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A revolução passa pelos palcos, invariavelmente

Questões de gênero e raça como mote de força política e o esvaziamento dos princípios de esquerda pelo capitalismo lastreiam dois espetáculos estrangeiros mostrados no FIT-BH

TEXTO MATEUS ARAÚJO, DE BELO HORIZONTE*

21 de Setembro de 2018

Em proposta arrojada, encenação argentina mescla marionetes, teatro e cinema

Em proposta arrojada, encenação argentina mescla marionetes, teatro e cinema

FOTO Guto Muniz/Divulgação

BELO HORIZONTE – Há uma força política eclodindo neste século que marca o nosso tempo: o canto das mulheres, a subversão feminista. Isso está visível não só no Brasil, mas no mundo inteiro. Enquanto o fascismo se revela sem pudor, a luta feminina potencializa um cenário histórico. Nas últimas duas semanas, assistindo aos espetáculos apresentados no festival Mirada, em Santos, e no FIT, em Belo Horizonte, pensava justamente sobre isso e sobre a relação direta do real sobre a cena artística. A revolução passa pelos palcos, invariavelmente.

No exato momento desta escrita surgiu uma situação curiosa, que achei por bem trazê-la aqui como disparador no meu pensamento. Milhares de mulheres brasileiras lançam um movimento contra o candidato à Presidência Jair Bolsonaro, cujo histórico controverso é marcado por atos e discursos machistas e violentos. A partir dessa primavera feminista de boicote ao político também surgem outros levantes, entre eles os LGBTs e Negros Contra Bolsonaro – justamente grupos subalternos, "camadas mais baixas da sociedade constituídas pelos modos específicos de exclusão dos mercados, da representação política e legal, e da possibilidade de se tornarem membros plenos no estrato social dominante", como define a escritora Gayatri Spivak, no livro Pode o subalterno falar?. Grupos que também estão no alvo de críticas do candidato.

Uma das ações desses movimentos passa pelo convite a artistas e personalidades nacionais para que se pronunciem contra Bolsonaro. Símbolo pop da música brasileira contemporânea – que tem músicas e clipes nos quais exalta a figura das mulheres negras, a liberdade do corpo, além de ser dona de uma legião de fãs LGBTs –, a funkeira Anitta foi pressionada a falar, mas preferiu o silêncio. "Eu não quero dar a minha posição política" e "É totalmente incoerente dizer que eu apoio a morte à comunidade LGBTQ+ quando eu faço parte dela. Estaria apoiando minha própria morte", escreveu a cantora nas redes sociais.

Essa situação me fez pensar em especial sobre dois espetáculos que vi em Belo Horizonte, que apontam para as subcamadas da subjetividade da arte sobre o agora. O primeiro deles, a montagem argentina Arde brillante en los bosques de la noche, nos vale como uma instigante reflexão acerca do esvaziamento proposto pelo capitalismo sobre os princípios de luta de esquerda. A dialética da peça escrita e encenada por Mariano Pensotti parte da figura da revolucionária soviética Alexandra Kollontai.

A obra nos apresenta três mulheres, cada uma em quadro, cujas contradições, de certa forma, também nos pertencem. A primeira delas é a professora feminista Estela, que dá aula para adolescentes cujos sonhos é se formar e partir para a Europa; e em casa, enquanto se espanta com o fato de a filha trabalhar em um programa de TV que expõe o corpo dela, também enfrenta uma traição do marido. Para a personagem, todo o seu aparato ideológico vive em constante implosão no "mundo real".

A segunda personagem, a alemã Sonia, participou da revolução civil colombiana, mas ao voltar pra casa surpreende a família, acostumada com o fato de poder ganhar dinheiro e fama sobre a história dela. O engajamento político de Sonia é, ali, uma fonte de renda e "celebritismo" para sua família – mais preocupada com o lucro do que com a parente. A terceira personagem central da peça é uma jornalista que reproduz nas suas relações sexuais posturas de poder e domínio. Numa das suas “aventuras”, ela conhece um grupo descendente de russo que faz strip tease em boate e estabelece um curto e violento relacionamento com ele.

Essa três mulheres estão entrecruzadas através de uma dramaturgia perspicaz, que dá conta, com sarcasmo, de nos fazer pensar sobre a atualização das ideias que nortearam Alexandra Kollontai, quando da Revolução Russa, em 1917. Numa encenação bastante peculiar, que brinca com a magnitude das camadas cênicas, o diretor Mariano Pensotti nos coloca o teatro de marionetes (o primeiro quadro), a encenação em si (o segundo quadro)  e o cinema (todo o terceiro quadro) como dispositivos de leitura. A possibilidade de estranhamento e distanciamento que a forma teatral escolhida por Pensotti oferece ao espectador e ao elenco de cinco artistas potencializam uma sensação de comunhão reflexiva entre plateia e palco. Isso é, do mesmo jeito que nós, fora da cena, assistimos às histórias, os atores também assistem a elas. 

Arde brillante en los bosques de la noche é um convite a rever, à luz da realidade, as convicções, os caminhos e discursos. Não de forma pessimista, embora dê conta de falar das crises; mas de forma a encontrar de algum jeito força na (re)afirmação de ideais de esquerda em tempos turvos. Em tempos nos quais ideias políticos facilmente são “incorporados” nos discursos midiáticos.

Alessandra Seutin questiona conceitos de negritude FOTO: Guto Muniz/Divulgação

No caso de Ceci n’est pas noire, é a empatia a chave política do teatro. Cantora, atriz, performer e bailarina, Alessandra Seutin, nascida no Zimbábue e criada na Europa, apresenta uma obra que amplia as ideais de construção de identidades. Seutin dança, canta e se utiliza de um jogo com a plateia no qual manipula símbolos verbais e corporais para questionar as aparências, o preconceito e os conceitos de negritude. Como papeis colados na testa, nos quais estão nomes da cantora Beyoncé, a rainha Elizabeth, Deus e da própria artista, ela lança ao público perguntas maniqueístas ("Eu gosto de bananas?" "Eu gosto de reggae?") sobre as personas que, se princípio causam riso, também chegam a constranger.

A lógica do espetáculo, cuja tradução é "Isso não é negro", está na reflexão sobre estereótipos. Nesse sentido, Alessandra Seutin se utiliza de um cenário quadrangular, delimitado por uma linha, e nele cria sua obra. Mas não obstante rompe e sai desse simulacro. É no corpo que a performer amplia a pluralidade da negritude: na dança nos movimentos que unem várias linguagens, na trilha com diversos estilos musicais e na roupa de vários elementos. Sutin nos diz a todo tempo um não às marcas que lhe pregam.

No início da apresentação, a artista entrega à plateia um turbante que estava em sua cabeça. Depois de circular, o tecido volta às mão dela. Ali está a concretização da obra: Alessandra Seutin é a mulher negra que ela mesma constrói, embora as tantas influências que recebe – e não o que a impõem. E esse é um canto que continuou a entoar fora do teatro. 


MATEUS ARAÚJO é jornalista, pesquisador, crítico de teatro e mestrando em Artes Cênicas pela Unesp.

* O jornalista viajou a convite da organização do FIT-BH.

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