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Circo da China: Disciplina, perfeição e leveza, sempre

Com a missão de difundir a cultura do país pela expressão artística, companhia comemora 60 anos de atividade, atravessando diferentes momentos políticos

TEXTO Pedro Paz

01 de Setembro de 2011

Espetáculo, que estreou no ano passado, percorre oito capitais brasileiras

Espetáculo, que estreou no ano passado, percorre oito capitais brasileiras

Foto Divulgação

A arte politicamente engajada ganha força, geralmente, em momentos obscuros de uma sociedade. Desde o processo de descolonização da China, em 1949, o Partido Comunista tem violado, entre outros direitos humanos, a liberdade de expressão da população. No entanto, o envolvimento dos chineses nessa questão parece escasso.

Existem pelo menos duas explicações para esse comportamento: o controle político da arte exercido pelo governo e a existência de uma espécie de consenso entre a população de que a nação está sendo bem-dirigida. Afinal, trata-se da segunda maior economia do mundo, hoje. Nesse cenário, fazer arte pela arte, estabelecer relações diplomáticas e disseminar a cultura do país pelo mundo é o caminho escolhido por grupos artísticos como o Circo da China (Shenyang Acrobatic Troupe). A companhia comemora 60 anos de atividades, em 2011, com o espetáculo Sky mirage II.

As artes circenses surgiram na China. Foi naquele território de dimensões continentais que se encontraram, pela primeira vez, figuras de acrobatas, contorcionistas e equilibristas em pinturas que datam de quase cinco mil anos. Em O circo no Brasil, o pesquisador Antônio Torres atesta, ainda, que a acrobacia era uma forma de treinamento para os guerreiros. Exigiam-se deles agilidade, força e flexibilidade. Com o passar do tempo, essas qualidades foram ganhando graça, beleza e harmonia. Até que, em 108 a.C., a arte circense começou a se tornar símbolo da cultura chinesa, depois que uma grande festa em homenagem a estrangeiros surpreendeu os visitantes com performances acrobáticas.

A partir desse fato, as dinastias Qin e Han (221 a.C. a 220 d.C.) estabeleceram que, anualmente, seriam realizados espetáculos do gênero durante o Festival da Lua, costume popular relacionado à colheita do verão. Até hoje, aldeões costumam praticar malabarismo com espigas de milho, além de brincar de saltar e de equilibrar imensos vasos nos pés. Durante essas dinastias, também, ocorreu no país o início da construção da Muralha da China, a unificação linguística, a invenção do papel e da porcelana e a popularização do confucianismo.

Diferentemente do que aconteceu na Ásia Oriental, a exibição desse tipo de habilidades, no Ocidente, despontou somente em Pompeia, na Itália, no ano 70 a.C. Surgido alguns anos depois, o Circo Máximo de Roma promoveu apresentações, jogos e festivais, até ser destruído por um incêndio em 40 a.C. Próximo ao local, foi construído o Anfiteatro Coliseu, para 87 mil espectadores. Lá, eram apresentadas excentricidades, como homens louros nórdicos, animais exóticos, engolidores de fogo e gladiadores. Entre 54 e 68 d.C., as arenas passaram a ser ocupadas por espetáculos sangrentos, nos quais cristãos eram perseguidos. E o interesse pelas artes circenses diminuiu. Então, muitos artistas passaram a improvisar apresentações em praças públicas, feiras e entradas de igrejas, dando surgimento ao que se conhece hoje como circo.


O espetáculo reúne, além dos elementos circenses, música, dança, iluminação, figuração e computação gráfica. Foto: Divulgação

Assim é que, enquanto animais selvagens, mágicos e palhaços caraterizam os picadeiros ocidentais, destreza, precisão e equilíbrio na utilização de utensílios domésticos distinguem os espetáculos chineses do gênero, como ocorre nos 15 números executados em Sky mirage II.

Durante 100 minutos, performances de contorcionismo, diábolo, mergulho na argola e roda-gigante ajudam a contar a história de amor entre a Fabulosa Ave Fênix e o Sol. Comprometida com sua busca pela luminosidade do astro, a ave tem como maior desejo que os dois se tornem um único e harmonioso elemento. Não obstante esse enredo mítico, o processo de globalização vem proporcionando a inserção de outros elementos do entretenimento aos espetáculos do Circo da China, como música, dança, iluminação, figuração e computação gráfica, transformando as apresentações num verdadeiro show business, compatível com estratégias de companhias modernas, como a canadense Cirque du Soleil.

RIGOR
Para atuar e executar os complexos números, os jovens acrobatas que compõem a trupe iniciam o treinamento muito cedo, por volta dos 6 anos de idade. Em regime de internato, aliam estudo formal e técnica circense. Somente após 10 anos de esforço é que podem concorrer a um lugar na mais antiga companhia de profissionais das artes acrobáticas em circulação na China desde a Fundação da República Popular. Apesar do rigor, não deixam de esbanjar simpatia em cena. Esse comportamento atraiu até a apresentadora Hebe Camargo, quando os acrobatas participaram de um de seus programas de TV, há 11 anos. Ela se tornou madrinha do Circo da China no Brasil e compareceu à primeira apresentação da atual turnê do grupo no país, em julho, em São Paulo.

O espetáculo Sky mirage II estreou em novembro do ano passado, na China. Dirigido por Zhang Shouhe, coreógrafo e professor de dança moderna do Instituto de Dança de Pequim, a montagem levou um ano para ser concebida e teve investimento de cinco milhões de dólares. Há um mês, a trupe deu início à sua sexta temporada no Brasil. Além do Recife, passará por mais sete capitais. Depois dos espetáculos no país, os acrobatas voltam para Shenyang, cidade do nordeste chinês (Liaoning), sede do grupo. O Circo da China já visitou, até hoje, os cinco continentes, apresentando-se em mais de 50 países e 200 cidades. 

PEDRO PAZ, estudante de Jornalismo e estagiário da Continente.

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