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“Nossa literatura não circula”

Diretor do Centro de Estudos Brasileiros da Universidade da Califórnia, José Luiz Passos defende ações que promovam os autores brasileiros fora da academia nos Estados Unidos

TEXTO Daniel Buarque

01 de Dezembro de 2011

José Luiz Passos

José Luiz Passos

Foto Maurício Shirakawa/Editora Objetiva/Alfaguara/Divulgação

O sociólogo pernambucano José Luiz Passos tem um desafio permanente em seu trabalho: apresentar o Brasil para os norte-americanos. Seu objetivo não é levar a imagem caricata que aparece na TV, mas o Brasil real, com suas contradições e desafios. Segundo ele, trata-se de um país complicado, que reflete seus contrastes em sua literatura, fazendo dela um produto pouco acessível. Graduado pela UFPE, Passos é diretor do Centro de Estudos Brasileiros da Universidade da Califórnia em Los Angeles (UCLA) e professor de Literatura Brasileira. Apesar do comentário quanto ao universo literário, segundo ele, é fácil perceber que o Brasil tem se tornado menos exótico aos olhos americanos. “Hoje, vemos o consumo da cultura brasileira em escala global”, diz. O problema é que a literatura brasileira, ao contrário da música, não é tão facilmente transportada pelas traduções e acaba restrita a ambientes acadêmicos. Neste aspecto, autores canônicos como Machado de Assis, acredita ele, jamais terão leitura popular nos Estados Unidos, ao contrário do que ocorre com Paulo Coelho.

CONTINENTE Quais os desafios da literatura brasileira para os leitores estrangeiros? Como é ensinar esse gênero para os norte-americanos?
JOSÉ LUIZ PASSOS Tenho uma atuação muito específica como professor de Literatura Brasileira na UCLA. Minha missão é mostrar aos americanos que o Brasil não é só Carnaval, mulatas; não é só o que aparece na Rede Globo, não é aquilo que se encontra imediatamente na internet. Busco educá-los para entenderem um conto de Machado de Assis, arriscarem-se a ler Guimarães Rosa ou perceberem a ambiguidade de um herói como Macunaíma. Aí existe uma riqueza como repositório de contradições, de reflexões sobre o que é o Brasil, que precisa ser apresentado. A universidade é o lugar em que podemos discutir a reinvenção da roda, e temos o espaço e a missão de atrair os estudantes para reconsiderarem a cultura brasileira a partir da sua tradição literária, de maneira criativa e crítica.

CONTINENTE Em uma apresentação da edição americana de Memórias póstumas de Brás Cubas, traduzido como Epitaph for a small winner, Susan Sontag trata Machado de Assis como um dos maiores escritores da história. Isso chega aos leitores? Como vê o interesse do público local pela literatura brasileira?
JOSÉ LUIZ PASSOS Fora da universidade, nos Estados Unidos, a literatura brasileira não circula. Houve, em certo momento, uma grande difusão de Jorge Amado, que coincide com a época em que a bossa nova se difundiu, mas depois, diminuiu. A penetração das literaturas estrangeiras em tradução no mercado americano é mínima. Não é só a do Brasil, mas também as literaturas alemã, romena. Saramago ganhou um Nobel, está editado, traduzido, mas as pessoas não saem lendo e discutindo Saramago a torto e a direito. Existe o cachê político da língua, existe o interesse nas culturas de origem dessas literaturas e existe a presença geopolítica do país, como nação preponderante que desperta o interesse. O Brasil está construindo e conseguindo mais espaço, mas nunca um autor como Machado de Assis, ou Clarice Lispector, vai ser um best seller lido em ônibus e metrô, como vemos acontecer com os livros americanos.

