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SPA levanta, sacode a poeira e dá a volta por cima

Após enfrentar crise, evento do calendário artístico do Recife chega à sua 10ª edição com a opção curatorial de lançar proposições à próxima década

TEXTO Mariana Oliveira

01 de Setembro de 2011

Trabalhos como este de Fernando Perez, de diálogo direto com os passantes, caracterizam o evento

Trabalhos como este de Fernando Perez, de diálogo direto com os passantes, caracterizam o evento

Foto Divulgação

Em 2009, a Semana de Artes Visuais do Recife – SPA das Artes dedicava a publicação RevSPA a uma autorreflexão. Sua organização percebia um desgaste no formato, o SPA, assim como a Bienal de São Paulode 2008, vivia uma crise. Seria o momento de ser repensado? O que havia mudado na cena recifense desde de 2002, data da primeira edição? Tudo isso foi discutido por gestores, críticos, artistas, curadores, e, ainda que nem todos concordassem com a crise que se vivia, o caráter experimental do evento provocava essa inquietação, essa necessidade de novos caminhos. Este ano, a Semana chega à sua 10ª edição, entre os dias 11 e 18 de setembro, num momento pós-crise, reaproveitando os acertos das edições anteriores e, ao mesmo tempo, tentando preencher lacunas fundamentais.

Quando os artistas José Paulo, Rinaldo e Maurício Castro idealizaram a realização de uma semana dedicada às artes visuais, o Recife tinha um circuito artístico pouco articulado. Seus criadores tinham feito parte de uma geração que, entre as décadas de 1980 e 1990, organizou eventos e exposições de forma precária, sem muito apoio. Era preciso juntar esse pessoal à nova safra de artistas que apareciam, e colocar todos em contato com a produção artística contemporânea brasileira. A programação da primeira edição era destinada à formação da classe artística, com conversas, troca de informações e apenas uma noite performática. “A necessidade era juntar pessoas, trazer gente de fora, entender como funcionavam os métodos de produção”, afirma a artista Beth da Matta, atual diretora do Museu de Arte Moderna Aloísio Magalhães (Mamam) e coordenadora do SPA 2011.

O ideário inicial do SPA cumpriu seu papel, ajudou a constituir um cenário para as artes visuais na cidade, em especial para as produções contemporâneas. Artistas iniciantes, à época, foram lançados pela Semana, como Amanda Melo, revelada após a performance em que caminhou toda coberta por fitas isolantes pelo centro da cidade, ou Lourival Cuquinha, que estendeu um imenso varal sobre o Rio Capibaribe. A memória sentimental dessa geração de artistas também traz recordações indissociáveis do SPA. Aslan Cabral relatou, na RevSPA de 2009, sua relação afetiva com o evento. “Lembro-me de Fernando Perez tirando a roupa no Forte das Cinco Pontas e do pedido de demissão de Lourival Cuquinha, quando, durante um dos debates, ‘caiu a ficha’, para ele, de que artista plástico era sua profissão oficial e que ele não trabalharia mais como advogado.”


À frente de performance no Recife, em outra edição do SPA, o artista Daniel Santiago vai expor obra este ano no Mamam. Foto: Divulgação

Esse apreço não é privilégio dos artistas locais. O SPA tem atraído muita gente de outros estados e, quiçá, alterado o curso de suas vidas. É o caso do artista gaúcho Cristiano Lenhardt, que veio pela primeira vez ao Recife para apresentar a série Diamantes. Um ano depois, voltou e, em 2006, decidiu mudar-se de vez para a cidade. “O SPA é muito importante na minha vida e no meu trabalho. Em 2007, participei com o vídeo Retratante retratado, algo fundamental para mim porque dei entrada num processo que fui aprofundando com o tempo, aqui, um procedimento que me conectou com outros lugares”, conta Lenhardt, que hoje abre sua casa para hospedar colegas que vêm participar do evento.

NOVA CARA
Agora, em 2011, as necessidades da cidade não são mais as mesmas, a formação dos artistas anda por outros caminhos e intercâmbios, e a cena já indica mais articulação. Ao receber a notícia de que gerenciaria a edição dos 10 anos, junto com a gestora do museu Murillo La Greca, a também artista Bruna Pedrosa, Beth da Matta tinha noção do desafio de segurar essa pós-crise.

Em datas redondas, nada mais natural que olhar para trás e fazer um retrospecto do legado deixado. Porém, a opção foi pensar no presente e na cena artística do Recife daqui a 10 anos. “A ideia do SPA deste ano é esquecer retrospectiva, crise. A edição de 2009 já fez uma radiografia disso. O SPA já saiu da UTI. Vamos pensar daqui para frente”, explica Beth. “Estamos pensando em algo como: 2021 – Uma odisseia no SPA”, complementa Bruna. A única referência ao passado é uma conversa com os criadores que expõem sua opinião sobre o evento e seu formato. Há, entre eles, quem acredite que o SPA não mais faça sentido.


O artista Lourival Cuquinha, durante a montagem do seu Varal no SPA 2003, obra que o projetou nacionalmente. Foto: Divulgação

A primeira mudança prática aparece no edital das bolsas-prêmio. Todas as inscrições foram realizadas pela internet e os participantes deveriam indicar outros artistas para compor a comissão julgadora. Os mais votados foram convidados a formar o grupo de avaliação. “Serão artistas julgando artistas. Isso tem tudo a ver com o SPA, que sempre foi um evento coordenado por artistas, com pouca interferência da gestão pública”, detalha Beth. Além disso, as oficinas deixaram de fazer parte do edital e passaram a funcionar através do convite dos organizadores.

