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Comentário

Não se mudam destinos traçados

Quarenta anos depois, as histórias em torno da morte de John Lennon e do prédio onde morava, em Nova York, quando foi assassinado

TEXTO José Teles

07 de Dezembro de 2020

Logo à frente da cena, o Edifício Dakota, onde Lennon morava, se destaca na paisagem

Logo à frente da cena, o Edifício Dakota, onde Lennon morava, se destaca na paisagem

Imagem Reprodução

[conteúdo exclusivo Continente Online]

Talvez o ator George C. Scott, falecido em 1999, só não tenha sido assassinado em dezembro de 1980, porque a peça que apresentava na Broadway, Tricks of the trade, teve apenas uma apresentação, mesmo sendo ele um dos nomes mais respeitados de Hollywood, vencedor, 10 anos antes, de um Oscar de melhor ator por Patton (dirigido por Franklin J. Schaffner). Na primeira fila daquela apresentação, estava um rapaz de 25 anos carregando um revólver calibre 38 e duas obsessões: ganhar notoriedade e ser Holden Caulfield, o anti-herói do romance O apanhador no campo de centeio, de J. D Salinger. Lançado em 1951, o livro conta as desventuras de um adolescente da classe média abonada de Nova York (a família morava próxima ao Central Park). Confuso filho da geração beat, ele entende que a sociedade não funciona bem, mas não sabe como pode mudar esta engrenagem. O rapaz que foi assistir a George C. Scott, a fim de disparar o 38 nele, no entanto, cultiva horizontes mais modestos. Quer mudar apenas o curso de sua vida, extraí-la da mediocridade.

É possível que, naqueles dias em que estivera em Nova York, tenha visitado outros pontos do Central Park, antes de rondar o Edifício Dakota. Talvez tenha feito o roteiro de Holden Caulfield, que foge do colégio interno e, a caminho da casa dos pais, vai a um bar à noite, caminha pelo parque até um lago, no verão repleto de patos, e se pergunta para onde eles vão quando a água congela, numa passagem lírica da confusão mental do personagem. Ladeando o Central Park, estão alguns pontos de referências turísticas de Nova York, envoltos pelo cheiro forte de estrume de cavalos que, na estação de calor, é mais intenso. Deixam um rastro atrás das carruagens que levam turistas a passeios, saindo do Waldorf Astoria, o célebre hotel, que hospedou tantas celebridades.

DAKOTA
O hotel fica próximo a outra visita turística obrigatória, o citado Edifício Dakota (o Dakota Apartments), cenário do filme de Roman Polanski, O bebê de Rosemary (1966, com Mia Farrow no papel principal). Geralmente citado como de arquitetura gótica, o Dakota foi construído em estilo art nouveau (inaugurado em 27 outubro de 1884). Mas bem que merecia o estilo gótico. Além de ser locação de um dos mais aterrorizantes filmes de horror, teve como morador Boris Karloff, o mais famoso dos Frankenstein. Harlan Coben, bem-sucedido escritor de romances de mistérios não resolvidos, ainda mora lá. E quem também morou foi o bruxo com mais ibope entre os roqueiros, o inglês Aleister Crowley, que inspirou de Raul Seixas a Jimmy Page. Moraram no Dakota as atrizes Lauren Bacall, Judy Garland, o maestro Leonard Bernstein e o ator Robert Ryan, que alugou seu apartamento ao mais famoso morador do Dakota: John Lennon, que viria a comprar cinco imóveis no local, onde morou com a mulher, Yoko Ono, e o filho Sean até um fatídico dia 8 de dezembro de 1980.


Yoko e Lennon em frente ao Dakota, cerca de duas semanas antes do assassinato.
Foto: Allan Tannenbaum


Feito na canção de Gilberto Gil, Domingou: “Era um rapaz de 25 anos/ era um rapaz de 25 anos”, e o nome dele é Mark David Chapman. Casado, morador do Havaí, carregava consigo o estigma do loser (perdedor) com que a sociedade norte-americana carimba as pessoas que não se ajustam aos padrões esperados do “sonho americano”. Talvez o requinte do Dakota, inacessível a alguém feito Chapman, e o fato de saber que John Lennon possuía cinco apartamentos no prédio possam ter lhe motivado a descarregar nele a carga da pistola que comprou. Nunca se teve certeza de que ele queria apenas notoriedade, como afirma, ou fosse obcecado pelo ex-Beatle – a mulher de Mark Chapman, coincidentemente ou não, era uma japonesa.

Naquela semana em que Mark Chapman foi para Nova York, John Lennon estava onipresente nas capas das revistas, nas páginas dos jornais, na TV, por causa do álbum Double fantasy, primeiro disco dele em cinco anos, período em que virou dono de casa, enquanto a mulher tomava conta dos negócios. É provável que o alvo de Chapman fosse outro famoso, se Lennon não tivesse com um novo álbum nas lojas. Antes desse disco, a imprensa raramente o procurava.

Mark Chapman está com 65 anos. Em setembro de 2020 tentou, pela 11ª vez, a liberdade condicional, que mais uma vez lhe foi negada. O juiz o considerou uma ameaça à sociedade. Não lhe adiantou pedir perdão à viúva Yoko Ono, ou garantir que está arrependido. Ele provavelmente irá morrer na prisão, como morreu o psicopata Charles Manson, responsável pelo assassinato de várias pessoas, em Los Angeles, em 1969, entre elas Sharon Tate, mulher do diretor de O bebê de Rosemary, o filme que se passa no prédio em que Lennon vivia. Os dois assassinos comungam entre si desta involuntária ligação macabra.

