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Gravadores e papeleiros

TEXTO José Cláudio

01 de Maio de 2014

Imagens Reprodução

Primeiro, meu xouzinho de erudição para impressionar, o que é besteira: é só copiar nos livros, como faço aqui com a frase do pintor francês Maurice Denis (Granville, 1870-Saint-Germain-en-Laye, 1943): “Lembrem-se que antes de ser uma representação de um cavalo de guerra, de uma mulher nua ou ainda de uma anedota, um quadro é por essência uma superfície plana ocupada por cores arrumadas numa certa ordem”. Estava descoberta a materialidade do quadro. E ele disse isso aos 20 anos de idade, em 1890, ano da morte de Van Gogh, que também aludira em carta a uma pintura que não representasse nem cavalo nem mulher nua nem nada, a arte abstrata enfim. Mas Denis inda foi mais longe, falando da matéria física de que é formado o quadro, como na tela do italiano Alberto Burri (1915-1995) Sacco (saco) de 1954 em que a própria estopa rasgada e suja já contém em si toda a dramaticidade da representação com uma intervenção mínima, mas suficientemente modificadora, da mão do artista; estopa nua aliás material que já tinha sido usado em quadros de Gauguin mas servindo de tela para a pintura. Quando estava na Itália em 1957-58 falava-se muito de pintura polimatérica, vários materiais acoplados, e eu mesmo fiz uma exposição na galeria da prefeitura, Recife, 1961, por aí, algo parecido com umas peças de Antônio Hélio Cabral que aparecem no livro A natureza na arte brasileira, ps. 78-79 e 73 (depois da exposição joguei tudo no Capibaribe, ali mesmo da galeria, ao lado do prédio dos Correios, alguém deve se lembrar).

Nesse livro da Volkswagen do Brasil, com obras de 25 artistas escolhidos por Jacob Klintowitz, 1989, compareço com uma escultura em pedra (granito) do lado de Paulo Dias (Recife, 1960), um dos atuais expositores do Museu do Estado, mostra Impressões, maio/14, enquanto escrevo dia ainda não definido. Os outros artistas são Suzana Azevedo e Ypiranga Filho.

Paulo Dias fabrica o suporte sobre o qual imprime suas estampas, digamos assim, por não se tratar de gravura no sentido de chapa gravada, metal, madeira, pedra, mas de recortes entintados e pressionados sobre esse tipo de papel artesanal que ele próprio produz com formatos diversos, bordas incertas e até vazados É a vitalidade do Pernambuco Experimental, para lembrar a bela exposição do MAR, Museu de Arte do Rio, feita recentemente por Paulo Herkenhoff e Clarissa Diniz. Mas deixemos que o artista fale: “Nessa mostra assim intitulada ‘Rios, pontes e overdrives’ (viadutos) parto de uma canção ritmada de Chico Science e da Nação Zumbi que fala de nossa cidade e suas ribeirinhas, bem como oceânica, costurada pela necessidade e vontade dos homens com pontes e viadutos, envoltos pelo manguezal onde a vida aflora. (...) A mostra é composta de 14 papéis artesanais (feitos em fibra de iuca, agave, bananeira, algodão e rami) pintados em terras naturais e acrílica. As composições são feitas com impressões de carimbos de E.V.A. [“espuma vinílica acetinada”, como me explicou, parecida com sola de sandália japonesa], e sua repetição e superposição imitam e compõem a trama urbana, como a reunião de notas musicais compõem a música”.

Nos três artistas se nota um grande refinamento, como se o processo de fazer tivesse tanto ou mais importância na obra do que o resultado visual, ou dependesse este crucialmente da invenção do método ou do uso dos materiais, mesmo no caso de Ypiranga Filho, mais próximo da gravura em madeira tradicional.

A papeleira Suzana Azevedo (Recife, 1950) alega que mesmo antes da fabricação do papel, já adotara esse tipo de figuração que aparece nas atuais gravuras, como nos mostrou dois exemplos. O que é inegável é que a tatilidade das atuais obras ganhou tamanha importância a ponto de nos atraírem tanto pela vista quanto pelo tato, como se um sentido tivesse de ser completado pelo outro. Vejo pelos seus catálogos que já fabricou objetos, “artefatos”, cajus, colares, ao lado das “paisagens impressas” (exposição no Museu Murillo LaGreca, sem data no catálogo). Essa ligação do sentido da vista e do sentido do tato está bem expressa nessa sua frase no folderzinho sem data Oficina do tempo, fazendo até lembrar a “arte corporal” (body art): “Com a planta do seu pé veja o chão do seu barro”. Trabalho curioso é o de imprimir num tecido de linho branco encontrado entre os despojos do seu pai como emendar peças de renda que pertenceram às suas avós. Há nela um forte sentimento preservacionista, nativista.

Ypiranga Filho (Recife, 1936) cujas origens artísticas remontam ao Movimento da Ribeira, Olinda, sempre se interessou por todas as técnicas, mas nos limitemos à gravura com que se apresenta nesta exposição. Sua curiosidade universal não deixou escapar um tronco de jaqueira que foi derrubada porque estava doente e logo o corte da serra lhe sugeriu essas xilogravuras de topo em que as intervenções do artista respondem à textura pouco compacta da madeira. Adão Pinheiro, no artigo Às margens plácidas, 1987, diz: “Ora, se diria que a produção da pintura pernambucana estaria voltada muito mais, hoje, em adquirir uma marca ou em formar uma tradição e menos em enveredar pelos caminhos da experimentação”. Ora, caro Adão, essa luta nunca esmoreceu e parece que cada dia começa de novo. Ou são as duas coisas numa. “Ypiranga”, continua Adão, “sempre utiliza os materiais com que trabalha, os motivos em que se inspira, como forma metafórica para falar de si mesmo, como se as folhas dessas gravuras fossem páginas de uma grande narração sobre si mesmo.” 

JOSÉ CLÁUDIO, artista plástico.

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