Além da suicida miraculosa, o Charles Bridge me localizava pertinho do Prague Ghosts and Legends Museum. Uma vizinhança e tanto! E convenhamos: o passeio com fantasmas era mesmo a melhor opção, já que, em Praga, você encontra inúmeros guias dispostos a lhe mostrar a cidade (sem fantasmas) gratuitamente, e em vários idiomas, a qualquer hora do dia. Esses tchecos sabem bem de onde vem o dinheiro! Mas, antes dos fantasmas “oficiais”, decidi sair em busca do meu morto tcheco favorito: Franz Kafka. (Parênteses necessários: é claro que se trata de uma tremenda ironia seguir um roteiro turístico kafkiano, se pensarmos que não estamos falando de um homem famoso por sua boêmia, e, sim, por suas histórias claustrofóbicas, incluindo gente transformada em inseto antes do café da manhã.)
Nos textos pessoais do escritor, sua relação de amor-ódio com Praga é vibrante: ao mesmo tempo em que a cidade servia de palco à sua sensação de deslocamento do mundo, era justamente dela que Kafka retirava inspiração e foco para erguer uma obra que anteciparia a paranoia das décadas seguintes. Praga era a máscara de inseto que ele não conseguia tirar do rosto. Atualmente, o jogo se inverteu: é Praga que não consegue se livrar da máscara de Kafka. E nem quer!
KAFKIANO
O roteiro kafkiano é intenso e bem irregular. Minha primeira parada foi a casa de número 22 da Viela Dourada, onde Kafka se isolara para escrever obras como o assombroso conto Um médico rural. A construção fica na região do Castelo de Praga, este, sim, um espetáculo à parte! Mas a aura “literária” do local é perfurada pela quantidade de suvenires com a cara do autor disputando sua atenção. Após tropeçar numa caneca de chope lembrando uma das cenas de A metamorfose, bati em retirada e decidi que não visitaria a Franz Kafka Bookstore, onde, segundo o atendente do meu hostel, encontraria as mais “loucas lembrancinhas kafkianas”.
Imperdível, no entanto, é o Museu Kafka, que faz questão de explicitar a relação dúbia do escritor com a sua terra a partir de uma incrível exposição em 3D, além de cartas e manuscritos. Detalhe curioso: logo na entrada, há uma estátua de dois homens urinando no mapa de Praga, com as feições mais estranhas que você possa imaginar. Como, freudianamente, urinar num objeto é estabelecer um comentário crítico, a “metáfora” da obra não poderia ter sido melhor idealizada.
O Franz Kafka Café, que (juram, de pés juntos, os guias) o escritor costumava frequentar, é famoso por ter o melhor strudel de Praga. Mas, pelo nome do restaurante e pelos avisos (dos guias, claro) de que ali eu encontraria “a verdadeira atmosfera tcheca”, já podia ter imaginado o que me aguardaria: um sem-fim de gente tirando fotos de paredes, tirando fotos de outras fotos, de pratos, dos garçons. Depois de tentar, sem sucesso, ser atendido, vi que aquilo não era bem o que eu gostaria de ver (ou comer), sobretudo após perceber que o passeio pelo Franz Kafka Café não ficaria completo sem uma passada pela vizinha loja da Puma, que tocava uma house music animadíssima. Como os vivos eram muitos, e estavam vivíssimos e irrequietos, decidi por uma visita aos mortos. E corri para o cemitério.
Kafka morou na pequena casa azul à esquerda, número 22 da Viela Dourada.
Foto: Divulgação
Como já havia “vivido” Kafka demais por um dia, decidi não ir visitar o seu túmulo, no Novo Cemitério Judeu, onde seus leitores/fãs (sabe lá Deus a razão!) deixam como prova do passeio o tíquete do metrô sobre a lápide. Troquei então de escritor e fui visitar o Velho Cemitério Judeu de Praga, cenário do romance O cemitério de Praga, de Umberto Eco, lido com muito prazer, ao menos até a metade.
