Clique ao lado para visualizar o sumário da nova CONTINENTE.

Arquivo

Casa cheia e plateia eufórica

Com 15 anos de história, o Cine PE, líder nacional em público, é considerado um dos mais importantes eventos do setor no Brasil

TEXTO Dora Amorim

01 de Abril de 2011

A cada edição, 30 mil pessoas circulam pelo Teatro Guararapes

A cada edição, 30 mil pessoas circulam pelo Teatro Guararapes

Foto Cine PE/Divulgação

Na noite de 12 de março de 1997,Festival de Cinema Nacional do Recife teve sua abertura com a avant-première de Baile perfumado, dos cineastas Paulo Caldas e Lírio Ferreira. Marco da retomada da produção audiovisual em Pernambuco, primeiro longa-metragem depois de 18 anos de apatia, o filme era um dos resultados do fértil momento da produção cultural no estado, iniciada com o movimento Manguebeat. Essa primeira edição, sediada no tradicional Cinema São Luiz, reuniu cerca de 10 mil pessoas, em seis dias de exibições, e teve como vencedores os curtas-metragens Criaturas que nasciam em segredo, de Chico Teixeira (16 mm) e Mr. Abrakadabra, de José Araripe Jr. (35 mm).

Quinze anos se passaram e o festival triplicou o seu público, mudou de nome (em 2003, para Cine PE – Festival do Audiovisual) e de casa (Teatro Guararapes), sendo hoje considerado um dos três mais importantes eventos de cinema do Brasil, ao lado dos tradicionais festivais de Brasília e Gramado, fundados em 1965 e 1973. Paralelamente ao seu desenvolvimento, a produção audiovisual de Pernambuco se tornou uma das maiores expressões artísticas do país. “Jamais diria que esse crescimento do cinema pernambucano se deu exclusivamente ao papel do Cine PE. Mas não há a menor dúvida de que o festival contribuiu, e muito, para deslanchar os que já apostavam no cinema e despertar o interesse das novas gerações”, defendeu Alfredo Bertini, criador e diretor do Cine PE, ao lado da esposa Sandra Bertini.

MAIOR FEITO
Com a retomada do cinema brasileiro, paralisado desde o governo Collor em função do fechamento da Embrafilme, vários festivais surgiram no território nacional: o Vitória Cine Vídeo (ES), o Festival de Cinema e Vídeo de Cuiabá (MT) e, em Pernambuco, o Cine PE. Motivado pela visita ao Festival de Gramado, em 1994, e pelos apoios aos filmes O cangaceiro Baile perfumado, na figura de secretário-adjunto estatal de Indústria, Comércio e Turismo, Alfredo Bertini investiu num festival de cinema sediado em Pernambuco, pois havia uma grande carência para a exibição de filmes nacionais.

O momento era oportuno: o cinema local ressurgia com a gravação de alguns curtas-metragens e com o projeto do longa-metragem de Paulo Caldas e Lírio Ferreira. “O Cine PE surgiu num momento importante de autoafirmação do audiovisual local. Ele é, ao mesmo tempo, causa e sintoma dessa efervescência. Se, de um lado, a produção local vem chamando a atenção do cenário nacional, de outro, o evento se estabelece como uma referência da participação do público no Brasil”, analisa o cineasta pernambucano Daniel Bandeira.


O cineasta pernambucano Daniel Bandeira questiona o modelo do
festival. Foto: Divulgação

Depois de uma estreia bem-sucedida, o Cine PE saiu do Cinema São Luiz, de acordo com o diretor do festival, por conta do alto preço do aluguel, transferindo-se para o Teatro Guararapes, no Centro de Convenções de Pernambuco. O tamanho do lugar parecia desproporcional aos padrões de festivais nacionais de cinema, já que era grande demais, com capacidade para 2.400 pessoas.

“Alfredo Bertini e equipe foram audaciosos ao transformar aquele lugar gigantesco numa sala de cinema. Ele já havia definido com Walter Salles a primeira exibição no país de Central do Brasil, ou seja, antes do prêmio de Fernanda Montenegro em Berlim. A sessão histórica, com a atriz ao lado do ex-governador Miguel Arraes no meio de plateia colossal – e excitada – foi marcante: nunca mais a imprensa nacional esqueceu o Cine PE”, relembra o crítico de cinema Luiz Joaquim.

E aquele se tornou o maior feito do Cine PE: o seu gigantesco público. Para um estado que adora superlativos, ter o festival de cinema que reúne a maior quantidade de pessoas por sessão no país (em alguns casos com 2.700 espectadores) é um feito respeitado. No Brasil, a maioria dos filmes nacionais, produzidos sem o apoio de grandes estúdios e distribuidoras, percorre festivais e dificilmente entra em circuito comercial multiplex, restringindo-se a salas de cinemas “alternativas”. Então, para os realizadores, exibir seus filmes para uma plateia de 2.400 pessoas é animador. O título de “maior festival de cinema em número de público do Brasil” tornou-se o slogan publicitário do Cine PE, revelando o quão importante é a democratização do acesso ao cinema no país, ao mesmo tempo em que aponta problemas no seu formato.

AGRADAR AO ESPECTADOR?
“Parece-me que se trata de um evento aberta e assumidamente voltado a um diálogo com o público. Isso está não apenas na escolha dos filmes, mas também na dos homenageados. Não foi por acaso que o Cine PE prestou recentes tributos à Globo Filmes, a Guel Arraes e, este ano, a José Padilha. São todos nomes e entidades que, de alguma forma, trabalham em consonância direta com a tomada de posição no mercado. E isso me soa evidente no Cine PE: a inserção numa tentativa de diálogo com esse mercado, consumido pelos que frequentam o festival”, analisou Marcelo Miranda, crítico de cinema e um dos curadores do Festival de Brasília de 2010.


