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Contundente registro do Brasil

A partir de novo documentário, 'O Contestado', diretor catarinense analisa os temas de sua prolífica produção, enquanto prepara filme sobre Graciliano Ramos

TEXTO Weydson Barros Leal

01 de Fevereiro de 2011

Sylvio Back

Sylvio Back

Foto Divulgação

O diretor, roteirista, poeta e produtor cinematográfico Sylvio Back está lançando um novo filme. O Contestado – Restos mortais (2010) começou a ser apresentado, em agosto de 2010, em festivais de cinema no Brasil e no exterior. Em março de 2011 entrará no circuito comercial de todo o país.

Catarinense de Blumenau, radicado no Rio de Janeiro desde 1986, Back começou sua carreira de cineasta paralelamente a outras atividades ligadas à arte da palavra e das imagens, ainda na década de 1950, em Curitiba, onde viveu alguns anos. Conta que despertou para o cinema “assistindo aos filmes do neorrealismo italiano e seriados de Hollywood no início dos anos 1950”, período em que foi editor do suplemento literário Letras e Artes do Diário do Paraná, no qual, segundo ele, foi um dos primeiros copidesques do Brasil.

Foi crítico de cinema em jornais de Curitiba e colaborou com artigos de cultura em suplementos literários do Rio de Janeiro e de São Paulo. Teve uma breve experiência como diretor de TV, escrevendo e dirigindo programas como Globo Repórter e Globo Rural. Em cinema, considera-se, acima de tudo, um autodidata: “Aprendi cinema vendo e lendo filmes”.

De personalidade forte e afirmativa, de língua afiada e com sofisticado senso de humor, diz, com orgulho, nunca ter sido “assistente de outro cineasta”. Já roteirizou, dirigiu, produziu e coproduziu 37 filmes, entre curtas, médias e longas-metragens – seu primeiro longa, Lance maior, é de 1968.

Nesta entrevista à Continente, Sylvio Back fala do processo de criação e filmagem de O Contestato – Restos mortais (2010) e de seus futuros projetos. O Contestado é a sua segunda incursão no tema da guerra ocorrida na fronteira entre os estados do Paraná e de Santa Catarina no começo do século 20. Desta vez, Sylvio Back recorre a médiuns espíritas para ajudá-lo a contar uma história.

CONTINENTE Em 1971, você realizou A guerra dos pelados, um longa-metragem de ficção em que interpretava episódios da Guerra do Contestado. Por que decidiu voltar ao tema nos dias de hoje?
SYLVIO BACK Nesses 40 anos que separam o filme de ficção A guerra dos pelados do documentário O Contestado – Restos mortais, uma sensação de “lesa-pátria” nunca deixou de me tentar, não apenas como cidadão, mas por ser um cineasta cuja obra é seduzida pela ânsia de reverter as falácias e o esquecimento da história oficial: o quão submersos, ignorados, omitidos, distorcidos e minimizados permanecem os fatos e atos dessa verdadeira guerra civil nos sertões de Santa Catarina, que foi a Guerra do Contestado. À época de sua eclosão, primeira década do século passado, na falta de melhor compreensão do inusitado levante, e até pela proximidade histórica, logo se alcunhou o Contestado de Canudos do Sul. Claro, há semelhanças com a tragédia de Vaza Barris, principalmente, com a crença na chegada de um messias, no fanatismo dos caboclos e na feroz repressão militar, mas seu espectro místico, bélico e geopolítico, socioeconômico e demográfico extravasa em envergadura, recorrência e reflexos nas décadas seguintes (e até hoje), a epopeia de Antônio Conselheiro. Volto ao tema, talvez movido pelo desafio, que tento sempre responder em minha obra feita de 37 documentários e filmes de ficção, e por onde trafego impunemente, porque, afinal, qual a diferença entre a realidade bruta e o imaginário contemporâneo e sobrevivente, depois que um e outro são transformados em cinema?