O Cemitério Judeu de Praga fica no centro histórico e é uma ótima pedida até para quem não tem queda alguma por roteiros lúgubres. Datado do século 15, é impossível saber a quantidade precisa de pessoas enterradas ali, já que ele abriga camadas e mais camadas de tumbas. Na tarde em que visitei o cemitério, para minha surpresa, havia tanta gente turistando, tanto Instagram sendo feito, e o nível da conversa estava tão alto e animado, que não me surpreenderia se algum dos presentes ligasse o som e começasse a dançar ali mesmo.
Como já estava embalado, não voltei para o hostel sem antes visitar o Prague Ghosts and Legends Museum, que é uma daquelas armadilhas pega-turistas de realmente assombrar pelo nível do charlatinismo aplicado. As “obras” do museu não esmiúçam a relação estreita que a capital tcheca teve com os grandes mestres alquimistas e suas poções mirabolantes, brindando-nos apenas com uma caveira aqui e um zumbi-que-pula logo ali adiante.
O cardápio de assombrações era tão infantil, que desisti de visitar o museu de torturas, também na vizinhança. Já era o suficiente para um dia. Ou melhor, não era! Ao voltar para o hostel, pergunto ao recepcionista (ainda o mesmo) se ele podia me dizer onde ficava o restaurante Club Architects, onde pretendia jantar naquela noite. Após fazer um monte de rabiscos no meu mapa, ele me avisa sorrindo: “O lugar é lindo... É subterrâneo, parece uma catacumba”. E o pior que ele estava certo!
Público vai ao Franz Kafka Café atraído pela memória do escritor e pelo famoso strudel lá servido. Foto: Divulgação
ESPANTA-FANTASMA
Enfim chega a esperada noite de sexta-feira, quando ocorreria o tal passeio para visitar os fantasmas. Passei o caminho inteiro até o ponto de encontro com o guia e meus futuros companheiros me perguntando que tipo de pessoa (além de mim) toparia um passeio assim. Minhas conjecturas foram logo arrefecidas pelo grau de normalidade do restante do grupo: umas sete pessoas, com idades entre o fim da adolescência e 40 e poucos anos, que não pareciam fazer lá muita questão de estar ali, algumas delas, inclusive, portando enormes pacotes de grifes de street wear. A guia era uma senhora americana baixinha, de vozeirão encorpado e fantasiada com um sobretudo negro e uma cartola que faziam com que parecesse perigosamente com Willy Wonka.
O tour saiu de uma ruela do centrão histórico pontualmente às 21h, segundo a guia a hora exata em que “os fantasmas dão as caras”. Cheguei a perguntar a razão – como resposta, ela riu e mudou de assunto logo, logo. Os fantasmas, não sei onde estavam, mas a animação de Praga àquela altura era contagiante: bares cheios, jovens bêbados de um lado para o outro, artistas de rua fazendo malabarismos e excursões, muitas excursões. Em determinados pontos do roteiro, que consistia em duas ou três ruas da parte turística, era quase impossível entender o que a guia falava.
Nos 40 minutos do passeio, ouvimos histórias de assombrações com crianças órfãs, noivas abandonadas e jogadores compulsivos que seguem arrastando correntes. Em comum, todas elas traziam a macbethiana impressão de que fantasmas, no final das contas, são a nossa consciência querendo corrigir alguma coisa quando provavelmente já é tarde demais. “Espero que vocês tenham se assustado em algum momento, está cada vez mais difícil fazer essa rota de fantasmas com tanta gente na rua...”, desculpou-se a guia, ao final do passeio. Talvez nove da noite ainda seja cedo para os mortos-vivos, pensei, mas dessa vez em silêncio.
O meu grupo, animado com os vivos ao redor, aproveitou para esticar a novíssima amizade feita num bar que avisava que a nona (!!!) rodada de cerveja era por conta da casa. Mas preferi declinar do convite, já que, a essa altura, havia compreendido que fantasmas são experiências privadas, nada aleatórias e talvez nem um pouco geográficas. Praga que me perdoe.
SCHNEIDER CARPEGGIANI, jornalista, crítico literário, mestre e doutor em Teoria Literária.