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Londres: Um passeio entre livros

No centro da cidade, em ruas como a Charing Cross Road e o turístico Picaddily Circus, concentram-se livrarias que atraem bibliófilos e despretensiosos passantes

TEXTO Antônio Martins Neto

01 de Setembro de 2011

As livrarias londrinas atraem milhares de leitores, há mais de um século

As livrarias londrinas atraem milhares de leitores, há mais de um século

Foto Betmann/Corbis/Latinstock

O filme foi lançado em 1986. A atriz Anne Bancroft é Helene Hanff, escritora norte-americana apaixonada por livros raros, que, um dia, escreve para o gerente de uma livraria de Londres especializada em obras esgotadas. Por 20 anos, Frank P. Doel, interpretado pelo ator britânico Anthony Hopkins, trocará cartas afetuosas com Helene. É o enredo de Nunca te vi, sempre te amei. Título em inglês: 84 Charing Cross Road.

Não é por acaso que a simpática e movimentada rua no centro de Londres dá nome a esse clássico dos anos 1980. Na capital inglesa, Charing Cross Road é a rua das livrarias, das mais charmosas e tradicionais lojinhas de livros raros – e de segunda mão – às grandes cadeias com café, poltronas e andares inteiros abarrotados de exemplares. A via, que foi um dos cenários da história de amor a distância estrelada por Bancroft e Hopkins, é ainda hoje o ponto de partida perfeito para um passeio pelas ruas londrinas, pontuado por sebos e grandes lojas de livros.

Charing Cross tem atualmente 13 livrarias (curiosamente, nenhuma no número 84, em que chegou a funcionar, de fato, uma loja de livros, fechada antes mesmo de o filme ser rodado). O charme dos ambientes e a beleza das encadernações antigas permanecem nos estabelecimentos que sobrevivem pela tenacidade dos donos e pela fidelidade dos clientes de longa data.


O estoque da Judd Books é composto por pilhas de exemplares usados e sobras de tiragem. Foto: Divulgação

A Any Amount of Books, no número 56, promete em seus folhetos e sacolas manter viva a “tradição de Charing Cross na venda de livros de segunda mão”. São dois pavimentos – térreo e subsolo – com corredores estreitos formados por estantes do chão ao teto. Por eles, circulam colecionadores, escritores, pesquisadores, curiosos e turistas produzindo rangidos no piso e nas escadas de madeira. É como uma volta ao passado, enquanto o presente se desenrola agitado através da grande vitrine frontal. Encostados a ela, já na calçada, descansam três pequenos tabuleiros com livros usados, vendidos por apenas £1,00 (R$ 2,65) a unidade – ou cinco volumes por £4,00 (R$ 10,60). Valem o quanto pesam, mas dá para garimpar algo interessante em meio a títulos como Manual de um jardineiro idiota, de Dephne Ledward, ou Guia de Londres para bebês, edição 2004.

Já as verdadeiras relíquias da Any Amount of Books ficam distantes da calçada e do olhar rápido dos pedestres. Estão trancadas à chave em um armário por trás do balcão de onde a única atendente da loja dá dicas aos clientes, recebe dinheiro e ensaca os livros. É dela, também, a missão de mostrar os exemplares raros e antigos. É só pedir. History of London, de W. Harrison, publicado em 1776, custa £ 795 (R$ 2.106,00), foi restaurado e mantém uma bela encadernação original. Trata-se de uma boa mostra do que se pode ver em meio aos 50 mil volumes da livraria.

Ainda em Charing Cross Road, seguindo em direção à Oxford Street, a rua do comércio de Londres, encontra-se a Henry Pordes Books. A livraria está no endereço há apenas 30 anos, mas carrega uma atmosfera da primeira metade do século 20, com balcões e estantes de madeira antiga. Aqui estão 12 mil volumes, divididos em 25 gêneros. Os livros raros garantem ao estabelecimento clientes cativos de Nova York, Paris e Munique, que hoje compram via internet. As vendas na rede respondem por 15% do faturamento. “Do Brasil, só tivemos dois ou três compradores on-line este ano”, diz Anthony Rhys Jones, um dos proprietários. “Mas há sempre brasileiros nas lojas”, completa.

Mais adiante, do outro lado da rua, a lendária Foyles atrai turistas e, principalmente, londrinos. A livraria foi fundada em 1903, de forma prosaica, pelos irmãos William e Gilbert Foyle. Decepcionados, depois de serem reprovados nos exames para o serviço público do Reino Unido, os jovens resolveram vender os livros didáticos. Gostaram tanto do resultado, que usaram o apurado para comprar mais exemplares e, daí, revender. Nascia aquela que mais tarde eles proclamariam como “a maior livraria do mundo”.


