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Ladjane Bandeira: Um profundo desejo de permanência

Artista falecida há 12 anos dedicou a última década de vida à produção de obra que fosse capaz de expressar sua agudeza mental

TEXTO Adriana Dória Matos

01 de Julho de 2011

Composições de figuras femininas e elementos da natureza caracterizam a série colorida

Composições de figuras femininas e elementos da natureza caracterizam a série colorida

Imagem Reprodução

O que é feito de nós quando já não estamos por aqui? Muitos banem o assunto. Alguns, especialmente quando o desaparecimento se torna tangível, cogitam a respeito. Poucos, no entanto, dedicam-se a essa ideia de modo a considerar que não há distinção entre vida e morte, ou, de forma radical, que, mortos, estamos para sempre vivos. Embora não possamos ser taxativos, esta é uma interpretação razoável do impulso artístico de Ladjane Bandeira (1927-1999), sobretudo quando observamos seu comportamento na última década de vida, manifestado neste depoimento, de 1989: “Minha filosofia de vida? Tornar a solidão cuidadosamente construída, cada vez mais congnoscente para conhecer-me cada vez melhor e projetar-me inteiramente em minha arte. Só me conhecendo bem os outros me poderão conhecer um pouco, e assim me terei comunicado, mesmo depois da morte, através dos meus trabalhos”.

Essa artista pernambucana de Nazaré da Mata – que viveu dos 21 anos até sua morte no Recife – levou tão a sério a ideia de construir uma obra perene, que, para isso, abriu mão da convivência real com as pessoas, canalizando sua energia para o trabalho criativo, resultasse ele em desenhos e pinturas, poemas e peças teatrais ou em anotações e aforismos. De uma profissional que participava da vida artística pela crítica, exercida no jornalismo impresso, Ladjane passou, aos poucos, a uma reclusa, considerada excêntrica e ininteligível. Embora esse comportamento tenha se acirrado do final dos anos 1980 até 1999, ele já se anunciara antes. Em 1979, ela registrou em seu diário: “É feliz quem tem a sorte de viver só. Quando se tem uma vida inteira cognoscente, plena, criativa, povoada de ideias, não se sente necessidade de presença física, e sim do pensamento das pessoas. Esse eu encontro nos livros, na música, na filosofia”.

Somente com tal demonstração de força interior, apontada nos escritos de Ladjane, um artista pudesse ignorar as exigências do circuito de arte, que forçam o autor a agir como produtor e divulgador da própria obra, fazendo-se afirmar num ambiente cada vez mais competitivo, com demandas muitas vezes artificiais, que não dizem respeito às necessidades criativas daqueles que acabam se adaptando forçadamente. Ladjane abandonou quaisquer motivações provenientes da resposta “de público”, fosse este um crítico, um leitor, um contemplador, um comprador. Ela não estava para negociar com ninguém que não fosse ela mesma e seu complexo mundo interior.


Antes de optar pela reclusão, a artista foi atuante crítica cultural na imprensa pernambucana. Foto: Reprodução

Para a medicina, ela era um caso de esquizofrenia, que podia ser tratado mediante o uso de medicações. Mas o que significava ser “tratada”? Voltar ao que para ela era a imolação do convívio social? Não havia interesse para a artista, o importante era construir uma obra, original, intensa, relevante.

Todo o seu esforço poderia ter-se extinguido com ela, como aconteceu a tantos. Afinal, quantos não estão submersos para sempre?