John Lennon faria 80 anos no último 9 de outubro. Provavelmente seria um ancião saudável. Quando morreu, aos 40 anos, abandonara os excessos. Levava vida frugal, afastara-se das drogas lícitas e ilícitas, e raramente era visto fora do Dakota, que tornou um ponto turístico obrigatório de Nova York, para desgosto dos moradores também famosos, que até tentaram evitar que ele morasse no prédio.

E SE?
Willie Nile é um roqueiro norte-americano que nunca foi além do status de cult. No início de 1980, ele estava gravando o segundo álbum para a Arista, Record Plant, no centrão de Nova York, próximo à Time Square, o coração da cidade. Nile trabalhava no Estúdio A. Um andar acima, John Lennon remixava a canção Walking on thin ice, de Yoko Ono, que concluiu na noite em que foi morto. O coprodutor de Willie Nile conhecia Lennon e perguntou se ele não queria ser apresentado ao ex-Beatle. Willie disse que, claro, queria conhecê-lo. Mas que seria melhor fazer isso na terça-feira. Era uma sexta-feira e achou que John e Yoko poderiam ter algum compromisso, não queria atrapalhar.

No domingo, 7 de dezembro, Willie Nile e a banda continuavam gravando. Meia-noite, ligaram para o Estúdio A. Era o engenheiro de som do outro estúdio, dizendo que John estava sem cordas novas para a guitarra e perguntou se eles tinham um jogo que pudessem emprestar. Nile mexeu na mochila e encontrou as cordas. Pensou em escrever um bilhete para anexar a elas com os dizeres: “Para John, obrigado pela música. Te amo”. Mas pensou melhor, e achou que seria meio meloso. Já que iria vê-lo dias depois, diria a ele pessoalmente.

Na segunda, 8 de dezembro, Willie Nile começou a gravar no final da tarde. O engenheiro de som de Lennon disse que ele usara as cordas e gravou até as 4h30 da manhã. Thom Panunzio prometeu ao amigo de New Jersey, colecionador de autógrafos, que lhe conseguiria a assinatura de John Lennon. Ligou para o engenheiro de som e disse que quem queria o autógrafo era Willie Nile, “o cara que emprestou as cordas a John”. O engenheiro disse que John e Yoko estavam descendo. Thom foi esperá-lo para pegar a assinatura. Willie e a banda continuam a gravar sem o coprodutor, que se demorou mais que o esperado. Quando voltou, ele já entrou contando: “Alguém atirou em John”. Willie não entendeu: “Que John?” E Panunzio confirmou: “John Lennon”. No mesmo instante o telefone tocou, era David Geffen, o presidente da gravadora que lançou Double fantasy, querendo se tranquilizar. Pediu que confirmassem que Lennon continuava no estúdio trabalhando. Disse que soube que tinham atirado nele, e que o levaram para um hospital, e reforçou a pergunta: “Ele continua no estúdio?” A secretária atendeu e disse que o casal havia deixado o Record Plant fazia uns 15 minutos. Willie, os músicos assistiram em lágrimas à confirmação da morte pela TV.


A rua do prédio após o tiro à queima-roupa em Lennon. Foto: Ray Stubblebine

Se Willie Nile tivesse ido conhecer John Lennon pessoalmente, talvez ele se demorasse mais no estúdio. Estava de alto astral. Double fantasy confirmava-se um sucesso, e não leu críticas desfavoráveis a Yoko Ono. Finalmente, ela estava sendo aceita pela imprensa. Ou talvez não se demorasse. Ansiava sair com Yoko para comemorar o feito, e apenas cumprimentasse Willie. Não se mudam destinos traçados.

GUARDA-COSTAS
O Record Plant contratou um segurança para cuidar de John e Yoko, um afro-americano de dois metros de altura e 136 quilos, chamava-se Bobby. Ele desceu até a rua com o casal, sua tarefa era só se descolar dos dois quando estivessem a salvo no edifício Dakota. John queria sair para jantar e convidou o segurança para ir junto. Bobby pediu desculpas, não se sentia muito bem, o estômago o incomodava. John o abraçou e disse que não tinha problemas. Jantariam outra noite. Se Bobby tivesse entrado no carro, ido ao restaurante e depois deixado o casal no Dakota, Mark Chapman certamente teria se intimidado com sua presença. Bobby contou que sempre se lamentou por não ter aceito o convite de John, independente do estômago. “Não se prevê o futuro”, defendeu-se.

Já Willie Nile, que lançou no meio da pandemia o álbum New York at night, até hoje se arrepende de, naquela noite de 8 de dezembro, 40 anos atrás, não ter se dirigido às escadas que levava ao outro estúdio, bater na porta, se apresentar e puxar conversa. Na hora em que Lennon demonstrasse que iria embora, lhe diria: “Por favor, fique mais um pouco”.

(Willie Nile contou o episódio acontecido no Record Plant, em recentes entrevistas concedidas para divulgar o novo álbum).

JOSÉ TELES, jornalista, crítico musical e escritor.    

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