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A morte é o vigor da vida

TEXTO Raphael Douglas Tenório

01 de Novembro de 2011

Raphael Douglas Tenório

Raphael Douglas Tenório

Foto Divulgação

Joan Reventós, brilhante poeta catalão, deixou-nos dito que, desde o nascimento, o homem já tem idade de sobra para morrer. De todas as experiências essencialmente humanas, a finitude é a de mais difícil lavor. Experiência é um termo usado para descrever os alfinetes que a vida nos enfia sem nenhuma técnica de acupuntura. É por medo de sofrer que boa parte dos indivíduos afirma temer a morte. Paradoxalmente, o homem é o único ser capaz de antecipar a própria morte e, ainda assim, evita o assunto tanto quanto possível. Mas não é somente o vivente que pode sofrer? O sentir não diz respeito apenas ao que ainda demonstra traços vitais? Morrer é justamente o contrário do sentir. A indiscutível angústia da possibilidade do nada nos faz assumir um anestesiante e inautêntico senso de eternidade. Morte certa, hora incerta. A morte é realmente um enigma?

Todas as razões estão ao seu lado, certeiras, exatas e inevitáveis. Quem monopoliza e constrói o sem sentido é a vida: essa é a verdadeira desconhecida. A morte não tem resposta. Já se encontra “respondida” e o homem, tal qual uma criança no escuro, continua tateando uma réplica impossível. A morte é a regra da qual a vida é a exceção. Todavia, a regra só possui existência dado que a exceção está lá, perturbando a impenetrável obscuridade.

Pode-se pensar na morte e na vida como duas atrizes que apresentam monólogos. A vida começa seu espetáculo e o encerra. Quando a morte irá começar sua parte, as cortinas já estão se fechando. A morte não é uma possibilidade pouco iluminável por parte do sujeito: é justamente a região em que nenhuma luz pode ser acesa.

Se nos é possível detectar na morte alguma essência, essa é a não resposta. A vida que carrega em si a fragrância da finitude. Esse aroma está impregnado nos desenhos animados, na música, nos jogos de video game, nos antigos amores, no crescimento das crianças e no ganho de alguns quilos. A ideia de infinito é tentadora, mas não consola realmente. Para alguns, enxergar a finitude dos eventos, enquanto eles ainda acontecem, desvirtua a fruição do momento. Ao contrário, pode-se viver mais intensamente um evento, quando se cultiva a difícil lucidez da transitoriedade.

Desse modo, existenciar acontecimentos com plenitude consiste em não se deixar iludir por nenhuma ideia de eternidade, ainda que a inautêntica fantasia do para sempre agrade universalmente. A eternidade não é uma instância de tempo, é um sentimento. Enquanto há o sentimento de eternidade, nada termina realmente. É o fim que faz o agora ter consistência. O homem não se trata apenas de um ser biológico. Estamos falando de um animal biográfico. 

RAPHAEL DOUGLAS TENÓRIO, mestre em Filosofia pela UFPE.

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