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O expressivo rap feito no Irã

Oficialmente banidos pelo regime, rappers iranianos ocupam espaços em redes sociais, documentários e até centro acadêmicos

TEXTO Thiago Lins

01 de Agosto de 2011

Salomé superou preconceitos de gênero e etnia

Salomé superou preconceitos de gênero e etnia

Foto Divulgação

Eles não têm medo de Ahmadinejad. Nem de Barack Obama. Comprando briga com os dois extremos da geografia política, a geração nascida após a Revolução Iraniana (movimento de 1979 que transformou a monarquia pró-Ocidente em uma república islâmica) clama por liberdade. Lutando contra o conservadorismo de Ahmadinejad e o liberalismo imperialista dos EUA, o rap já ganhou status de inimigo público no Irã. Lá, um órgão local equivalente ao nosso Ministério da Cultura chegou a emitir um documento em que condenava o estilo, tachado de “obsceno e vulgar”.

O fato de ser condenada por uma ditadura não foi suficiente para conter uma geração acostumada ao enfrentamento de barreiras. Há outra guerra acontecendo no Irã, e ela está na web. Naquele país, o rap é majoritariamente independente, com os artistas se lançando a partir de estúdios caseiros – os profissionais foram fechados –, via MySpaceYoutube e meios afins, num modo de produção batizado de home grown(cultivo caseiro). Por sua vez, o governo divulgou um documentário (Shock) em que os expoentes do gênero são rotulados de “drogados, satanistas e pervertidos”.

Algo tão longe da verdade quanto dizer que não houve Holocausto (pérola proferida por Ahmadinejad há dois anos, em ocasião de uma marcha anti-Israel). Oficialmente, a música ocidental é proibida desde 1979, ano em que o xá Aiatolá Kohmeini a tachou de “tóxica”. A imposição lembra o regime da antiga União Soviética, que baniu os Beatles até 1980. O resultado, três décadas depois: um beatlemaníaco no poder (Vladimir Putin, que ocupou a presidência até 2008) e um show apoteótico de Paul McCartney, na Praça Vermelha de Moscou, com direito a gravação de CD e DVD. Mas Ahmadinejad está muito mais interessado na corrida nuclear do que na cultura “ocidental”.

O que não impede que, na terra do “inimigo” Obama, acadêmicos, jornalistas e documentaristas venham atentando para o rap iraniano, cuja ascensão consideram emblemática: insistem, assim como os artistas que os acompanham, que o Irã, apesar de ser uma ditadura de fato e direito, não é um país fechado para o mundo, pelo contrário. O mundo é que pode ter se fechado para o Irã, dado o processo de excomunhão imposto pela mídia ocidental. “O estilo de vida e a retórica desses jovens desafia o conceito que o mundo tem daquele país, quebrando o paradigma de uma sociedade estática, amplamente divulgado pela mídia tradicional, e abre uma janela para mostrar os problemas da nação”, aponta o acadêmico Sanam Zahir, em sua tese de mestrado A música dos filhos da revolução, submetida ao departamento de pesquisa sobre o Oriente Médio da Universidade do Arizona.

ALÉM DO CLICHÊ
Se o Irã não é um inferno à beira de um armagedom nuclear, o hip-hop é muito mais do que um clichê da futilidade americana, que inunda a TV a cabo com carros potentes e mulheres idem. “Nossos rappers não são jovens negros do gueto de Los Angeles, vendendo drogas apenas para realizar o Sonho Americano”, define o jornalista Nassir Mashkouri, que acompanha a cena há quase 10 anos. Mashkouri cita uma frase dorapper Hich Kas, do qual falaremos adiante: “O terceiro mundo é o gueto do mundo, e é sobre isso que rimamos”, declara, no manifesto Uma rapportagem sobre o subúrbio do subúrbio do mundo.

O documento de 2006, disponível na web em inglês, soa como uma carta de intenções da primeira geração iraniana disposta a influenciar o Ocidente e ser influenciada por ele. Trata-se do Caranguejos com cérebro do Irã: o manifesto assinado pelo líder do Mundo Livre S/A, Fred 04, é tido como o marco-zero do manguebeat. Na carta, 04 reivindicava um “desbloqueio de artérias” para fazer o sangue voltar a circular “pelas veias da manguetown” e apontava para a importância da música enquanto ferramenta social, ideia que também é levada a sério pelos artistas que despontam no Irã.