Isso porque se percebeu que, apesar da ideia da descentralização ser muito interessante, era necessária uma articulação entre as partes, para que uma oficina não ficasse alocada sozinha, em um ponto da cidade, e tivesse apenas dois pares de inscritos. “Essas ações, na cidade, de forma descentralizada, são lindas, essa ideia de colocar exposições nas comunidade é linda, porém elas perdem, porque a arte contemporânea precisa de uma certa mediação, um mínimo de entendimento, de contexto, para você perceber alguma coisa. É muita pulverização”, argumenta Beth, justificando a condensação do SPA em três espaços, algo que pode parecer uma incoerência para aqueles que acreditam no poder da descentralização.

O Parque Dona Lindu, na zona sul, o Museu Murillo La Greca, na zona norte, e o Mamam no Pátio de S. Pedro, no centro, e os entornos desses lugares vão receber as ações do SPA 2011. O Dona Lindu será a grande surpresa. Inaugurada há alguns meses, a sua galeria chegou a receber 1.500 visitantes num domingo, durante a exposição de Abelardo da Hora, encerrada em agosto. Por estar localizada num parque, parte do público visita o equipamento com outro intuito, mas termina sendo levado pela curiosidade e entrando na galeria. Durante o mês de setembro, o espaço receberá um recorte do acervo permanente do Mamam (levando ao público da zona sul obras que, talvez, ele desconheça) e uma oficina com Eva Duarte, que trabalhará com o origami, tendo como base obras de Lygia Pape. “Vamos reeditar o Spraia, que já aconteceu em 2005, e foi muito legal. Resolvemos resgatá-lo, agora que temos o Dona Lindu como ponto de apoio”, completa Bruna Pedrosa.


A performance Banho público, do Coletivo Firma da Irmã da Irma, e a intervenção Farol, de Leo Antunes (foto seguinte), projetada em prédio da cidade, fazem parte da memória do SPA. Foto: Divulgação

Segundo ela, o Murillo La Greca dará continuidade ao Projeto Fachada. A ideia é que, a cada três meses, um grupo de artistas seja convidado a ocupar a fachada da instituição. O primeiro coletivo a participar foi o Mulheres Barbadas. Em setembro, as paredes levam a assinatura do Coletivo Juin, que trabalha com estêncil e realiza uma oficina sobre a técnica no Museu. Além da exposição permanente, o La Greca vai abrir suas portas para a Desvenda, espécie de feira de arte, capitaneada pelo artista gaúcho Rodrigo Lourenço. O Mamam no Pátio receberá a exposição escolhida pela comissão de artistas e contará com o apoio de todos os equipamentos do local, incluindo o Memorial Chico Science, onde será realizada oficina.

EDUCATIVO
A centralização das ações em três pontos se relaciona com a implantação, pela primeira vez, de um projeto educativo no SPA, coordenado pela arte-educadora Joana D´Arc e por Fernanda Simionato. Em cada um dos locais, haverá duas vans que farão o transporte para os outros dois pontos de atividades. O trajeto será acompanhado por mediadores, que conversarão e trocarão ideias com o público. As equipes fixas do educativo de cada um dos três equipamentos também irão participar de forma integrada. Antes do evento, houve, ainda, um etapa de formação de professores, com o intuito de lhes dar ferramentas de reflexão.

A opção do SPA 2011 de investir num projeto de aproximação com o público mostra a percepção de um problema antigo: mesmo sendo um evento de rua, falta-lhe repercussão na população. “Realizando uma reflexão desses 10 anos, não vejo um grande avanço no que diz respeito ao público que não aquele formado por pessoas ligadas à arte ou à prefeitura. O SPA é conhecido pelo nicho de artistas, mas não alcançou o grande público, não saiu das bases iniciais”, critica o artista Bruno Vieira. Segundo as coordenadoras, a aposta no educativo tenta mudar essa questão e, como a proposta é olhar para a frente, apoiar a formação de espectadores para o futuro.


Foto: Divulgação

Outro problema diagnosticado foi a desarmonia entre a realização do SPA e a agenda dos centros culturais da cidade, à exceção do Mamam (que abrigará, este ano, mostras de Daniel Santiago, Anthony McCall e Suely Rolnik, esta participação inclui ainda um bate-papo) e da Fundaj (que sediará uma palestra de Moacir dos Anjos), cujas programações sempre se alinharam. “Vejo que o SPA nunca teve a chance de crescer e se tornar um evento de grande porte. Faltava engajamento dos outros equipamentos, não estávamos dentro do calendário deles. A coisa era meio aleatória, precisávamos de mais articulação”, pontua o artista plástico Márcio Almeida, que já participou da Semana como artista, além de ter sido coordenador de algumas edições.

Inserida nessa ideia de articulação, a Galeria Mariana Moura vai abrir seu último andar para receber o projeto Spam. Durante o evento, qualquer artista poderá levar sua obra e colocá-la em exibição, sem nenhum controle ou critério, como acontece com os spams que lotam as caixas de e-mails. Lúcia Santos, da Amparo 60, também está articulando atividades paralelas em seu espaço. Haverá lançamentos de livros, o resgate do Saldão, espécie de feira onde os artistas vendem suas obras no penúltimo dia.

“Não é um SPA revolucionário, mas está se voltando para a atualidade, reforçando os espaços da cidade, revivendo coisas que funcionaram nos anos passados, mas sem esquecer o futuro. É uma tentativa. Ainda não temos certeza de como será”, resume Beth. Agora, é torcer para que o público decida participar dessa odisseia, iniciada há 10 anos, junto com os artistas. 

MARIANA OLIVEIRA, repórter especial da revista Continente.

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