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Troy Andrews: Um estilo chamado supafunkrock

'Backatown', álbum indicado ao Grammy de melhor CD de jazz contemporâneo, mistura rock, hip hop e soul

TEXTO Rafael Teixeira

01 de Fevereiro de 2011

Foto Kirk Edwards/Divulgação

O jazz, alguém já disse, é como um elástico: parece poder se esticar indefinidamente, até que a tensão ultrapassa o ponto do suportável e – plac! – ele arrebenta. Também os limites do jazz, à primeira vista, podem se alargar mais e mais, juntando no mesmo balaio estilos tão distintos quanto o dixieland, jazz orquestral, bebopcool, jazz modal, free jazzhard bopfusion, samba jazz e por aí vai. Mas seria o jazz tão generoso, a ponto de abarcar tudo que se apresenta com esse nome? É essa a pergunta que se impõe à audição de Backatown, disco do trombonista Troy Andrews – ou Trombone Shorty. Aos 25 anos, natural de Nova Orleans, ele vem sendo apontado por crítica e público como a nova face do jazz.

Até aqui, Backatown é o ponto mais alto de uma trajetória que começou com Shorty de calças curtas. Aos 3 anos, ele aprendeu a tocar bateria e trompete. “Minha família inteira tocava. Então, em vez de brinquedos, tínhamos instrumentos pela casa, e eu naturalmente tentava produzir sons com eles. Aos 4 anos, já estava tocando trombone”, diz, referindo-se ao instrumento que adotou para valer – ainda que, eventualmente, toque trompete em seus shows, além de percussão, bateria e teclados no estúdio. Desde a adolescência, ele vem gravando diversos discos independentes, mas Backatown é o seu primeiro por uma gravadora de peso, a Verve.

As diferentes influências adquiridas ao longo dos anos em Treme, um dos bairros mais musicais de Nova Orleans, forjaram o artista e ajudam a entender de onde veio Backatown. “Crescer em Treme foi como estar no paraíso da música. Na vizinhança, havia (o tocador de tuba) Tuba Fats. Havia (o trompetista) Kermit Ruffins e a Rebirth Brass Band. Quando era garoto, eu tocava jazz, mas ouvia mais hip hop. Eu colocava os fones e fazia solos por cima da música de Mystikal, Master P e Juvenile (rappers de Nova Orleans)”, lembra. Sendo assim, é de se esperar que o produtor de Backatown tenha sido Ben Ellman, do grupo Galactic, de jazz-funk.

A indicação do trabalho ao prêmio Grammy de melhor disco de jazz contemporâneo não esconde – antes, evidencia – a salada musical de Shorty, cuja receita inclui doses generosas de rock, hip hop a gosto, pitadas de funk e soul, além de, last but not least, jazz. As músicas com vocais (há instrumentais também) são cantadas com a pinta dos jovens artistas da black music americana atual. Para alívio dos puristas do jazz, o próprio trombonista define seu estilo como supafunkrock. O que, para Shorty, por outro lado, não exclui o jazz. “Alguns acham que se você não toca de certa maneira, então não é um jazzista. Mas, para mim, isso é só uma plataforma para ser livre. Não quero ser um daqueles músicos que ficam reciclando o que já foi feito. Assim eu não conseguiria crescer”, afirma.


Foto: Ane Richey/Divulgação

Foi esse olhar para o futuro que possibilitou a Shorty conquistar admiradores como o trompetista Wynton Marsalis e o guitarrista The Edge, do U2. Ou o pianista Allen Toussaint, uma lenda viva do jazz, e o roqueiro Lenny Kravitz, em cuja banda Shorty tocou durante alguns anos. “Lenny me tirou da escola para tocar com ele. Um amigo nosso o convenceu a me colocar em um voo para Miami, eu toquei para ele e pronto. Foi incrível poder tocar naquela banda e ganhar tanto conhecimento.”

Não por acaso, tanto Toussaint quanto Kravitz fazem participações especiais em Backatown. Ao piano, Toussaint pontua a segunda das 14 faixas do disco, On your way down – um clássico do compositor que ganha releitura mais agitada com Shorty. “Estive com Allen em alguns shows no ano passado, e é sempre uma honra dividir o palco com ele. Graças a Deus, ele gostou de On your way down do jeito que fizemos. Construimos uma ponte entre o novo e o velho”, diz. Já Kravitz faz backing vocal e empresta certa pegada roqueira à suingada Something beautiful.

Right to complain é outro exemplo de como o rock está a serviço do som de Shorty. Mas é em SuburbiaWhere Y’at e The cure que ele mostra todo o peso que sua música pode ter, com guitarra e sopros colaborando um com o outro. Para jazzófilos tradicionalistas, é “deixe-o”, mais do que “ame-o”. Hurricane season (referência ao furacão Katrina, que assolou Nova Orleans em 2005), Quiet as kept e In the 6thsão da mesma safra, caminhando pelo funk e privilegiando os sopros.

Seguindo por outra linha, Neph começa com um batuque percussivo abrindo caminho para o trompete de Shorty, ecoando os tempos do Dizzy Gillespie afrocubano. E, sem perder a unidade sonora, a mira de Shorty ainda pode apontar para a baba romântica mais rasgada, como em Fallin’. Ou para um pop como One night only (The march), radiofônico, mas com um insuspeito solo de trombone. Ou para as bandas de rua de Nova Orleans, como na faixa-título, e, principalmente, na curtíssima 928 Horn Jam – composição dele próprio com três dos seis integrantes do seu conjunto, o Orleans Avenue. Banda que também é responsável pelo som multifacetado de Shorty. “Temos gente de diferentes experiências culturais, que escuta música de vários estilos, e fazemos isso funcionar. O som do grupo se desenvolveu dos gostos de cada um, filtrados pelo som que eu queria.” 

RAFAEL TEIXEIRA, jornalista.

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