A Charing Cross Road virou título de filme com Anthony Hopkins. Foto: Divulgação

Nos três primeiros anos, a Foyles passou por alguns endereços fora de Charing Cross Road até se instalar, em 1906, no número 135 da famosa rua. Hoje, a loja se estende do edifício 113 ao 121, tem cinco andares e, se ainda não é a maior do mundo, certamente, é a maior livraria independente de Londres. Possui um estoque de qualidade, na matriz e nas filiais espalhadas pela capital inglesa.

“Nenhuma se aproxima da magnitude e da sedução da loja principal”, escreve Lesley Reader, autor do guia Book lover’s London, publicação que traz informações, endereços e horários de funcionamento de 650 livrarias londrinas. “Mas têm bom estoque, com boa seleção, ênfase em títulos sérios e força nos gêneros de ficção, artes, viagens e história”, avalia.

Descendo Charing Cross Road, agora no sentido contrário à Oxford Street, chega-se à Trafalgar Square, no centro de Londres, assim batizada em homenagem à vitória da Marinha Real Britânica na Batalha de Trafalgar, em 1805, durante as guerras napoleônicas. Ao redor da praça, quase em frente à National Gallery – um dos principais museus do mundo –, fica uma charmosa loja da cadeia Waterstone’s. São três andares, mais subsolo, com um estoque capaz de agradar a leitores de todas as estirpes. Há, lógico, os badalados best sellers nas vitrines, mas as estantes estão repletas de títulos distribuídos em quase 30 gêneros.

A Waterstone’s também fincou bandeira em outro ponto turístico de Londres: Picaddily Circus, localizado a algumas quadras de Trafalgar Square. Lá está a principal loja da rede. Com oito andares, a livraria é a maior da Europa. São seis pavimentos apenas de livros, algo em torno de 150 mil títulos, acomodados e organizados em prateleiras que, se um dia fossem alinhadas, somariam 13,5 km de extensão. O prédio foi construído em 1936 para abrigar a Simpsons, sofisticada loja de departamentos fechada no início dos anos 1990. A Waterstone’s comprou o edifício em 1999, dentro da política da empresa de ocupar construções de importância histórica ou arquitetônica. Visitá-la, portanto, é um alento para o intelecto e para os olhos.


Principal biblioteca do Reino Unido, ao redor da qual gravitam sebos e
livrarias especializadas. Foto: Divulgação

BIBLIOTECA GIGANTE
A British Library, principal biblioteca do Reino Unido, é outro ponto de Londres, ao redor do qual gravitam pequenos e imperdíveis sebos e livrarias especializadas. São apenas 10. Um tour pela região deve começar pela própria biblioteca, cujo catálogo reúne 150 milhões de itens, entre livros, manuscritos, mapas, desenhos, partituras, jornais e revistas. O acervo é acrescido anualmente com um exemplar de cada publicação lançada no Reino Unido e na República da Irlanda. Em meio a tantos textos, há os de maior apelo para os visitantes de ocasião, como as anotações de Leonardo da Vinci, os manuscritos dos Beatles e a Carta Magna, documento assinado em 1215, que limitou o poder dos monarcas da Inglaterra. São os tesouros da casa, expostos na galeria localizada no térreo, onde estão também prensas, tipos e objetos gráficos de várias épocas e lugares.

Uma visita à biblioteca quase sempre termina na British Library Bookshop. A livraria dispõe de uma grande e atualizada variedade de títulos que tratam dos aspectos históricos e técnicos da arte de fazer livros. É um complemento ao acervo da galeria, com a vantagem de que o visitante pode sair da loja com publicações, cartões, fotos, pôsteres e suvenires.

De volta ao circuito do caçador de livros, a próxima parada é a Judd Books, no número 82 da Marchmont Street – a rua fica quase em frente à British Library. Nesse sebo, é possível garimpar boas publicações acadêmicas, algumas praticamente novas e pela metade do preço de mercado. O estoque é composto por pilhas de exemplares usados e de sobra de tiragem, com ênfase nas áreas de arte, cinema, arquitetura, fotografia, música, história, filosofia, política e economia. Vale a pena levar uma bolsa grande, reforçada, e separar uma tarde inteira para explorar o labirinto de estantes dos dois pisos da loja.

Na mesma rua, mas no sentido contrário à megabiblioteca, a Gays The World oferece uma boa seleção de ficção e não ficção sob a temática homoafetiva. Há títulos de história, religião, poesia, psicologia e viagem. A livraria edita catálogos próprios periodicamente e tem uma movimentada programação de eventos. Já os amantes da fotografia vão se encontrar na Photo Book International, onde estão dispostas belas publicações ilustradas, novas e usadas, de várias partes do mundo, além de postais e revistas especializadas. E, pela cidade, há ainda opções para quem se interessa por cinema, islamismo, jardinagem, literatura indiana, motocicleta, navegação, cartum, brinquedos... Enfim, o mundo em livros nos 1.500 quilômetros quadrados de Londres. Para todo gosto, bolso e toda disposição. 

ANTÔNIO MARTINS NETO, repórter especial da TV Jornal.

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