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Café Amsterdã: A segunda invasão holandesa

Evento literário trouxe a São Paulo e ao Rio de Janeiro autores contemporâneos de várias dicções dos Países Baixos

TEXTO Ronaldo Bressane

01 de Novembro de 2015

Ilustração Karina Freitas

"Aqui não é Amsterdã!”, disse o motorista ao lançar ameaçadoramente seu SUV sobre a bicicleta da moça que pedalava por uma avenida de São Paulo. O embate carros X bicicletas que dominou a implantação de 400 km de ciclovias pela atual prefeitura paulistana usa o argumento de que uma cidade de 10 milhões de habitantes e muitas ladeiras não pode se comparar a uma cidade de 800 mil pessoas que circulam em um trânsito bem mais gentil. Embute, em sua série de preconceitos, a ideia de que a sociedade holandesa é perfeita – e a ideia de que nossa sociedade jamais deixará o estágio do complexo de vira-latas. Uma série de lançamentos de autores holandeses demonstra o quão imperfeita é a sociedade holandesa e quão próximos os brasileiros estão do país de Maurício de Nassau – e não falamos dos pernambucanos descendentes da invasão de 1630.

O incidente envolvendo o motorista e a ciclista foi lembrado pelo jornalista Paulo Werneck ao abrir os trabalhos do Café Amsterdã, evento que durante algumas semanas de agosto aproximou a literatura holandesa da brasileira, com nada menos que 16 lançamentos. “Ao contrário do que disse o alterado condutor, aqui bem poderia ser Amsterdã”, sugeriu Werneck, convidando o público a conhecer os autores Arno Grunberg, Toine Huijmans, Barbara Stok, Arjen Dunken, Janny van der Molen e Tommy Wieringa, que participaram de diversos encontros em São Paulo e no Rio de Janeiro — bem como das mesas pós-debates, adequadamente banhadas por cervejas vindas diretamente dos Países Baixos.


Arjen Duinker foi um dos autores que esteve no Brasil. Foto: Divulgação

Tanto Werneck quanto Daniel Galera e Michel Laub – alguns dos escritores brasileiros convidados a mediar as conversas com os neerlandeses – lembraram que as literaturas de línguas holandesa e portuguesa têm em comum o fato de serem periféricas em um mundo dominado pelo inglês, o espanhol, o mandarim e o francês; somente 25 milhões de pessoas se expressam em holandês. Romper o isolamento cultural é uma política de Estado para os neerlandeses: a Fundação Holandesa de Letras investiu 100 mil euros apenas na edição brasileira do Café Amsterdã, que já passou por China e República Tcheca, e frequentemente oferece bolsas para tradutores, além de residências literárias para escritores estrangeiros, favorecendo o intercâmbio.

“Além disso, o governo holandês investe, através de entidades como a Nederlands Letterenfonds e Nederlandse Taalunie, na divulgação da literatura neerlandesa nas grandes feiras do livro pelo mundo afora e em países-alvo como China e Brasil”, conta Arie Pos, tradutor de Cristóvão Tezza. “As instituições holandesas e belgas investem na formação de tradutores literários; antes de começar a traduzir profissionalmente, participei de três cursos, e eles foram de enorme valia, porque não basta conhecer bem um idioma para ser tradutor. Talvez isso também pudesse ser feito por instituições brasileiras”, cutuca a tradutora Mariângela Guimarães.

ROMÁRIO OU MACHADO?
Comércio com o mundo é forte ingrediente da cultura neerlandesa, desde a Companhia das Índias Ocidentais — qualquer turista que tenha passado pelos coffee shops de Amsterdã se encanta (e se conforta) ao notar que o inglês é praticamente uma segunda língua, embora seja mais praticado oral do que literariamente. E mesmo a literatura contemporânea brasileira tem recebido olhares interessados, conforme atesta o sucesso de crítica de livros como Diário da queda, de Michel Laub, e Barba ensopada de sangue, de Daniel Galera (além de, bem, Paulo Coelho — ninguém é perfeito). Mas ainda não há uma imagem que marca a literatura brasileira na Holanda, comenta Pos. “O público está aquém do esperado por quem conhece a riqueza da literatura brasileira. Não há autores brasileiros com grande projeção na Holanda”, critica o tradutor. No entanto, Mariângela Guimarães, que vive em Amsterdã, se diz impressionada com o interesse local pelo Brasil (que, lembre-se, exportou para o país talentos como Romário e Ronaldo, ambos centroavantes com passagens marcantes pelo PSV Eindhoven). “Circulam por aqui Machado de Assis, Euclides da Cunha, Guimarães Rosa, Drummond, João Ubaldo Ribeiro, Autran Dourado, Dyonélio Machado, Verissimo, Cristóvão Tezza e João Cabral de Melo Neto. Mas, mesmo com essa boa recepção, best-seller mesmo só o Coelho…”, lamenta a tradutora.


