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Biografia: Seguindo os passos do poeta português

Advogado e colecionador José Paulo Cavalcanti revela os caminhos que o levaram a produzir 'Fernando Pessoa – Uma quase autobiografia'

TEXTO Schneider Carpeggiani

01 de Maio de 2011

Óculos de leitura do poeta e exemplar da revista da qual foi editor integram coleção de José Paulo

Óculos de leitura do poeta e exemplar da revista da qual foi editor integram coleção de José Paulo

Foto Danilo Lins Galvão/Especial para a Continente

Ficção "pega". José Paulo Cavalcanti Filho põe a gravata na hora em que precisa tirar fotos relativas a seu trabalho como advogado. Retira o acessório, quando a imagem é para algo relacionado a Fernando Pessoa, objeto de uma década de obsessiva relação, que resultou em Fernando Pessoa – Uma quase autobiografia (Record). “Por isso ‘uma quase autobiografia’: há mais palavras dele do que minhas”, faz questão de justificar o inusitado do título escolhido. São mais de 700 páginas em que seu texto se mistura ao do escritor, destacando que a escrita foi resultado de intensa simbiose.

A interação foi tamanha, que podemos pensar no detalhe da gravata como um “sintoma de heterônimo”, que contaminou o biógrafo em meio à pesquisa. Pessoa necessitava se transformar em outros para escrever. Para cada novo texto, outra personalidade, novos detalhes e manias precisavam emergir. Sua marca literária era a fragmentação. Advogado e biógrafo parecem personas distintas de José Paulo. Mas seu contágio foi além da gravata. Se Pessoa colecionava heterônimos, José Paulo coleciona “Pessoas”.

“Nunca fui um colecionador. Só depois dos 50 anos é que essa história começou”, explica o biógrafo, 62 anos. E não estamos falando de um colecionador qualquer. Há dois anos, a Fundação Roberto Marinho montava uma exposição sobre Fernando Pessoa para o Museu da Língua Portuguesa (SP). Mas o acervo de itens originais do poeta era mínimo, quando comparado à mostra virtual que estava sendo montada. Os curadores souberam que um advogado pernambucano escrevia uma biografia do português e que havia angariado alguns dos seus objetos pessoais em leilões.

“A Fundação Roberto Marinho queria saber se eu tinha alguma coisa de Pessoa que pudesse emprestar. Eu disse que não tinha alguma coisa. Eu tinha ‘tudo’”, lembra José Paulo, enfático. Esse “tudo” tem suas limitações. Mas poucas. Falta, por exemplo, a arca em que Pessoa guardava seus escritos e a correspondência, ativa e passiva, entre ele e Ophélia Queiroz. Um dos seus sonhos eram as cartas enviadas para Mário de Sá Carneiro. Reza a lenda que elas foram enterradas junto com o poeta. José Paulo cogitou (seriamente) pedir a exumação do corpo. “Só essas cartas já dariam um livro...”, continua sonhando.


José Paulo Cavalcanti diz que seu livro reúne mais frases de Pessoa que de sua lavra. 
Foto: Danilo Lins Galvão/Especial para a Continente

Depois de ter recebido um público de 200 mil pessoas, entre agosto de 2010 e fevereiro deste ano, na capital paulista, a mostra Fernando Pessoa, plural como o universo está agora em cartaz no Centro Cultural Correios do Rio de Janeiro. José Paulo ressalta que paulistanos e cariocas viram pouquíssimo do seu acervo. Em meio a esse ínfimo, relíquias como um poema-charada assinado pelo heterônimo Gaudêncio Nabos, o original da célebre Tabacaria e exemplares de revistas que Pessoa dirigiu, como Orpheu e Athena. Naquele começo do século passado, as revistas eram o grande meio de renovação e divulgação da nova literatura portuguesa.

