A Geração 65 por ela mesma
Filme, encartado nesta edição, redimensiona a importância do grupo de poetas que marcam a cena cultural pernambucana
TEXTO Alexandre Figueirôa
01 de Novembro de 2011
Foram escolhidos os ambientes onde os poetas circulam habitualmente
Foto Divulgação
Quando a cineasta Luci Alcântara resolveu inscrever, em 2007, no edital do Funcultura, um projeto de documentário sobre o grupo de poetas pernambucanos, conhecido como Geração 65, não imaginava que tinha início, ali, não ap enas um flerte com a literatura, mas um namoro duradouro, cujos desdobramentos vêm marcando sua carreira. Após Geração 65: aquela coisa toda, Luci realizou o documentário JMB, o famigerado, com o poeta e agitador cultural Jomard Muniz de Britto; os curtas de ficção Minha alma é irmã de Deus (em parceria com o escritor Raimundo Carrero) e Úrsula; e prepara, agora, um novo projeto, juntamente com Carrero, com o título de Quarteto áspero. O roteiro já está no primeiro tratamento e será um longa-metragem adaptado da tetralogia homônima, composta pelos romances: Maçã agreste, Somos pedras que se consomem, O amor não tem bons sentimentos e Minha alma é irmã de Deus.
A trajetória de Luci Alcântara na produção audiovisual começou nos anos 1980 e um de seus primeiros trabalhos a chamar a atenção foi o documentário Quarto de empregada. Ela trabalhou como produtora na TV Viva, ao lado de cineastas como Marcelo Gomes e Cláudio Barroso. Realizou vídeos educativos e institucionais, atuando como diretora e roteirista, além de ter sido produtora associada de canais de televisão americanos e canadenses. Por motivos pessoais, Luci ficou impossibilitada de viajar. Resolveu, então, inscreverse como produtora cultural e encarar o desafio de realizar seus filmes no Recife, de modo independente, montando, de imediato, dois projetos.
Um deles foi O melhor documentário do mundo, aprovado pelo SIC municipal, que está em fase de finalização, aguardando captação de novos recursos. E o outro foi Geração 65: aquela coisa toda, aprovado pelo Funcultura, já exibido em diversos festivais e, agora, encartado nesta edição da Continente.
Curiosamente, Geração 65 teve sua gênese graças a uma edição de Documento, da revista, quando esta ainda se chamava Continente Multicultural. Luci lembra que, ao ler o texto sobre os poetas que, nos anos 1960, agitaram a cena cultural do Estado, escrito pelo jornalista André Rosemberg, foi totalmente movida pela emoção. “Conhecia os poetas da Geração 65 da livraria Livro 7. Eu estudava Artes Cênicas e era cinéfila, por isso ia muito à livraria para comprar livros de teatro e cinema. Meu irmão mais velho conhecia os poetas e, em 1977, por conta disso, ganhei o livro O inquisidor, de Ângelo Monteiro, autografado por ele”, pontua.
Aos poucos, Luci foi entrando em contato com a obra de outros poetas: Jaci Bezerra, Alberto da Cunha Melo, Marco Polo Guimarães, Domingos Alexandre. Acompanhava os lançamentos das Edições Pirata, o movimento dos poetas independentes. Ao ler a reportagem de Rosemberg, Luci conta que todas essas lembranças afetivas afloraram. “Eu morava em Jaboatão e fiquei surpresa ao ler que alguns dos escritores que admirava também eram de lá, então fiquei pensando nos poetas se deslocando para o Recife, para mostrar suas poesias. Com esse sentimento, comecei a pesquisa. Comprei livros, levantei dados e elaborei a proposta.”
Ao ter o projeto aprovado, Luci sofreu o primeiro choque, quando descobriu que dois dos seus principais personagens – Alberto da Cunha Melo e Jaci Bezerra – não se falavam mais. Em seguida, veio outra notícia que a abalou e pôs em risco a continuidade do projeto: a doença e o falecimento de Alberto da Cunha Melo, considerado um dos artistas mais criativos do movimento e um dos seus principais esteios. “Com a morte de Alberto, eu pensei em desistir, mas felizmente meus amigos me convenceram a continuar trabalhando”, relembra. Inicialmente, ela imaginou realizar o filme num formato de documentário educativo para a televisão, mas mudou completamente sua concepção, à medida que conhecia os poetas e estreitava laços com Marco Polo Guimarães, que passou a ser uma espécie de consultor do filme.
O passo seguinte foi definir um recorte capaz de dar conta da ausência física de Alberto da Cunha Melo, costurando a narrativa a partir das figuras dele e de Jaci Bezerra, e incluindo os artistas do que Luci chama de “núcleo principal da Geração 65”. Além de Alberto e Jaci, estão no documentário os escritores Domingos Alexandre, Marco Polo, Ângelo Monteiro, José Mario Rodrigues, Marcus Accioly, Esman Dias, José Carlos Targino, José Rodrigues de Paiva e mais os prosadores Raimundo Carrero, Maximiniano Campos (in memoriam), e a poetisa Lucila Nogueira (que fala dos estilos dos poetas). “Tive que ser dura com a escolha dos entrevistados, para buscar os nomes mais expressivos do movimento. E os entrevistados de apoio foram os que melhor descreveram o ambiente socioculturaletílico da época”, esclarece a cineasta.
A realização do filme, contudo, não foi simples, uma vez que a cineasta precisava convencer os poetas – ao mesmo tempo, tímidos e vaidosos – a encarar a câmera. Ainda: saltar um obstáculo mais difícil – como filmar poesia? A realizadora diz que teve de exercitar a imaginação e a criatividade, trabalhando de uma forma especial a oralidade, algo, segundo ela, pouco usual no cinema brasileiro. Contudo, revela ter sido a constatação da qualidade artística da poesia o principal elemento da transformação de um mero registro histórico num filme de modelo mais autoral. “Optei pelo modo participativo, conforme preconiza Bill Nichols. A minha presença é sentida por meio dos depoimentos. Sou uma filmadora voraz, uso o quantitativo para coletar o qualitativo. Faço os entrevistados repetirem os depoimentos, para tentar captar formas distintas de enunciação”, observa.
Luci filmou os poetas nos ambientes por onde eles circulam habitualmente – trabalho, casa, bares – e no estúdio, em que aparecem como artistas performáticos, recitando seus versos, embora respeitando os limites de cada um e o jeito próprio de declamarem. Eles escolheram os poemas que recitam e o único direcionamento sugerido foi que lessem um poema de que mais gostassem – outro, sobre o Recife e, mais um, de Alberto Cunha Melo.
Para registrar a recitação dos poemas, ela usou duas câmeras e selecionou os trechos com melhor ritmo. No filme, introduz cada poeta a partir da própria poesia, que permeia toda a narrativa. Luci observa que, entre o projeto inicial e o filme pronto, ocorreram mudanças drásticas, consequência da opção por estabelecer um forte diálogo entre sujeito e objeto. O esforço empreendido por Luci Alcântara resultou numa obra que, certamente, redimensiona e atualiza a importância dos poetas da Geração 65, cuja poesia, pela temática e sua extensiva produção de versos líricos e políticos, causou um grande impacto na vida intelectual de Pernambuco, mudando a face de nossa literatura nas décadas seguintes.
ALEXANDRE FIGUEIRÔA, doutor em Cinema e professor universitário.