Clique ao lado para visualizar o sumário da nova CONTINENTE.

Arquivo

Casca de jaca

TEXTO José Cláudio

01 de Março de 2014

Capa do libreto que acompanha o disco 'Sítio do Pai Adão/ ritmos africanos no Xangô do Recife'

Capa do libreto que acompanha o disco 'Sítio do Pai Adão/ ritmos africanos no Xangô do Recife'

Imagem Reprodução

"Tenho uma coisa para lhe dizer/mas não digo não/porque faz mal ao coração”, mas eu digo sim, que já passei, e muito, del mezzo del camin di nostra vita, o tempo está se apertando e o mais danado é que não sei quando termina (é praxe traduzir termos de língua estrangeira: mas quem é que não sabe que se trata do primeiro verso da Divina Comédia de Dante “no meio do caminho de nossa vida” e que apenas troquei o nel (no) pelo del (do) e que ele escreveu isso porque tinha trinta e cinco anos e a Bíblia estabelece setenta para a vida humana?). Quanto aos versos que abrem esta croniqueta, são de um frevo-canção mais ou menos antigo: tudo que faz parte de mim é mais ou menos antigo; mas vige, justamente porque faz parte de mim, que inda não morri; e como sei que inda não morri?: porque estou escrevendo isso aqui, tanto quanto Dante quando escreveu nel mezzo del camin. Ai, Dante, já vou singrando os oitentas e a comédia inda não terminou.

Escribir, por ejemplo: “La noche está estrellada,/y tiritan, azules, los astros, a lo lejos” (escrever por exemplo a noite está estrelada e tiritam azuis os astros à distância); eu sempre grafei “à distância”, com crase, porque é assim que eu ouço, como em espanhol, a preposição a e o artigo lo; já discuti outro dia com um amigo, ele dizendo que não existia essa crase; sem crase era como se dissesse “o longe” em vez de “ao longe”.

Escrever, por exemplo, que achei uma maravilha o disco Sítio de Pai Adão/ritmos africanos no Xangô do Recife que recebi de Ivânia Barros Melo com a dedicatória “Para José Cláudio com os agradecimentos de Ivânia e família, 05/06/06”, toadas africanas e respectivas traduções em português, obra de grande valor dessas que surgem de raro em raro e nos dão fé no Brasil. Boto na vitrola, ou que outro nome tenha o toca-CD, com medo de gastar. Não posso mais viver sem esse disco. Os seus autores deveriam ter sido condecorados, receberem do governo um ordenado para o resto da vida. Só não sei a razão dos agradecimentos, quando eu é que tenho de agradecer e o faço agora. Com “algum” atraso. Mandei um exemplar do disco para minha filha Maria Júlia, professora de música nos States, para ela lançar a semente lá entre os tejanos (mexicanos que nascem no Texas). Alguns até nem falam inglês, como uma senhora amiga da mesma Maria Júlia, hermana de la Rosa, páreo para Raul Souza Leão no fabrico de pimenta caseira. Maria perguntou a ela: “Hermana de la Rosa, quanto tempo faz que a senhora não vai ao México?” Ela respondeu: “Nunca fui”. Não sabe uma palavra de inglês. Até “dólares” ela diz “pessos” (pesos).

Mudando de pau pra cacete, a maioria das reportagens sobre artistas não fala nesse ponto crucial: de onde tiram o necessário para se manter, como se artista vivesse de brisa. Antigamente, aqui pelo menos, artista vinha de família rica, não precisava de vender quadro para comer. “Quadro era para dar”, me disse Cícero Dias. “E era difícil.” Era difícil porque o fato de receber um presente pressupunha uma certa intimidade, e nem sempre o presenteado se sentia à vontade para recebê-lo. Significava até um julgamento, um atestado de apreço, como quando hoje se diz que o artista tem quadro na coleção Fulano de Tal, no Brasil ou Exterior. Uma ocasião o escritor Gastão de Holanda pensou em criar currículos fictícios para artistas daqui, inventando museus de nomes impressionantes, cidades de nomes difíceis, de outros continentes, prêmios no Sul do País.

Ainda sobre presentes. Está havendo agora também o inverso, o indivíduo dar presente para receber de volta um quadro do pintor, pintor este que não tem dinheiro nem para pagar o aluguel do tugúrio onde mora, ou precisa de exercer outra atividade para sobreviver, sobreviverem, ele, mulher e filhos quando é o caso, pagar colégio, médico, dentista, para não falar da aula de natação ou karatê. Eu mesmo, fico com um pé atrás ao receber presente, como se a pessoa quisesse criar um elo, uma obrigação, um voto de lealdade, uma dívida. Para não ser mais grosseiro recusando o presente, o que seria tido como uma afronta, mesmo que eu estivesse quieto no meu canto sem propósito de afrontar ninguém, que tenho mais com que me ocupar, procuro, o mais delicadamente possível, dizer que não posso retribuí-lo. Muitas vezes querem que eu dê um quadro, eu agora nos meus últimos lampejos, que me custam os olhos da cara e o fígado, o coração e a cabeça, uma vida de pobreza minha e de meus filhos, em troca de casca de jaca. Me lembro de um judeu riquíssimo, amigo de Renato Magalhães Gouvêa, que devolveu na hora um relógio que valia uma fortuna, dizendo ao presenteador: “O senhor não tem intimidade para me dar este presente”.

Não no caso de Ivânia, vale lembrar, que tem quadro meu, grande, e até escultura em madeira, que é mais caro, bem antes de quaisquer presentes: e esse presente dela é uma coisa que dignifica, acima de valor material.

Tem presente que sabe a suborno mas desse não falo por não ser o destinatário indicado.

Às vezes fico besta de ver a quantidade de gente boa com quem convivi e convivo que nunca quiseram nada de mim, nem precisam. Conheci, conversei, até tive intimidade, gente muito acima de mim na escala social ou outras escalas. O único mérito que encontro em mim para ser digno de tanto privilégio é a coragem, digo, a consciência, de não ser nada, que nunca me faltou. Eu nunca “avancei”. Sempre soube que não sabia latim, ou sabia o suficiente para saber que não sabia, nem nunca li as obras completas de Calderón de la Barca. 

JOSÉ CLÁUDIO, artista plástico.

Publicidade

veja também

A consciência do erro

Cafés portenhos: Lugares de memória

Terra do Fogo: Perto do fim do mundo