais serão explorados sob outro formato no I Virtuosi Diálogos, dias 6 e 7, ou seja, antes de os concertos oficiais começarem. Nessa série de três debates, os compositores convidados falarão para o público em estilo stand up sobre seus processos composicionais. Em seguida, terão obras apresentadas por conjuntos de câmara, tal qual o Quarteto Romançal e o Grupo Sonantis, e responderão a perguntas da plateia. Estão confirmados os citados Eli-Eri e Marcílio (PB), mais Nelson Almeida e Antonio Madureira (PE), Danilo Guanais (RN), Liduíno Pitombeira (CE).

Virtuosi Diálogos pretende problematizar a criação musical atual no Nordeste através de aspectos como: a música armorial, hoje, multiplicidade de sistemas de composição, desbravamento, regionalismo e ecologismo. Se o Recife ainda não consegue reunir público leigo para pensar ou debater música clássica, ao contrário do que acontece com cinema e literatura, ao menos possui capital humano no meio musical em quantidade suficiente para prestigiar o evento, isto é, se esse mesmo meio musical, profissional e estudantil não se fizer alheio a mais uma oportunidade.

Neste ano, o Virtuosi procurou enfatizar tanto compositores quanto grupos instrumentais nordestinos, entre os quais a Orquestra de Violoncelos da UFRN, o grupo de percussão potiguar Percumpá, o Quinteto da Paraíba e a Orquestra dos Meninos do Coque, que inaugura o I Virtuosinho. Menção para o lançamento em CD da obra completa para violoncelo (solo e com piano) de Marlos Nobre, interpretada por Leonardo Altino e Ana Lúcia Altino Garcia.

Das novidades estrangeiras, vale destacar Le Quartour Caliente, especializado em Piazzolla; Maïlys de Villoutreys (meio-soprano) e Renan Khalil (cravo); e o Duo Inviolata, formado por viola e sanfona. Deixando claro que não mencionamos tudo (e tudo, sinceramente, valerá a pena ser ouvido, incluindo Mahler e Liszt, postos de lado nesta matéria), os habitués de todos os anos não precisam se preocupar: Victor Asunción e Benjamin Sung virão novamente ao Recife. E novas caras começam a acompanhá-los: Alexander Hrustevich, Arild Kvartetten, Peter Laul, Jihye Chang... Fica o convite para os ouvintes dizerem se o Virtuosi mudou. Está claro que ficou bem mais “antenado”. 

CARLOS EDUARDO AMARAL, mestre em Comunicação e crítico de música erudita.

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