Mas, nessa história insólita, tomou corpo um insuspeito personagem, a sobrinha de Ladjane Bandeira, filha de um de seus irmãos. Márcia de Miranda Lyra, que, como ela mesma descreve, não tinha nenhuma relação com arte, no seu sentido estrito, tampouco privava da convivência com a tia. Mas, desde que, em 2004, teve acesso ao seu espólio, seus interesses deram uma guinada. “Quando me dei conta da relevância da obra de Ladjane, passei dois anos chorando com a possibilidade de ela desaparecer.” Foi então que a sobrinha deu início a uma pesquisa pelo reconhecimento da herança recebida. A primeira materialização do empenho da cientista da computação, que se tornou curadora e mantenedora da obra dessa artista peculiar, é o livro-catálogo Biopaisagem de Ladjane Bandeira – A transformação da natureza em conhecimento, recentemente lançado, distribuído para instituições de 14 países (a edição recebeu traduções para o inglês, espanhol e francês) e adquirível em contato direto com Márcia Lyra (fone: 81-3226.0593)

TELÚRICA E REFLEXIVA
Ainda cabem estudos críticos sobre o trabalho de Ladjane Bandeira, mas para isso será necessário mais que a publicação dessa obra, cuja importância reside em mostrar a intensidade temática e a qualidade técnica do trabalho da artista, sobretudo em artes plásticas. “Ladjane não faz arte, faz pesquisas”, afirma Márcia Lyra, no sentido de não restringir seu acervo a um locus específico. Embora sua virtude de pesquisadora esteja evidente no livro, grandes artistas foram pesquisadores e, ainda assim, encontraram legitimação no campo artístico e não entre os cientistas naturais, por exemplo. Se a linguagem escolhida por Ladjane foi a arte, que nela ela seja inserida parece o caminho natural e exato.


O desenho Cosmobiótica III, em bico de pena, é um dos quatro que
representam cabeças na série
Transformação da natureza em conhecimento.
Imagem: Reprodução

“Seu acervo é vasto e ilustra a diversidade de interesses que marcou a existência e a atuação da artista ao longo de sua vida. Nosso esforço aqui é o de divulgar um de seus mais fascinantes trabalhos estéticos, uma obra de intenso magnetismo e potencialidades múltiplas, intitulada Biopaisagem, projeto no qual Ladjane buscou expressar plasticamente suas ideias filosófico-científicas, especialmente sobre os mistérios da Natureza Humana”, escreve Márcia Lyra, no prefácio ao livro. Além dela, participa da publicação a professora da pós-graduação em Letras da UFPE, Ermelinda Ferreira, que foi uma das pessoas que, no âmbito acadêmico, acolheram e apoiaram o projeto da herdeira.

O olhar de Ermelinda sobre o trabalho de Ladjane observa aspectos de gênero, tanto quando analisa a série de pinturas coloridas A metamorfose humano-vegetal (Suíte colorida), quanto no comentário acerca dos desenhos em bico de pena de Transformação da natureza em conhecimento (Suíte em preto e branco). No primeiro conjunto, ela encontra uma representação que “parece evocar o estereótipo ecofeminista da mulher-deusa”. No segundo, ela encontra aproximações estéticas entre os desenhos de Ladjane e as composições maneiristas de Giuseppe Arcimboldo, relidas em estilo ultrafuturista pelo suíço H. R. Giger, ao mesmo tempo em que aponta na série a “temática da autocriação ou da gestação artificial do humano”.

Deter-se em Biopaisagem é também perceber as complexas relações engendradas nessa obra entre o conhecimento filosófico-científico e o esotérico-intuitivo, algumas vezes de caráter contemplativo e religioso. Todos esses elementos perpassam a maior parte das 83 obras reproduzidas e evidenciam a intensidade do pensamento de Ladjane Bandeira, que se permitiu a independência. Ainda tomando as palavras da própria artista, para entendê-la, lemos o que diz a respeito do processo criativo: “A liberdade excessiva estimula o visionarismo. Estimula e deve, às vezes, mais que estimular. Até hoje, muitas das obras literárias mais permanentes são aquelas que se apresentam com um conteúdo aparentemente visionário. Por trás do visionarismo há um sentido profundo e sempre atual de interpretação para os que saibam interpretá-lo. A arte que se prende apenas ao dia a dia passa com a transitoriedade maior do cotidiano. O visionarismo culto, com uma intenção determinada, transcende essa transitoriedade absoluta e se projeta através do tempo, às vezes até a sua própria revelia”. Que Ladjane viva, então. 

ADRIANA DÓRIA MATOS, editora-chefe da revista Continente.

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