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Juan Rulfo: Fotografias de um caixeiro-viajante

TEXTO Adriana Dória Matos

01 de Abril de 2011

Foto Reprodução/Juan Rulfo

[conteúdo vinculado à reportagem de "Visuais" | ed. 124 | abril 2011]

Inevitável olhar as fotografias de Juan Rulfo
(1917-1986) sem associá-las à sua criação literária, sobretudo aquelas imagens relativas à natureza, à gente, à arquitetura, ou, numa palavra, à memória mexicana. Não que devêssemos evitar tal comparação, mas talvez valha a pena dispensar hierarquias de importância dessa ou daquela linguagem desenvolvida pelo artista, já que, no final das contas, ambas são reveladoras de suas virtudes.

A produção literária e fotográfica de Rulfo ocorre simultaneamente e se concentra nos anos 1940-1960. Tornou-se proverbial o “silêncio” do escritor, que publicou apenas duas obras literárias – a coletânea de contos O chão em chamas (El llano en llamas, 1953) e o breve romance Pedro Páramo (1955) – tendo também mantido seu acervo fotográfico relativamente desconhecido do grande público, que apenas tomou conhecimento de sua diversidade depois da exposição em sua homenagem nos anos 1980. Somente a partir de miradas dispersas, foi possível acompanhar seus ensaios fotográficos para o cinema e a dança, bem como suas imagens do México publicadas em revistas.

Chega agora ao público brasileiro o livro 100 fotografias: Juan Rulfo (CosacNaify), pelo qual é possível vislumbrar a visão do artista sobre seu país. Boa parte do material de Rulfo foi fotografada quando ele trabalhava como caixeiro-viajante. Ele pôde, nesses trânsitos, revisitar o México rural de sua infância, esta, marcada por acontecimentos trágicos, como o assassinato do pai e o precoce falecimento da mãe. Além de memórias de orfandade, impregnavam-no também aquelas relativas ao passado pré-hispânico e colonial nacional, marcado por injustiças, desarranjos, pobreza e conflitos entre indígenas e espanhóis.

E é sobre esses despojos pessoais e nacionais que Juan Rulfo vai sedimentar sua obra, seja ela textual ou imagética. Embora, como observa o historiador de fotografia italiano Daniele De Luigi, em texto publicado em 100 fotografias: Juan Rulfo, haja uma clara distinção de registro literário e fotográfico a respeito desse grande tema em comum. Enquanto sua literatura é “constelada de metáforas que se imprimem na memória com excepcional vividez”, sua fotografia “mantém com o real uma inegável relação de referencialidade direta”.

Dadas as distâncias entre a literatura e a fotografia do escritor mexicano, que chegou a afirmar: “Não sou fotógrafo”, há nelas o mesmo sentimento do trágico, do abandono e da solidão. Algo como se o passado estivesse sempre ali, latente. 

ADRIANA DÓRIA MATOS, editora-chefe da revista Continente.

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