Best-seller de Tommy Wieringa tem um narrador adolescente.
Imagem: Reprodução

Para o leitor afeito à alta literatura de um Cees Nootteboom (Paraíso perdido), sempre lembrado para o Nobel, ou surpreendido pela segurança narrativa da novata Franca Treur, cujo Confetes na Eira foi recentemente traduzido no Brasil, é difícil captar se há uma corrente literária dominante na atual escrita holandesa. “Não tem havido um movimento dominante na literatura holandesa. Os autores são individualistas”, diz Arie Pos. “Mas há uma tendência bastante generalizada em que a literatura tem de ser biográfica e ‘verdade’ – em detrimento da ficção e da imaginação, resultando em muitos romances sobre doenças e sobre as dificuldades de lidar com a perda de um filho, a mulher, os pais etc.”

ANNE FRANK & VAN GOGH
De fato, três dos romances “invasores” podem passar a impressão de que participam desta corrente — mas atenção, é só impressão, pois são extremamente imaginativos. O saboroso, divertido e comovente Joe Speedboatbest-seller de Tommy Wieringa (Rádio Londres), tem um narrador adolescente que ficou quase um ano em coma depois de um acidente em que perdeu a fala e a locomoção. O terrível e belo No mar, romance curto de Toine Heijmans (Cosac Naify), conta a história de um pai que vai viajar com a filha pequena e tem a manha de perdê-la em pleno oceano. E a obra-prima Tirza, de Arnon Grunberg (Rádio Londres), trata da obsessiva relação de amor e poder entre um homem apático e conservador e sua filha caçula (confira as entrevistas com Grunberg e Heijmans).


Janny Van der Molen escreveu um romance sobre os dias vividos
no esconderijo pela jovem Anne Frank. Imagem: Reprodução

A literatura infantojuvenil, gênero dominado por Annie M.G. Schmidt (“a grande dama da literatura holandesa, por vezes chamada ‘verdadeira Rainha da Holanda’, escritora que, em popularidade, humor e estilo, lembra Monteiro Lobato”, diz Arie Pos), também deu as caras no Café Amsterdã. “O diferencial da literatura infantil holandesa é que o linguajar e as crianças/jovens não são ‘infantilizados’”, relata a tradutora Alexandra de Vries. “As crianças são tratadas como pessoas, com opinião e atitudes bastante independentes — por isso tendem a ser bastante independentes”, afirma. Alexandra traduziu Lá fora, a guerra (Rocco), que Janny Van der Molen escreveu sob encomenda para a Casa de Anne Frank. O fantástico romance é resultado de extensa pesquisa sobre a jovem Anne Frank e relata os dias vividos num esconderijo em Amsterdã com a família durante a Segunda Guerra Mundial, de forma acessível, a partir de informações históricas, fotos, ilustrações, bem como seu famoso diário — talvez o mais conhecido exemplar da literatura holandesa no mundo.

Maior ícone dos Países Baixos, o pintor Vincent Van Gogh também foi lembrado no evento por ser protagonista de Vincent, deliciosa biografia em quadrinhos criada por Barbara Stok (L&PM). Ao final do Café Amsterdã – infelizmente não tão nevoento quanto seus congêneres da capital neerlandesa –, leitores e autores relaxavam sob o efeito do lúpulo dourado. Lá de seu navio fantasma, Maurício de Nassau mandava um sorriso. 

RONALDO BRESSANE, jornalista e escritor, publicou, entre outros, os livros Céu de Lúcifer e O impostor.

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