CONTINENTE Como explicar a diferença entre o atual documentário e a ficção: quem mudou? Os filmes, a realidade, a história ou você?
SYLVIO BACK Meu cinema tem investido, quase de forma intuitiva, no desmonte de tabus, mitos e utopias da história do Brasil, seja abordando o conluio do nazismo com o integralismo (em Aleluia, Gretchen), as polêmicas missões jesuíticas do Cone Sul (em República Guarani), o genocídio da Guerra do Paraguai (em Guerra do Brasil), a tragicomédia da presença da FEB na 2ª Guerra Mundial (emRádio Auriverde); seja denunciando a militarização do índio brasileiro (em Yndio do Brasil), revelando a magnitude do criticado maior poeta negro da língua portuguesa, Cruz e Sousa (em Cruz e Sousa – O poeta do desterro) ou seja confrontando e colocando sob suspeita as próprias convicções e certezas político-ideológicas de toda uma vida e carreira. Para tanto, busquei formatar com O Contestado – Restos mortais um debate com a ficção de A guerra dos pelados, lançando mão de uma narrativa que eu chamaria de insólita: a inserção do depoimento de médiuns em transe. Um discurso imagético que fosse ao âmago dessa história insepulta que o Brasil precisa homenagear com as merecidas exéquias morais. Assim, por vias transversas e transformando o invisível e o indizível em visibilidade e oralidade, frequentei cinematograficamente um pretérito mágico na pele de personagens que poderiam ter existido.


Foto: Divulgação

CONTINENTE De onde vem a ideia de colocar médiuns no filme? Do misticismo que alimenta o Contestado? Você é espírita? Acredita no discurso que surge ao longo do filme?
SYLVIO BACK Nessa retomada ao tema sob outro registro, tomei como inspiração o substrato mítico e mitológico que cercava os monges João e José Maria (inspiradores do movimento – o primeiro, pacifista; o segundo, com vocação guerrilheira) e seus seguidores. Além de rezarem pela ressurreição de São José Maria, alçado à condição de santo depois de morrer desafiando a polícia militar do Paraná, no combate do Irani (1912), os caboclos começaram a acreditar fanaticamente na vinda de um “exército encantado”, liderado por São Sebastião, para tirá-los da pobreza. E, igualmente, para enfrentar o “polvo” da modernidade, como alcunhavam a chegada do capitalismo à região, através de uma estrada de ferro e de uma serraria multinacionais, que se instalavam no planalto de Santa Catarina com todo o ímpeto, expulsando-os de suas terras e transformando-os em operários ou, no caso da maioria, entregues à própria sorte, rima terrível para morte, seu único futuro. Ainda na fase das pesquisas, falando com o historiador Euclides Philippi, já falecido (estava com mais de 90 anos), expus que pretendia investir em médiuns para “ouvir” a história oculta, não presencial de caboclos e soldados envolvidos na Guerra do Contestado. Ele próprio, espírita, lascou à queima-roupa e em tom solene: “O senhor é espírita?” Mesmo pego de surpresa, consegui responder na lata: “Sou cineasta!” Depois, o transe, como uma insondável camada do inconsciente coletivo e da história do homem, por isso mesmo matéria-prima de altas indagações no campo da física quântica (a matéria perece, mas a consciência jamais desapareceria), para mim, é a mais pura e límpida poesia. Não sou espírita nem cientista, sou poeta. Nada no transe é real, ali tudo é imaginação e imaginário, um salto no escuro, na invisibilidade de fatos e feitos primevos, eu diria, como se fosse prestidigitação rumo ao mais denso dos mistérios da alma humana.

CONTINENTE Aliás, essa não é a primeira vez que você se vale do transe mediúnico como elemento da linguagem de um filme. Qual é o histórico dessa opção?
SYLVIO BACK Carrego a primazia, nessa hora em que tanto espiritismo explode nas telas, de ter sido o primeiro cineasta brasileiro (quiçá, do mundo!) que incorporou o transe mediúnico à linguagem cinematográfica como elemento da narrativa de um documentário – como, também, fui o primeiro realizador no país a eliminar a figura draconiana do narrador em documentários, de Revolução de 30 (1980) e Rádio Auriverde (1991) a Yndio do Brasil (1995), e de criar a “dramaturgia da entrevista” em República Guarani (1982), agora exponenciada neste O Contestado – Restos mortais. Esse mergulho primevo no transe ocorreu há exatamente 26 anos, no documentário O autorretrato de Bakun, melhor filme (Prêmio Glauber Rocha) na Jornada da Bahia de 1984, quando pincei do passado, se a expressão couber, capturando pela manifestação mediúnica do pintor paranaense, que se suicidou em 1963, toda a tragédia dos seus últimos dias entre nós. Pensei que, pelo inaudito do procedimento, fruto de minha percepção de que, sendo Bakun um místico, portanto, um homem afeito a incursões ao universo espírita, jamais retornaria a esse procedimento num filme. Anteriormente, algo no gênero eu já havia tornado factível no citado longa, A guerra dos pelados, encenando um transe mediúnico nitidamente fake, para que a atriz Dorothée-Marie Bouvier, no papel da “virgem” Ana, incorporasse o monge José Maria, um dos mentores espirituais dos revoltosos do Contestado.