CONTINENTE Como pesquisador de literatura brasileira, como observa o fato de Paulo Coelho ser o escritor brasileiro mais conhecido nos EUA?
JOSÉ LUIZ PASSOS Paulo Coelho é lido em ônibus e metrô, mas ele não é visto como literatura brasileira. Muitos dos seus leitores, aqui, nos Estados Unidos, nem sabem que ele é brasileiro. É preciso questionar o que é literatura brasileira e o que é literatura mundial. Paulo Coelho, naturalmente, aspira a uma inserção no mercado para a qual a denominação de origem, a representação da cultura de origem, não é uma questão. As pessoas que leem Paulo Coelho não querem consumir o Brasil, mas consumir romance de iniciação, de autoajuda, new age, autoconhecimento, que pertence a uma cultura global, desterritorializada. Os seus romances viajam bem, são escritos com a intenção de circularem muito. É uma decisão autoral e de mercado que deve ser respeitada, mas as pessoas que o leem não querem ver o Brasil. É o oposto do que motiva alguém a ler Grande sertão: veredas. Neste, o nível de especificidade é tamanho, é preciso enfrentar o muro de uma linguagem recriada, e com a particularidade daquelas situações. Dito isso, existe, sim, uma mensagem universal, humana em Grande sertão: veredas, mas ela não viaja bem nas traduções, não é visível fora do idioma original.


Paulo Coelho. Foto: Divulgação

CONTINENTE Falta o governo fazer uma divulgação maior da literatura brasileira no exterior?
JOSÉ LUIZ PASSOS O que o Brasil poderia fazer é o que a Espanha e Portugal fazem: colocar em instituições-chave mais atenção sobre o país. Bolsas, leitores, tradutores. Tanto a França quanto a Alemanha estimulam bolsas de pesquisas para estrangeiros, para o estudo da língua e da cultura. Eles têm prêmios de tradução. Por que livros fundamentais como Raízes do Brasil, de Sergio Buarque de Holanda, não estão traduzidos para o inglês? O governo brasileiro deveria definir que o livro é fundamental para entender o Brasil, e oferecer uma bolsa de tradução. Deveriam ser promovidas a tradução e a publicação dos livros brasileiros em outros países. O Brasil ainda depende de interesse externo, de entidades como a UCLA estudarem e promoverem o Brasil. Isso tem melhorado, mas ainda é pouco.

CONTINENTE Mas isso é secundário, se pensarmos que o Brasil tem tido dificuldades para resolver os problemas da educação dentro do próprio país, não?
JOSÉ LUIZ PASSOS No começo, eu pensava que isso era, em parte, por questão de o Brasil ter problemas internos de educação. Ao longo dos anos, entretanto, me dei conta de que o que o Brasil investe em outras áreas deixa claro que não seria impossível. Editar um livro é barato, pagar uma bolsa de tradução é mínimo. Pagar para ter um leitor de português nas universidades daqui é gasto pequeno. O problema é a falta de prioridade política.

CONTINENTE Como a UCLA pode avançar na pesquisa de literatura brasileira? Que diferencial pode ter sobre universidades brasileiras?
JOSÉ LUIZ PASSOS A missão do Centro de Estudos Brasileiros da UCLA é tornar visível a presença do Brasil e da pesquisa que a instituição realiza relacionada ao país. Aqui, na biblioteca, temos livros raros, primeiras edições, séries completas de revistas e periódicos do século 19 que nem a Biblioteca Nacional no Brasil possui. Isso porque, há 60 ou 80 anos, a universidade dedica parte do orçamento da sua biblioteca para comprar material brasileiro. Temos manuscritos originais, aquarelas de viajantes estrangeiros, fotografias, um capital cultural adquirido no longo prazo que faz diferença na hora em que se vai estudar o Brasil.

CONTINENTE A criação do Centro de Estudos Brasileiros na UCLA pode ser vista como exemplo de aumento do interesse dos americanos no Brasil?
JOSÉ LUIZ PASSOS Historicamente, a presença do Brasil dentro da academia americana se fortalece a partir da década de 1960, por conta da Guerra Fria, do interesse estratégico de cultivar a aliança, de fazer política de boa vizinhança. É curioso, pois se, na primeira metade do século 20, a presença das literaturas e da cultura europeia e ibérica era mais forte no contexto de departamentos de espanhol e português, na segunda metade do século 20, a coisa muda e a América Latina passa a ter preponderância em comparação com a Espanha; e o Brasil recebe mais atenção que Portugal. Há uma trajetória ascendente. E, mais recentemente, nos anos Lula, a presença do Brasil e da cultura nacional na mídia mundial cresceu. Hoje, vemos o consumo da cultura brasileira em escala global. Músicos, como Gilberto Gil, tocam nas rádios, fazem shows e ganham prêmios nos Estados Unidos e na Europa. Cidades americanas passam a ter academias de capoeira. Com isso, há naturalmente uma demanda maior por parte dos estudantes por cursos e diplomas relacionados a estudos brasileiros e latino-americanos, de modo geral. Isso faz com que os departamentos fortaleçam essas áreas, e coisas como o Centro Brasileiro possam ser criadas.