Segregação à parte, a incipiente e oficiosa abertura iraniana está inserida num contexto de estreitamento de fronteiras. A juventude local, como lembra Mashkouri em seu artigo, está separada do mundo livre por um clique, situação cujas implicações sociais ainda são difíceis de estimar. O pomposo Wall Street Journal se adiantou e publicou, numa edição de janeiro, um artigo cuja conclusão soa mais profética do que hipotética: “Em suma, há uma marcha pró-democracia no Irã. Se não estiver nas ruas, estará nos estúdios. Agora, imagine o que pode acontecer caso medalhões do hip-hop americano, como Jay-Z (cujo império é superior a 150 milhões de dólares), respaldarem os iranianos com aspirações de rap stars”.

Bem, ao contrário de Jay-Z, nomes como Hich Kas ainda não figuram no iPod de Obama (seu playlist, divulgado apenas uma semana após sua eleição, causou frisson), mas não saem da mira de Ahmadinejad e seus asseclas. Volta e meia, a ditadura prende algum rimador insurgente sob alegação de “risco à Segurança Nacional”. Os artistas são unânimes em sublinhar que o Irã não é o inferno terrestre, mas estão longe de compactuar com o regime. As críticas têm aumentado desde a eleição de 2009, quando o Conselho de Guardiães, a mais alta corte daquele país, constatou a fraude na contagem de votos que beneficiou Ahmadinejad. À época, a população saiu às ruas e entrou em confronto com uma truculenta polícia. O episódio, em que houve até mortes, municiou a retórica dos rappers.

LIBERDADE
“A nossa geração, como as anteriores, luta por liberdade”, insiste Farbod Koshtinat, o diretor do clipe de Bando de soldados, de Hich Kas, em entrevista por e-mail. Grosso modo, o serviço que Koshtinat presta ao Irã se parece com o de Michael Moore, o nerd mais insubordinado da América: mostrar ao mundo um lado do país que o próprio governo não quer ver. Ele tem apenas 23 anos, mas já consumou uma façanha que seu presidente jamais deverá almejar: recebeu um prêmio das mãos de Hillary Clinton. À ocasião, Koshtinat estava sendo reconhecido pelo curta-metragem de sua autoria, Mr. Democrat. A animação, claustrofóbica, mostra um homem preso num poço e assemelha-se a uma “carta ao ditador”.

Imagine a democracia segundo Ahmadinejad, que chegou a afirmar ser o Irã o país mais democrático do mundo (em junho de 2010, quando de sua passagem pelo Brasil). Pois Koshtinat lança os inusitados conceitos democráticos de Ahmadinejad no curta, até concluir: “Senhor democrata, democracia não é tudo o que o senhor diz que é. Nem é tudo o que a gente diz que não é” (a Casa Branca deve ter adorado, e o Pentágono também). Resultado: Koshtinat recebeu o prêmio em setembro passado, seguido de uma salva de palmas solicitadas por Mrs. Clinton.


“O terceiro mundo é o gueto do mundo”, atesta o MC Hich Kas. Foto: Divulgação

Naquele mesmo mês, Ahmadinejad – o referido “democrata” – ficou falando sozinho na Assembleia Geral da ONU. Depois de ter dito que o 11 de Setembro era uma “conspiração americana-israelense”, presenciou uma diáspora diplomática. Esse tipo de verborragia solitária é um privilégio do presidente iraniano, que tem trabalhado ostensivamente para calar seus oponentes. Como são recorrentes as prisões de rappers no Irã (os registros são imprecisos, o governo omite os nomes dos presos e as penas aplicadas), muitos, como o próprio Hichkas, ficam na defensiva em entrevistas e acabam não dizendo tudo que gostariam.

Acontece que não é preciso integrar uma agência reguladora para descobrir quem é o inimigo: “Um bom dia vai nascer:/ Tanto quanto eu lembro/ Essa terra sempre teve uma voz/ Ela clama por um dia bom/ Que vai chegar quando não houver mais caos”, prega Hichkas, na esperançosa Um bom dia vai nascer (todos os versos e títulos foram livremente traduzidos do inglês). Fazendo coro com Yas (que em farsisignifica “ninguém”), o MC Aria Aram Nejad é mais claro: “Que pecado nossa nação cometeu que não seja chorar por liberdade?”, questiona, na letra de Vamos superar. Não adiantou chorar: Aram Nejad está preso, cumprindo pena de 10 meses, imposta pelo regime. Já Hich Kas sumiu do Irã, antes que a ditadura o fizesse sumir no Irã. Esteve em turnê recentemente, pela Europa e África do Sul.

