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Alimento para a memória da alma

Ao longo da história da humanidade, diversas culturas mantêm a tradição religiosa de servir comidas como oferendas a seus antepassados

TEXTO Renata do Amaral

01 de Novembro de 2011

Ícone da festa mexicana, Catrina representa uma dama da alta sociedade, para mostrar que todos são iguais diante da morte

Ícone da festa mexicana, Catrina representa uma dama da alta sociedade, para mostrar que todos são iguais diante da morte

Foto Divulgação

A morte, tentemos ou não esquecer isso no cotidiano, faz parte da alimentação. Foi o que descobriu uma consternada Alice B. Toklas, quando precisou, pela primeira vez, dar cabo de um animal vivo, que terminaria na panela. Companheira da escritora Gertrude Stein e participante ativa da vanguarda parisiense no início do século passado, Alice conta em seu O livro de cozinha, datado de 1954, como conseguiu cometer seu primeiro assassinato contra uma inocente carpa.

“Logo que começamos a ler Dashiell Hammett, Gertrude Stein notou que seu estilo moderno se devia ao fato de ele liquidar suas vítimas antes de a história começar. Deus sabe quantas mais seriam necessárias, em seguida, como resultado do primeiro crime. Na cozinha é a mesma coisa. Assassinato e morte súbita parecem tão pouco naturais aí quanto deveriam parecer em qualquer outro lugar. Não podem, não podem nunca, se tornar fatos aceitáveis. Comida é uma coisa demasiadamente prazerosa para se combinar com horror”, compara.

Em seguida, resignada, aceita a morte como parte da vida – e, claro, também da cozinha. “Mesmo assim, fatos, mesmo desagradáveis, devem ser aceitos e veremos agora como, antes de qualquer história de culinária começar, o crime é inevitável. Essa é a razão pela qual cozinhar não é um passatempo de todo agradável. Muita coisa tem que acontecer antes de se chegar, de fato, ao ato de cozinhar”, conta, antes de narrar como o peixe foi morto com uma facada certeira na coluna vertebral.

“Horror dos horrores. A carpa estava morta, matada, assassinada em primeiro, segundo e terceiro graus. Mole, caí numa cadeira; com as mãos ainda por lavar, peguei um cigarro, acendi-o e esperei a polícia chegar e me levar presa.” A graça da escrita de Alice, cujo livro de receitas é um belo retrato de uma época, mostra as agruras que podem afligir aqueles que cozinham, mesmo sabendo que a morte é necessária. O que acontece, porém, quando os finados não são os que são comidos, mas, sim, os que “comem”?

No México, o Dia dos Mortos é uma das festas mais animadas, tanto que foi promovido a patrimônio cultural imaterial da humanidade pela Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco). Na celebração, de origem indígena, são montados banquetes para os mortos da família, com direito a caveirinhas de açúcar com o nome do falecido e pão em forma de crânio ou osso. A ação da Unesco busca proteger essa afirmação da identidade indígena mexicana, para que a festa não vire um grande Halloween.

No Dia de Todos os Santos (1º de novembro), a homenagem é para os anjinhos, ou seja, as crianças falecidas precocemente. No dia seguinte (2 de novembro), de Finados, é a vez dos adultos.

Se não é possível visitar o cemitério para levar as oferendas, monta-se um altar em casa, com pratinhos de comida, copos de água, garrafas de bebidas, cigarros e até brinquedos para os pequeninos. O prato favorito do finado não pode faltar, assim como seu retrato, para comemorar esse breve reencontro com os mortos.


O prato favorito do finado não pode faltar durante a comemoração do Dia dos Mortos, no México. Foto: Divulgação

Segundo a Unesco, a festa mescla ritos religiosos pré-hispânicos a festividades católicas levadas pelos europeus no século 16. Os espíritos podem trazer boa ou má sorte, daí a importância do cuidado com todas as preparações.

A cara da festa é a caveira Catrina, batizada pelo muralista Diego Rivera. Elegantemente vestida e usando um chapéu, ela representa uma dama da alta sociedade, para mostrar que todos são iguais perante a “indesejada das gentes”, como tão bem cunhou o poeta pernambucano Manuel Bandeira.

APETITE DE FARAÓ
No Egito Antigo, carregar consigo provisões alimentícias, para ingerir no além, era uma preocupação levada a sério. É o que atesta o historiador e egiptólogo Pierre Tallet, em seu livro História da cozinha faraônica: a alimentação no Egito Antigo. “A afeição que o egípcio sentia pela cozinha e pelos prazeres da mesa está presente em variados documentos”, escreve. Nas pinturas, os alimentos aparecem dispostos em um tabuleiro e o morto estende a mão para elas, indicando seu consumo.

“No contexto, até de enterros relativamente simples, essa mesa de oferendas tem, evidentemente, uma função essencial. Trata-se de assegurar, mediante essa representação, que se sirva ao morto uma comida diária que permita sua alimentação no além”, conta. Nas últimas dinastias, eram feitos verdadeiros painéis de oferendas. Alguns contavam até mesmo com uma espécie de menu, com uma descrição detalhada do nome e da quantidade de alimentos para cada dia.