Imagem: Vawis

CONTINENTE Quem é o aluno que estuda o Brasil na academia americana? Quando começa o curso, ele sabe algo sobre o país?
JOSÉ LUIZ PASSOS Varia muito. Em geral, nosso aluno médio, que busca o Brasil na UCLA, tem experiência bicultural, sendo descendente de imigrantes ou tendo viajado. Tem curiosidade sobre o Brasil. Pensa-se que o americano médio é inculto, não fala mais de uma língua. Isso não é verdade. O universitário americano médio tem mais acesso a uma cultura global e à educação de línguas estrangeiras do que o brasileiro médio. O americano médio viaja mais que o brasileiro médio. As universidades americanas incentivam projetos de intercâmbio que levam estudantes a outros países. Nos meus cursos, tenho alunos que são falantes nativos de espanhol, filhos de imigrantes, que gostariam de acrescentar o português como terceira língua. Fora isso, há os filhos de imigrantes brasileiros que conseguem entrar na universidade. Em terceiro lugar, há o americano sem nenhum contato familiar ou linguístico com o Brasil, mas justamente porque o país figura na mídia internacional e pela cultura brasileira ter sido mais vendida do que antes, nesse panorama de consumo, desenvolve interesse ativo e procura cursos nessa área.

CONTINENTE O brasileiro costuma se interessar muito pelo que se fala sobre ele e o país, no exterior. Como vê isso no seu trabalho?
JOSÉ LUIZ PASSOS É curioso como o interesse do Brasil pelo que os outros pensam dele é antigo, vem de longe. Se fôssemos usar um chavão acadêmico, bastaria dizer que é parte da síndrome do colonizado, de que quando o brasileiro se vê representado, isso valida e reproduz a sua posição. Quando o brasileiro quer consumir o que o New York Times diz sobre ele, coloca-se na posição de objeto do outro e reverencia esses gestos. Isso tem a ver também com o fato de que é uma curiosidade natural de comunidades quererem se encontrar e se verem representadas. Numa cultura global, a curiosidade pelo alcance que seu ponto de origem tem é mais do que compreensível. Quando se lê uma notícia num jornal estrangeiro sobre sua cidade natal, há uma euforia de estar em outro lugar, sendo visto, reconhecido, isso amplia o sentimento de comunidade.

CONTINENTE Uma pesquisa sobre a imagem do Brasil nos Estados Unidos mostrou que os americanos o veem como um país decorativo, mas não sério. Acha que isso faz sentido?
JOSÉ LUIZ PASSOS Economicamente, o Brasil vem recebendo atenção por ter sido um dos últimos a entrar e dos primeiros a sair da crise. Tenho a impressão de que há comunidades, grupos e setores em que essa maior consciência do Brasil tem formas múltiplas. Se, para o americano médio, o Brasil é esse país decorativo e não útil, quem é esse americano? Entre músicos, por exemplo, o país tem um cacife mais alto. Hoje em dia, para a cultura brasileira e para instituições e agentes nacionais, existe a possibilidade de uma carreira global em que seu produto é o Brasil. Mal ou bem, a alta cultura letrada americana presta atenção nos temas brasileiros. Autores locais continuam sendo minimamente traduzidos e consumidos por essa elite. O Brasil, como carreira transnacional na elite letrada, existe e está cada vez maior. 

DANIEL BUARQUE, jornalista e autor do livro Por um fio – o mundo explicado pelo telefone.

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