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Reggae: Herdeiros de Marley no nordeste do Brasil

Na terra do frevo, do forró, do maracatu e do manguebeat, resiste cena musical que reúne cerca de 50 bandas e artistas em torno do ritmo jamaicano

TEXTO Marina Suassuna

01 de Outubro de 2014

Bob Marley

Bob Marley

Foto Reprodução

"Mas isso é um xotezinho muito do safado." Foi assim que Dominguinhos apelidou o reggae, quando ouviu o ritmo pela primeira vez, apresentado por Gilberto Gil, nos anos 1970. “Perguntei a ele por que não acrescentava um triângulo”, comentou, anos mais tarde, ao relembrar o episódio. A aproximação rítmica do gênero jamaicano com o brasileiro teria levado o forrozeiro a fazer a comparação. Afinal, “qualquer xote pode ser transformado em reggae e vice-versa”, diz o radialista e jornalista pernambucano José Mário Austregésilo. O reggae, segundo ele, também pode ser caracterizado como um rock’n’roll tropical, cuja batida deriva da burra, uma das mais antigas formas musicais jamaicanas, que predomina nos rituais rastafári – tradição religiosa e esotérica que fundamenta o ritmo. “A repetição cadenciada estabelece o ritmo do reggae, conferindo-lhe um efeito hipnótico, de transe e transiluminação pessoal”, afirmou o radialista, no artigo Reggae: canto de uma raça, diáspora de um povo.

No Brasil, antes de Gil apresentar o ritmo jamaicano a Dominguinhos, um dos primeiros contatos estabelecidos com o gênero foi a vinda de Jimmy Cliff, em 1969, para defender a canção Waterfall, no Festival Internacional da Canção. Além de ter ido ao programa do Chacrinha, o jamaicano gravou um disco por aqui, Jimmy Cliff in Brazil, cantando até em português.

Mas foi na música Nine out of ten, gravada por Caetano Veloso em 1972 para o disco Transa, consolidado pelo tempo como uma obra-prima, que o ritmo jamaicano foi mencionado pela primeira vez na música brasileira. Cantando em inglês, Caetano diz que desceu até Portobello Road, em Londres, em busca daquele som.

“Eu me apaixonei pelo ritmo junto com Péricles Cavalcanti, que gostava de passear comigo por Portobello. Nem sabíamos ainda o nome do novo ritmo. Quando aprendemos, passamos a repeti-lo em conversas, com muita excitação. Quando compus a música (a que, para mim, tem a melhor das letras em inglês que escrevi), pedi a Moacyr Albuquerque, o baixista, que tentasse reproduzir a linha de baixo dos reggaes que ouvíamos. E ele foi perfeito nessa pioneira entrada na música brasileira. Ouvir a música dos jamaicanos naquela rua me fazia gostar de viver, ajudava a superar a saudade do Brasil”, disse Caetano ao jornal Zero Hora.


Jimmy Cliff veio ao Brasil em 1969, para o Festival Internacional da Canção.
Foto: Reprodução

Assim como Moacyr Albuquerque, cada músico contribuiu com solos e texturas rítmicas e melódicas para a música. Jards Macalé foi peça-chave, uma vez que ficou responsável pelos arranjos e por dirigir a banda. “Para fazer referência ao novo ritmo que se anunciava, nós realmente nos inspiramos em Portobello Road, onde nos deparamos com uma feira livre e muitas lojas de jamaicanos e africanos. Ali, foi onde conhecemos a batida do reggae e, a partir disso, resolvi usá-la na introdução e no final da música’’, disse Macalé, que concedeu entrevista à Continente por e-mail. Ao retornar ao Brasil com o novo ritmo na bagagem, ele iniciou a gravação do disco Contrastes (1977), que trazia a música Negra melodia, conhecida como o primeiro reggae brasileiro de grande alcance.

Há quem diga que a primeira gravação em português a incorporar a pegada desse ritmo foi Bahia comigo, composta pelo pernambucano Paulo Diniz e lançado em seu LP homônimo de 1970. No entanto, a primeira música brasileira a se configurar como um hit e incorporar os valores essenciais do gênero foi Negra melodia. Na época do lançamento, ela foi considerada pelo jornal O Globo como a “mais importante do disco, justamente a que vale um disco inteiro”, além de “utilizar imagens de Bob Marley, Estácio-Itapoan-África, com células rítmicas do reggae, completas de swing brasileiro.”