Foto: Divulgação

CONTINENTE Diante do insólito que são os médiuns pontuando a narrativa, que abordagem você utilizou para tornar crível a presença deles ante a câmara?
SYLVIO BACK Ao longo de meses, sem muita nitidez e tateando pelas veredas que a história oficial do Contestado escamoteia, desvirtua e cala, arregimentei 30 médiuns em sessões espíritas dentro do perímetro bélico do conflito e, em Florianópolis (SC), transformei-os em “influxos condutores da linguagem” do filme, uma espécie de personagens plasmáticos. Não foi fácil convencê-los de que, sem sermos espíritas, jamais iríamos manipular o testemunho deles, nem colocá-los em alguma situação constrangedora. Dito e feito: todos os médiuns compareceram com dignidade e verdade impressionantes no decorrer de O Contestado. O que apenas ensaiei em A guerra dos pelados transformou-se nesse contundente poder narrativo da mediunidade, um discurso sempre cifrado, quando menos, profético e dispersivo, a assumir a condição de ogro cinematográfico, introduzindo o espectador à atemporalidade da Guerra do Contestado. Para atingir essa, digamos, intimidade com os médiuns, fizemos questão (o cineasta Zeca Pires, meu diretor assistente, e eu) de jamais industriá-los sobre o que queríamos saber ou ouvir na hora da filmagem e da gravação. Foi o suficiente para, mais uma vez, tomarmos consciência de quanto o Contestado vem sumindo da memória das pessoas, reforçado pelo fato de que, nos livros didáticos, essa verdadeira revolução nos sertões do sul brasileiro é citada com meia dúzia de palavras, quando não inteiramente omitida entre os grandes perrengues sociais e políticos que tumultuaram a chamada Primeira República (1889-1930).

CONTINENTE Você poderia adiantar algo sobre seus novos projetos?
SYLVIO BACK Estou em plenas filmagens de um documentário de longa-metragem sobre e em torno do escritor Graciliano Ramos (1892-1953), previsto para ficar pronto e estrear nos cinemas de todo país em meados de 2011. Confesso que era um projeto nunca pensado antes dos meses em que me concentrei roteirizando o romance Angústia, desse genial escritor alagoano. Na época, descobri, mergulhado no fascinante livro, que até hoje poucos pesquisaram sobre a vida-obra-e-morte de Graciliano, cuja trajetória existencial, literária e ideológica é um capítulo soberbo da cultura brasileira. Inclusive, são previstas filmagens em Buíque (PE), onde Graciliano viveu na infância e de lá catapultou personagens de Angústia. Intitulado O universo graciliano, esse documentário vem se tornando uma espécie de ensaio geral para as filmagens de Angústia, projeto que venho acarinhando há décadas. Uma tormentosa história de amor, paixão, ciúme, ódio, crime e autopunição, que transcorre em Maceió, nos anos 1930, e que revela uma atualidade à toda prova. Ao mesmo tempo, está vindo a lume meu primeiro livro de contos, Guerra do Brasil (Topbooks), que, a exemplo do filme com título homônimo que realizei em 1987, é um resgate memorial histórico, crítico e poético, frequentemente autobiográfico, sobre o incomensurável universo mágico sobrevivente da desconhecida e mal-interpretada Guerra do Paraguai, talvez uma das últimas exorcizações da nacionalidade, como a própria Guerra do Contestado, que ainda precisam ser feitas para explicar os contornos anímicos do Brasil. 

WEYDSON BARROS LEAL, jornalista, crítico de arte, escritor e colaborador da revista Poesia Sempre.

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