O rito final consistia em o sacerdote tocar a boca da múmia com uma plaina, na cerimônia conhecida como “abertura da boca”, para que o morto pudesse voltar a falar, comer e beber no além. Para isso, eles contavam com mesas de oferendas, pequenos altares com alimentos destinados ao finado. Por conta da aridez ambiental, arqueólogos chegaram a encontrar restos de alimentos nos sarcófagos. “Assim foi feito em um túmulo da época prédinástica, descoberto em Sakkarah, que guardava inúmeros víveres, entre os quais cerveja, vinho, cereais e carne.”

A descrição do túmulo do arquiteto Ka, descoberto no início do século 20, datado de mais ou menos 800 a.C., surpreende pela variedade: “Esse túmulo continha numerosos alimentos, dispostos nos mesmos pratos que serviram para apresentá-los, localizados perto dos despojos do morto. Neles, veem-se diferentes tipos de pão, alguns ainda com uma redezinha de folha de palmeira, doces modelados segundo a representação iconográfica da flor do papiro, com forma de diferentes animais ou de lavatórios, recipientes de alabastro contendo azeite, peixes secos, farinha, legumes, cabeças de alho, tâmaras e uvas secas ainda elegantemente dispostas nos amplos pratos e cestas em que foram apresentados na celebração da última cerimônia. Tais descobertas são frequentes, no entanto, poucas são tão espetaculares”.

Tanta abundância chamava a atenção de pessoas de má-fé. Foram registrados roubos por saqueadores de túmulos, pouco depois dos funerais, quando os alimentos ainda estavam em boas condições para consumo. “Os arqueólogos constataram, num túmulo da Necrópole de Mênfis, que o conteúdo dos jarros de azeite havia sido extraído por apreciadores e que o vinho contido nos jarros havia sido consumido antes de esses objetos, subtraídos da sepultura, serem quebrados”, constata o egiptólogo.


No Egito, oferendas de alimentos de todo tipo acompanham o morto em sua viagem para o além. Foto: Reprodução

Segundo o autor, garantir alimento para os mortos era um desafio da religião no Egito Antigo: “O outro mundo era visto como um meio particularmente hostil, no qual era preciso recorrer a vários feitiços para evitar inúmeros perigos. (…) Inúmeros textos repetem incansavelmente que o morto deve, em função de sua dignidade, receber esse ou aquele produto alimentício como oferenda”.

SAMBAQUI RECHEADO
No Brasil, algumas culturas indígenas, localizadas no litoral, ofereciam comida aos ancestrais dentro de um tipo de depósito constituído por materiais orgânicos, chamado de sambaqui. Doutora em Antropologia pela Universidade do Arizona, a pesquisadora Daniela Klokler realizou sua tese de doutorado sobre o assunto. Comida para o corpo e alma: ritual funerário em sambaquis centrou sua análise no sítio Jabuticabeira II, localizado no litoral sul do estado de Santa Catarina.

De acordo com ela, o sítio foi usado, somente como cemitério, durante cerca de mil anos, entre 2.500 e 1.400 anos “antes do presente”, segundo a notação de tempo usada pela Arqueologia. Foram verificados depósitos que demonstram a existência de restos de alimentos ofertados para os falecidos. A autora considera que existia um intricado ritual funerário. “Esses depósitos são resultado de grandes banquetes em homenagem aos mortos, realizados durante o processo de sepultamento, após o fechamento da área funerária”, explica.

A pesquisadora encontrou vestígios com uma média de 250 quilos de carne de peixe por metro cúbico. “Apesar do domínio dos peixes, mamíferos e aves também são parte do ritual e encontram-se especialmente associados a sepultamentos. Há grande variabilidade na quantidade e nas espécies depositadas nas covas em diferentes áreas funerárias analisadas. Alguns indivíduos receberam tratamento diferenciado, no que concerne aos acompanhamentos funerários, entretanto, não foi possível relacionar a variação encontrada com idade ou sexo.”

Alguns povos, porém, preferem não entregar a comida aos antepassados de forma tão literal. É o caso dos Tsembaga, na Nova Guiné, cujos costumes foram relatados na obra Porcos para os ancestrais, de Roy Rappaport. Eles criam porcos que serão oferecidos para pagar aos mortos pelo apoio dado nas lutas com os inimigos. Quando acreditam que juntaram animais suficientes para ofertar aos espíritos, promovem uma matança ritualística, mas não se furtam de participar do banquete como comensais.

“Centenas de animais são mortos e consumidos em honra dos antepassados. Paga a dívida, os Tsembaga estão agora prontos para guerrear de novo, confiantes em que o poder divino está outra vez do seu lado. Assim segue a sua vida, ano após ano, década após década, num ciclo ritualístico de criação e matança de porcos, danças, festas e guerras”, explica o professor de História, Donald Worster, da Universidade de Kansas, nos Estados Unidos. Ao contrário do que acontece em outras manifestações religiosas, aqui, os mortos são homenageados, mas quem alimenta o corpo e a alma são os vivos. 

RENATA DO AMARAL, jornalista, webdesigner, doutoranda em Comunicação. 

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