Acercadacana, Melhor Filme do Festival de Brasília de 2010, está na programação.
Foto: Divulgação

Agradar aos espectadores é o maior objetivo da mostra, que se orgulha das 30 mil pessoas que circulam pelo Teatro Guararapes, a cada edição, e que por isso desenvolve uma programação com forte apelo popular. Porém, ao invés de apontar caminhos e dar espaço a novas linguagens e olhares cinematográficos, o evento acaba não contemplando uma produção audiovisual mais inovadora. Com isso, não corre riscos e, por vezes, desconsidera seu público. Em São Paulo, o Paulina Festival de Cinema se aproxima do modelo popular do Cine PE e já foi protagonista de grandes polêmicas. Na edição de 2010, no debate de imprensa do filme Dores e amores, de Ricardo Pinto e Silva, críticos e realizadores entraram em choque e os jornalistas chegaram a escutar a célebre frase “Todo crítico de cinema é um cineasta frustrado”.

Um dos mais tradicionais do país, o Festival de Cinema de Gramado, desde 2006 sob a curadoria do cineasta Sérgio Sanz e do crítico José Carlos Avelar, tenta se livrar do título de “mostra decadente”, embora tenha percorrido um caminho bastante irregular nesses anos, prezando pelo glamour em detrimento dos bons filmes. Em contraponto, festivais muito menores conseguem se aproximar do público através de um diálogo aberto e, embora não ofereçam uma programação de fácil consumo, atraem uma plateia cada vez maior, interessada em refletir e discutir cinema.

No Recife, o Janela Internacional de Cinema cumpre bem esse papel ao promover um contato direto entre o público e os realizadores. A Mostra de Cinema de Tiradentes, em Minas Gerais, também se destaca nesse sentido, pois há 14 anos é considerada uma vitrine do que está acontecendo de novo e instigante no país, dando espaço ao trabalho de novos autores. A Semana dos Realizadores, no Rio de Janeiro, com apenas duas edições, torna-se conhecida pela boa qualidade das obras exibidas e pelo grande interesse do público que acompanha até tarde da noite os debates com os cineastas.

“Não há fórmulas nem direcionamentos. Há olhares, recortes, escolhas. Não necessariamente buscamos os ‘melhores’ filmes – porque isso era algo relativo naquele momento –, mas os que apontavam caminhos, inseriam questões, problematizavam o próprio fazer cinema”, afirmou Marcelo Miranda, sobre a experiência como curador no último Festival de Brasília.


Alfredo Bertini, criador e diretor do Cine PE, comemora o
sucesso. Foto: Cine PE/Divulgação

Com o prestígio conquistado ao longo desses 15 anos, o Cine PE não deveria se acomodar com o status que ocupa hoje no cenário do audiovisual brasileiro. Pelo contrário, poderia potencializá-lo para tornar-se um festival que propõe novas temáticas, investiga a produção cinematográfica e abrange diferentes linguagens. “Com o grande público, ele conquistou seu espaço junto aos grandes festivais de cinema do Brasil. No entanto, já é hora de usar esse respaldo adquirido para algumas ousadias. Se, não raro, os filmes de apelo popular geram críticas à qualidade geral da seleção. Talvez seja a hora de assumir riscos, com filmes de estéticas, temáticas e linguagens diversas, mesmo que choquem o seu público. Afinal, não conheço nenhum diálogo que seja produzido sem a estranheza entre as partes”, defendeu Daniel Bandeira, já premiado pelo festival, com o filme Amigos de risco, de 2008.

PRATA DA CASA
Sem dúvida, a exibição de Central do Brasil, em 1998, foi um dos grandes momentos do festival, com a citada presença da atriz Fernanda Montenegro e do jovem ator Vinícius de Oliveira na plateia. O filme acabava de ser premiado no Festival de Berlim e fazia sua primeira exibição nacional no Cine PE. “É muito difícil dizer o melhor momento, entre tantos. De qualquer forma, vê-lo nascer em 1997, firmar-se com aquela histórica exibição de Central do Brasil, em 1998, para ver depois a casa cheia sempre, tem sido mesmo uma emoção sem igual”, lembra Bertini. Foi ele quem, em 2009, convidou o cineasta grego Costa Gavras para receber uma homenagem do festival pelo conjunto de sua obra, além de exibir o novo filme Eden à l’ouest (O Éden é no oeste), nos palcos do festival, numa sessão histórica para os cinéfilos da cidade.

Porém, ainda são os filmes pernambucanos que propiciam momentos de grande euforia, basta lembrar a sessão de Recife frio, de Kleber Mendonça Filho, na edição de 2010.

Em 2011, o festival acontece entre os dias 30 de abril e 6 de maio e confirmou a presença de oito curtas pernambucanos na mostra oficial: Acercadacana,de Felipe Peres, Café Aurora, de Pablo Polo, Calma Monga, calma, de Petrônio Lorena, Janela molhada, de Marcos Henrique Lopes e Mens sana in corpore sano, de Juliano Dornelles (todos no formato 35 mm); e As aventuras de Paulo Bruscky, de Gabriel Mascaro, Peixe pequeno, de Vicent Carelli e Altair Paixão, e Vou estraçaiá, de Tiago Leitão, no formato digital. 

DORA AMORIM, estudante de Jornalismo e estagiária da Continente.

Publicidade

veja também

Entre fósforos e canivetes

A volta dos mortos-vivos

Contraditos: Apenas uma retórica desconstrucionista

comentários