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Bondes e trilhos

TEXTO José Cláudio

01 de Julho de 2011

José Cláudio. Xilogravura da capa do álbum 'Catente', 19x19cm, 1971

José Cláudio. Xilogravura da capa do álbum 'Catente', 19x19cm, 1971

Imagem Reprodução

Alexandre Furtado, autor do livro De ruas e inti-nerários (Cepe Editora), “revela que, apesar de jovem, cultiva grande nostalgia de um Recife que não chegou a conhecer, como a época dos bondes e trilhos” (suplemento Pernambuco, março/2011). Eu, apesar de velho, morro também de inveja não de quem alcançou os bondes, que isso também alcancei, mas de quem viveu no tempo da maxambomba. Lembro até a quadrinha, por certo lida no Maxambombas e maracatus de Mário Sette: “Subi na bomba/Chupei pitomba/Atirei o caroço/Na maxambomba”. Perante estes, me curvo, se é que inda existe algum. Já em relação aos que não viram os bondes, reino soberano.

Tenho até histórias a contar, aproveitando a deixa para outros bichos de trilhos que desapareceram, como os trens da Great Western e as marias-fumaças que carregavam canas pelos engenhos: “Eu vi/O vapor apitá/Que vinha/De Santa Luzia/A carga/Que ele trazia/Era grã-fina e cristá”, samba-de-matuto cantado por Seu Crescêncio, barraqueiro do Engenho Piedade, perto do Gaipió, Ipojuca. Grã-fina e cristá (cristal) tipos de açúcar. Os vagões da máquina da Usina Ipojuca só carregavam cana. Eu era doido para andar de trole, os homens empurrando na vara, mas mamãe nunca deixou. Também nunca andei de carro de linha (não consta no Aurélio nem no Houaiss) de que ouvia falar, uma espécie de trole com capota e movido a motor. Parece que a estação de Santa Luzia era do trem de Barreiros, onde ficava a Usina Central Barreiros, a maior do litoral sul, páreo para a Catende, Palmares. Acho que era nessa linha de trem que ficava a Usina Mercês, visitada pelo Imperador Pedro II, diz a lenda, única vez que o território ipojucano foi pisado por um imperador. Nessa linha de Barreiros ou Palmares (parece que Barreiros era um ramal) ia-se também para Garanhuns e Alagoas, havendo uma bifurcação em Glicério, onde o poeta Ascenso Ferreira, palmarense, parava para tomar sopa. E eu paro para contar a história, que os mais novos talvez não conheçam, dando ensejo a Joca Souza Leão de contá-la melhor.

Na parada de Glicério o trem demorava um pouco mais para a troca de passageiros e bagagem, indo uns para Maceió e outros para Garanhuns ou Palmares como era o caso de Ascenso. Ascenso se encabulava porque a sopa servida num daqueles hoteizinhos, que viviam desses passageiros em trânsito, vinha quente demais. Um dia, o trem apitou, “o trem apitou/pediu mala/cadê Ascenso Ferreira/que não fala”, todo mundo saiu correndo menos Ascenso. O garçom veio avisá-lo de que o trem já tinha apitado. “Vou ficar”. Tomou a sopa, pediu outra, o preço era por cabeça, e mais outra e mais outra enquanto tivesse sopa. No fim, o dono disse: “Não precisa pagar nada. Eu só queria que amanhã o senhor fosse tomar sopa no hotel ali defronte”.

Minha primeira história de trilhos é emocionante. Quer dizer, foi, para mim. Eu devia ter seis anos (1938) e nunca tinha saído de Ipojuca com exceção de uma ou outra vez perdida que devia ter vindo ao Recife. E agora, ainda por cima, de mudança, para Garanhuns, onde minha mãe ia passar seis meses, por problema de saúde, erro médico, aliás. Não deu em nada mas para nós foi ótimo. Saímos ainda noite de Ipojuca no carro de Dudu, um carrão velho de capota de pano, além de minha mãe e minha irmã Nena, ainda não nascidas três outras, minha tia Maria José, meu avô paterno Joaquim Pedro da Silva, mais conhecido como Pedro Taveira, por ter sido morador do Engenho Taveira, Cabo de Santo Agostinho, e meu pai que ia nos levando, Amaro Joaquim da Silva. Pela primeira vez vi Vovô Pedro calçado de sapatos, um par de botinas reiunas pretas novas, com uma alcinha de couro atrás na boca para ajudar a calçar. Como papai não podia ficar muito tempo longe da loja, Vovô Pedro ia como o homem da casa. Ainda noite chegamos à estação da Ilha, Cabo, e descarregamos a bagagem à luz de candeeiro. Às cinco pegamos o trem. Ajudado por Lourdinha, de Quipapá, mulher de Roberto Nóbrega, lembro de muitas estações sem puxar demais pelo juízo: Maraial, São Benedito, Jaqueira, Gameleira, Glicério, Cuiambuca, Canhotinho de onde Clóvis Cavalcanti vez por outra me traz oiticoró e tantas outras estações. A gente conversando no trem disparado, as paisagens passando, sem medo de catabi, ou almoçando no carro-restaurante, até hoje trem para mim é a melhor forma de viajar.

Os espaços urbanos de Garanhuns pareciam enormes, a praça, a calçada do Santa Sofia, a feira, o Parque dos Eucaliptos onde a ema, que eu só tinha visto nos livros de Felisberto, passou o pescoço por cima da cerca e tirou o chapéu de papai (homem feito, voltei ao Parque dos Eucaliptos e só encontrei um chão esturricado e mais nada). Também a primeira vez que vi cinema, um filme de desenho animado, passando a haver uma cumplicidade entre mim e mamãe ao ouvirmos certo tipo de música no rádio, até mesmo depois na volta a Ipojuca, de chamá-la de “música de desenho animado”, como muitos chamavam música sinfônica de “música de filme de terror”. Foi em Garanhuns a primeira vez que senti frio: de lã, só conhecia novelo, vendido na loja para fazer bordado.

As aventuras tranviárias ficam para a próxima vez. 

JOSÉ CLÁUDIO, artista plástico.

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