Segundo Macalé, a repercussão e o impacto positivo da canção se deram em função da novidade, do comportamento e da ideologia libertária que a letra continha. “Forget your weakness and dance, reggae is another bag” (Esqueça sua fraqueza e dance, o reggae é outra bagagem), dizia a composição assinada por Waly Salomão, que mesclava trechos em português e inglês. “Waly fez essa letra em homenagem a Luiz Melodia. Como Gil e eu estávamos atentos ao ritmo e às suas letras libertárias, convidei-o a participar da gravação. A letra de Waly já trazia o ritmo interno. O que eu fiz foi incorporar Bob Marley, sobretudo a sua música No woman no cry”, revela Macalé.

Os anos 1980 marcariam a primeira e única vinda de Bob Marley ao Brasil. Apesar de não ter se apresentado em nenhum lugar, encheu a cara de suco de frutas em lanchonetes cariocas e bateu uma pelada com Chico Buarque, que ficaria marcada na história. Pouco depois, Peter Tosh fez um show histórico no Palácio das Convenções, em São Paulo, durante o 2º Festival Internacional de Jazz, contribuindo ainda mais para a popularização do ritmo junto ao grande público. Um ano antes de Marley aterrissar em solo brasileiro, Gilberto Gil e Jimmy Cliff excursionaram juntos pelo Brasil, arrastando milhares de pessoas em todas as cidades por onde passaram. O Recife estava na rota, e o Estádio do Geraldão foi o lugar escolhido para o show, que se tornou memorável, abrindo, definitivamente, as portas para o ritmo jamaicano na capital pernambucana.


Jards Macalé lançou Contrastes (1977) e produziu Transa (1972), de Caetano Veloso.
Foto: Divulgação

RECIFE
“Pra mim, a base do reggae no Recife foi a vinda de Gil e Jimmy Cliff. Eu tinha 17 anos na época e foi muito marcante. Os jamaicanos vieram todos fardados, um era do exército, o outro, da aeronáutica. Isso gerou um impacto no palco. Depois fui entender que eles estavam em guerra, aquele visual era uma questão política. O show começou com Cliff só tocando tambor, que eles chamam de nyabinghi. Quando vi aquilo, pirei. Não tive dúvidas de que a minha onda era aquela”, recorda o músico Ívano, um dos pioneiros do ritmo no Recife, hoje com 52 anos e ainda na ativa. Ele e o músico Valdi Afonjah formavam, na época, a banda Raízes, que mais tarde viria a se chamar Flor da Terra. O seu repertório era uma mescla de ritmos populares, que passou a ser influenciado pelo reggae após a vinda de Gil e Cliff. “Na época, não tínhamos muita informação sobre a música jamaicana e, depois que vimos o show, começamos a buscar mais coisa sobre aquilo. Naquela época, os discos do Bob Marley só entravam no Brasil se alguém trouxesse de fora. Uma dessas pessoas era o produtor Fernando Oliveira, neto de Valdemar de Oliveira. Foi com ele que tivemos acesso aos primeiros discos do Bob com The Wailers, como o Live!, Babylon by bus e Kaya”, conta Afonjah.

Outra referência que viria a determinar a identidade visual dos jovens músicos foi o programa Rock in Concert, da TV Globo, apresentado por Nelson Motta, que exibia festivais e vídeos de bandas e artistas consagrados. “Foi quando vimos pela primeira vez a figura do Bob Marley cantando ao vivo, e resolvemos usar o cabelo igual ao dele.”

Assim como na Jamaica, o reggae no Recife surgiu nos bairros periféricos, caracterizando-se como uma música do povo, do gueto. Trouxe em seu conteúdo mensagens de cunho social, político e espiritual, além de demonstrações de inconformismo, sendo utilizado como instrumento de contestação, principalmente pela população negra, estigmatizada como marginal.

A primeira tentativa de incorporar o reggae no Recife foi como sinônimo de guerrilha. Ívano usou o estilo musical primeiramente contra a repressão, a falta de liberdade de expressão e a discriminação racial, fazendo uso não só da música, mas da dança, do grito e do gestual. Seu primeiro registro, o LP Rebeldia e dança, que só foi lançado nos anos 1990, quando se tornou mais viável a realização de um disco, foi definido pelo músico como um documento musical de combate.