José Paulo gostaria de colocar em exposição seu acervo de Pessoa, em larga escala, para o público pernambucano. Mas confessa que a logística é complicada. Dificilmente, a mostra Fernando Pessoa, plural como o universo chegará ao Recife. “Eu não coloco meu acervo em exposição sem um bom seguro por trás. Os museus daqui não têm segurança necessária para abrigar uma coleção como essa. Por enquanto, esses objetos estão mais seguros comigo”, observa.

O acervo de José Paulo tem caprichos de colecionador, como o notório pince-nez do poeta, primeiras edições, manuscritos, cartões com sua assinatura, uma foto aos sete anos, retratos que nunca foram expostos e até uma raridade: o livro que estava no bolso do escritor quando ele morreu, no caso uma coletânea de poemas de Boccage, que o levou a dizer as célebres últimas palavras “Dai-me os óculos.” Espera ainda, para breve, a chegada de um cachimbo de Pessoa. Detalhe: toda vez que vai falar do tal cachimbo, tropeça no ato falho e começa a dizer as primeiras sílabas de “charuto”. Mas Pessoa não fumava charutos. José Paulo não para de fumá-los. Inconsciente é a linguagem; literatura é contaminação.

CARICATURA
Escrever o livro e montar a coleção renderam ao advogado histórias pitorescas. Há alguns anos, soube que a famosa caricatura de Pessoa estava à venda (a mesma que ilustra a capa da biografia). O leilão seria em Portugal, no dia do aniversário de José Paulo. Ele não pensou duas vezes e cruzou o Atlântico para participar do pregão. No dia marcado, estranhou a tal caricatura exposta: de um tamanho bastante reduzido e feita num papel que estava longe de ser o ideal para esse tipo de desenho.


Entre os itens da coleção, uma foto do poeta português aos sete anos e volumes de sua biblioteca. Foto: Danilo Lins Galvão/Especial para a Continente

Em meio ao leilão, os lances foram subindo, subindo... Chegaram a inacreditáveis 100 mil euros. José Paulo sabia que o valor era excessivo para uma caricatura tão pequena. O aniversariante voltou para o hotel sem seu “presente”. Antes de dormir, lembra até hoje que, da vista do seu quarto, havia um reluzente anúncio da companhia de seguros portuguesa Tranquilidade. Ficou com a tal palavra na cabeça, repetindo-a como um mantra.

Alguns meses depois, ficou sabendo que a caricatura real de Pessoa estava sendo vendida por uma viúva portuguesa. Que aquela do seu aniversário era, na verdade, um estudo. José Paulo voltou a Portugal e conseguiu comprar o desenho por um valor bem inferior aos extorsivos 100 mil euros de antes. Durante a compra, inventou de contar uma piada (real) à viúva.

José Paulo lembrou que, há alguns anos, vagando por Lisboa, encontrou no meio da rua o que ele acreditou ser o “sósia mais perfeito de Pessoa”. Impressionado com a semelhança, começou a seguir o tal homem pela cidade. O sósia notou que estava sendo seguido e apertou o passo, sumindo em meio à multidão. Ao brincar que se tratava do fantasma português, o biógrafo não esperava o que viria em seguida: a viúva não só não riu da “piada”, como suspirou, enfática: “Era o fantasma de Pessoa”.

Com o dinheiro da gravura já depositado em sua conta, a vendedora passou a desconversar sobre a entrega da compra. Chegou a acenar que, talvez, o desenho não chegaria às mãos do seu comprador. Detalhe: José Paulo não tinha um recibo da transação. Até que, prestes a voltar para o Brasil, já desenganado, recebeu a visita dela com a gravura e uma história em mãos: “Meu genro quis comprá-la de mim, porque achava um absurdo um objeto tão raro sair da família. Disse que só venderia para ele se o fantasma de Pessoa lhe aparecesse também. Não apareceu. Como Pessoa apareceu para o senhor, acho que a gravura tem de ser sua”. Ficção não só “pega”, como “assombra”. 

SCHNEIDER CARPEGGIANI, jornalista e editor do suplemento Pernambuco, doutorando em Teoria Literária.

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