TIRANDO O VÉU
O rap é um nicho eminentemente misógino. Pegue um disco de Tupac (assassinado misteriosamente em 1996, para muitos, o americano foi o maior rapper da história), e o ouvirá pronunciando incontáveis bitch; ou dos Racionais, e eles vão repetir a tradução do termo à exaustão: “vaca”. E o Irã é um país oficialmente machista, onde “crimes” como o adultério feminino podem levar à pena de morte. Agora, imagine uma mulher cantando rap por lá. Ela existe, e se chama Salomé.

A jovem que trocou o véu pelo rap nega conhecer barreiras em seu território. “Cada governo, cada país tem sua maneira de controlar as pessoas. Mas é por isso que a cultura emerge do underground”, teoriza em entrevista por e-mail, seguindo à risca a sua máxima de que “há uma solução para cada problema”. Salomé, que tem equipamento de gravação próprio e conta com amigos para mixar suas músicas, escoa sua produção de maneira completamente independente. A logística tem sido bem-sucedida: a jovem já estampou matérias em portais europeus, americanos e latino-americanos. Não estamos falando de blogs independentes, mas de veículos tradicionais como o Clarín argentino e o inglês Guardian. A MC ainda angariou uma indicação ao prêmio Freedom to Create, concedido por uma entidade americana aos “agentes da mudança”.

Apesar do reconhecimento, Salomé critica a mídia ocidental e seus indissociáveis conglomerados corporativos. “A imprensa deu início a uma propaganda em que árabes são terroristas/ E o Hamas, um bando de extremistas brutais/ Mas, na verdade, os palestinos são humanos e só querem seus direitos”, defende, em Grite até ser ouvido, em que faz menção ao território reivindicado há décadas por árabes e palestinos e, no outro front, por israelenses, aliados da terra de Ronald McDonald: para ela, qualquer ditadura, por mais retrógrada que seja, se apequena diante do imperialismo voraz propagado mundo afora. Ainda sobre Israel, na mesma letra: “Como uma terra e uma população tão pequena puderam crescer tanto?”, questiona, sobre o dumping belicista que se deu a partir da parceria entre Estados Unidos e aquele país.

Desconfiada, a MC tem feito pouco caso do hype que vem protagonizando. Costuma dizer que prefere ser ouvida por uma pessoa atenta a ser seguida por uma multidão dispersa. Ela se considera uma exceção e, como tal, não se admite sujeita à manipulação. “A maioria das pessoas sabe das coisas a partir do filtro de suas próprias limitações. Você merece ser manipulado, se acredita em tudo o que lê. Mas isso é trivial, o que fica é o básico. Eu amo o Irã, um país de grande história e tradições humanísticas”, resume.

Ela ama o Irã e odeia os EUA e Israel. Mas não poupa o homem que há seis anos diz ao seu povo o que se pode e o que não se pode fazer no país. Salomé é autora de Não turve as águas, a música mais associada à juventude pró-abertura, quase um hino geracional. Escrita após as eleições de 2009, Não turve... virou música de fundo dos jovens que foram às ruas, à época, protestar contra a manipulação do pleito.

MUDANÇA
Testemunhando protestos que ecoam nas ruas e nos porões, o jornalista Mashkouri admite que os jovens conterrâneos “são prisioneiros numa sociedade cercada por normas ultrapassadas”. Mas situa o Irã numa encruzilhada, simbolizada pelos atos mencionados. E arrisca: “Existe um novo mundo, em que as fronteiras estão se borrando”.

Essa é a impressão passada pelo documentário Nobody´s enemy (Inimigo de ninguém), dirigido por Neda Sarmast. A cineasta, que afirma ter perdido o melhor amigo na Guerra do Iraque, faz uso tanto de seubackground pessoal quanto profissional (nasceu no Irã, mas mora nos EUA desde criança, onde tem quase 20 anos de trânsito no showbiz) para desconstruir o preconceito em torno do Oriente. Exibido em 2008, em festivais pautados pela tolerância, como o de Dubai (Arábia Saudita) e Noor (Los Angeles), o filme constitui uma crítica “à ignorância dos americanos sobre os ‘supostos’ inimigos do futuro”, de acordo com a apresentação do seu respectivo site, em que é reforçado: “em muitos aspectos, os iranianos vivem como os americanos”.

Em outras palavras: o cruzamento de culturas, propiciado pela internet não é mera realidade virtual. O poder das redes sociais tem sido subestimado pelos ditadores daquela região, como foi o poder da música (vide o caso de Putin, o beatlemaníaco da KGB). Mas os protestos via redes sociais e a decorrente turbulência institucional em diversos países orientais provam que toda forma de expressão deve ser levada em conta. Nesse contexto de estreitamento de fronteiras, convém encerrar com a frase célebre do icônico Tupac Shakur: “É hora de mudanças”. 

THIAGO LINS, repórter especial da revista Continente.

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