Os Karetas fizeram, em 1981, o primeiro registro fonográfico inteiramente dedicado ao ritmo. Imagem: Divulgação

Mas a primeira banda recifense a incorporar o ritmo em seu repertório foi Os Karetas, formada no final dos anos 1970, no Bairro de Casa Amarela. O grupo surgiu num contexto em que inexistiam artistas que se dedicassem exclusivamente ao reggae no país, sendo considerada a pioneira não só no Recife, mas no Brasil. Segundo o escritor e pesquisador Marco Antonio Medeiros, autor do livro A magia do reggae, tido como uma enciclopédia do gênero, as bandas que surgiram naquele contexto foram “até certo ponto corajosas para a época, pois o ritmo, até então, era quase um ilustre desconhecido para a maioria das pessoas.”

Quando os Paralamas do Sucesso apresentaram o ska aos brasileiros no disco Cinema mudo (1983), Os Karetas já haviam lançado o primeiro registro fonográfico inteiramente dedicado ao reggae, um compacto gravado e distribuído pelo selo Memória, em 1981, que trazia a música Vento norte, no lado A, e O relatório, no lado B. O simples compacto foi suficiente para que os pernambucanos estourassem com Vento norte, composta por Saulo Douglas, vocalista e principal compositor da banda. Após uma viagem de navio que fez à Europa, Douglas, também marinheiro, havia apresentado o reggae aos demais integrantes.

Assim, Vento norte, inicialmente tocada pelos músicos em ritmo de baião, logo foi mudada para o reggae, abrindo as portas para a banda que, com um único hit, alcançou uma vendagem de mais de 500 mil cópias. “Quando o compacto saiu, foram prensadas tantas cópias, que não houve capas suficientes. Muitos discos foram vendidos nas lojas numa capa de papelão”, diz o baixista, e um dos vocalistas da banda, Daniel Barbosa. “Até hoje, tenho uma carta de uma fã de Argentina pedindo pra gente mandar fotos autografadas pra ela. Isso significa que a música chegou lá.”

Os Karetas colheram o que plantaram. O lançamento do compacto rendeu turnês por diversos países da América e da Europa, além de várias cidades do Brasil. Foi dessa turnê que resultou o primeiro LP do grupo, intitulado Fogo na Terra, de 1983. Com 10 faixas, o disco, que trazia em suas composições mensagens divinas, se tornaria um dos marcos da discografia do reggae pernambucano e brasileiro. “Durante uma entrevista para uma rádio do Maranhão, um cara nos chamou na saída e disse: ‘Pra mim, vocês são a primeira banda de reggae do Brasil e também a primeira banda gospel do Brasil’”, conta Daniel.


A canção Nine out of ten, do disco Transa, faz a primeira referência direta ao ritmo.
Imagem: Reprodução

A força de Os Karetas, segundo Ívano, foi o pioneirismo na gravação. “Isso foi um diferencial na época, quando era muito difícil gravar. Hoje, a realidade das bandas é outra. Todo mundo pode gravar em casa, disponibilizar na internet e mandar a gravadora para aquele lugar”, aponta.

Também de Casa Amarela, veio o músico Marcelo Santana, que lançou seu primeiro disco independente, Sensibilize, em 1994, com a turma do Bando do Reggae. Embora venha de uma geração posterior àquela que introduziu o ritmo jamaicano no Recife, Marcelo também é considerado um dos primeiros regueiros da cidade, ao lado de Ívano, Valdi Afonjah e Saulo Douglas, dOs Karetas. Seu terceiro disco, Reggae na alma, foi o que teve maior repercussão, ganhando espaço até no rádio.

“Descobri o reggae no quintal de casa. Como sou filho de Casa Amarela, assistia aos ensaios dOs Karetas, quando era menino”, conta. Há dois anos morando no Rio de Janeiro, Santana atualmente trabalha em parceria com o selo Sound System Brazil. “Acredito que o Rio me proporciona oportunidades novas, o que no Recife já não rola mais por conta do meu tempo de carreira, que já me permitiu ter caminhado por todos os lugares. Sem falar que vez ou outra estou indo a São Paulo. Com isso, venho conquistando um público que não conhecia meu trabalho”, compara.

Com quatro discos na bagagem, ele acredita que a força do reggae é atemporal. “Pra mim, ele é a essência fundamental da vida, por isso não consigo ver um lado ruim nesse tipo de música. Acredito que todos que fazem reggae sabem do que estou falando e vivem esse sentimento. Além disso, é um ritmo dançante e envolvente. Foi também uma porta para os pretos, brancos e marrons que se identificavam com aquela forma de pensar”.

Para Ívano, a base do reggae continua a mesma. “Ele está atualíssimo em relação à truculência da polícia, à discriminação social, à favelização. Ainda tem muita gente sendo vítima dessas coisas.” 

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