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Vivian Maier

Encontrada entre despojos

TEXTO Chico Ludermir

01 de Dezembro de 2011

Com ângulos inusitados, Maier registrava o cotidiano de Chicago

Com ângulos inusitados, Maier registrava o cotidiano de Chicago

Foto Reprodução

A obra de Vivian Maier se resumia a 100 mil negativos encaixotados num armário de aluguel. A babá feminista não revelava seu talento, mas, com jaqueta e sapatos de homem, gastava seus dias de folga andando pelas ruas de Chicago. Estava sempre tirando fotos, que não mostrava a ninguém, com uma câmera Rolleiflex.


A babá-fotógrafa tinha nas crianças um dos seus principais temas. Foto: Reprodução

Em outro tempo e em outra parte da cidade, o jovem historiador John Maloof trabalhava no livro sobre o Parque Portage e comprou num leilão, em 2007, alguns artigos que poderiam lhe servir. O acervo vinha de um armário confiscado pelo atraso do aluguel e continha boa parte da obra que Maier secretamente escondeu durante toda sua vida.


Além dos retratos, elementos urbanos também a interessavam. Foto: Reprodução

Ao se deparar com fotos de altíssima qualidade técnica e rara sensibilidade, Maloof buscou mais negativos de outro comprador do mesmo leilão e foi atrás da artista anônima. Logo descobriu o nome da fotógrafa, mas foi incapaz de saber mais sobre ela até pouco depois de sua morte, quando encontrou um obituário no jornal Chicago Tribune.


Nos seus vários negativos, destaca-se sua habilidade para o flagrante. Foto: Reprodução

A partir daí, as fotos ganharam o mundo, tanto pela sua origem excêntrica quanto por sua estética. E, se não mudaram a vida de sua autora, alavancaram a carreira do seu descobridor. A exposição com curadoria de John Maloof já passou pela Dinamarca, Noruega, Alemanha e Inglaterra e virou o livro Vivian Maier: street photographer (Vivian Maier: fotógrafa de rua), lançado mundialmente em novembro pela editora Random House e já disponível no Brasil. Paralelamente, Maloof encabeça um documentário de longa-metragem intitulado Finding Vivian Maier (Procurando Vivian Maier), que está em produção e deve ser lançado em 2012.


A fotógrafa se apropriava bem dos recursos do preto e branco, brincando com luz, sombra e silhuetas. Foto: Reprodução

Há, ainda, pouca informação sobre a vida da artista. O que se sabe é que ela nasceu em Nova York, em 1926, e foi criada na França. Em 1951, aos 25 anos, Maier voltou para Nova York, onde trabalhou por algum tempo em uma fábrica e, depois, tornou-se babá, ofício que a sustentou durante 40 anos. Entre 1959 e 1960, ela viajou para Los Angeles, Manila, Bangkok, Pequim, Egito, Itália, e pelo sudoeste americano, tirando fotos em cada local. A viagem foi, provavelmente, financiada pela venda de uma fazenda da família na Alsácia.


Autodidata, Vivian Maier desenvolveu técnica composicional sofisticada. Foto: Reprodução

Além de uma história peculiar, Vivian possuía um talento nato. Longe do convívio com outros fotógrafos da época, desenvolveu sua arte de forma solitária e autodidata. Como fotógrafa de rua, Maier impressiona pela amplitude do trabalho, ao mostrar todas as facetas da vida da cidade numa América do pós-guerra. Traz à tona a vida invisível dos indigentes, bem como alguns dos locais mais queridos de Chicago. As crianças, as empregadas domésticas negras e os moradores de rua foram catalogados de forma meticulosa.


Uma das muitas versões que ela fez de si mesma. Foto: Reprodução

Maier parece ter encontrado a missão de sua vida na fotografia, documentando o próprio senso de beleza nas imagens de pessoas, lugares e coisas ao seu redor. Rondava incessantemente os subúrbios com sua câmera, porém, não o fazia para os outros, fazia para si. É dessa maneira, extremamente despretensiosa, que Maier nos proporciona uma experiência contemplativa. Sua determinação resultou numa coleção de retratos de uma época, carregados, ao mesmo tempo, de sensibilidade e precisão. 

CHICO LUDEMIR, fotógrafo.

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