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Entrevista

30 anos da revolução iniciada pelos Racionais MC’s

'Racionais 3 Décadas – Tour 2019' passa por Pernambuco com performance acompanhada por banda e KL Jay nos conta a história dos “quatro pretos mais perigosos do país”

TEXTO Lenne Ferreira

04 de Outubro de 2019

Racionais chega aos 30 anos de carreira

Racionais chega aos 30 anos de carreira

Foto Klaus Mitteldorf/Divulgação

[conteúdo exclusivo Continente Online]

Os Racionais precisam ser estudados e reconhecidos como eles são: um grande marco. Mas não só no rap nacional, na música e na sociedade brasileira. Não é só a música. Eles são os grandes cientistas sociais”. A avaliação, da escritora e socióloga Djamila Ribeiro, abre o minidocumentário especial que celebra os 30 anos de carreira de um dos mais importantes grupos da música popular preta e periférica brasileira. O material é parte das ações que marcam três décadas do grupo com uma turnê que chega a Pernambuco neste sábado (5/10), com um show inédito no Classic Hall. É no palco da casa olindense que os quatro MC’s, acompanhados por uma banda, vão apresentar um repertório que revisita todos os álbuns de uma carreira que coleciona obras clássicas, entre elas o disco Sobrevivendo no inferno (1997), que vendeu mais de 1,5 milhão de cópias, virou livro, referência acadêmica e foi definitivo para a reconfiguração de uma identidade negra nas periferias do Brasil.

Com direção artística assinada por Jorge Dias, ator e filho de Mano Brown com Eliane Dias, produtora-executiva e responsável pela gestão da carreira do grupo por meio da Boggie Naipe, a turnê começou em julho passado e já passou por Florianópolis, Brasília, Curitiba e Belo Horizonte. Em São Paulo, terra natal do grupo, os dois shows marcados estão com os ingressos esgotados. Até agora, mais de 20 mil pessoas assistiram à performance que inclui uma banda de 14 integrantes que se dividem entre metais, percussão e cordas.

“Os MCs ficaram um ano fora dos palcos, cada um cuidando da sua carreira individual, o que fortalece muito o grupo. Eles adquiriram mais conhecimento e informação porque tiveram mais tempo para estudar também. Pensamos essa turnê para ser algo bom para eles, que não pesasse como uma obrigação. O público pode esperar um grande show, a banda muito afiada. Os Racionais estão muito animados por voltar ao Nordeste”, comenta Jorge Dias. Contando com os músicos, cerca de 50 profissionais se dividem entre técnica, produção e equipe audiovisual, que tem registrado os bastidores e a rotina que envolve a organização de um espetáculo do tamanho da relevância de uma banda como os Racionais.

A turnê consolida o formato do show inédito apresentado em 2018, no Citibank Hall, Zona Sul de São Paulo, e que conquistou o prêmio de melhor apresentação do ano pela Associação Paulista de Críticos de Arte (APCA). O relacionamento de 30 anos entre Pedro Paulo Soares Pereira (Mano Brown), Paulo Eduardo Salvador (Ice Blue), Edivaldo Pereira Alves (Ed Rock) e Kleber Geraldo Lelis (KL Jay) geraram muitos filhos. Eles estão por toda parte, de uma ponta a outra do Brasil, por onde a “fúria negra” passou desde que começou sua trajetória, em 1988, depois de um encontro na estação São Bento. Em um período em que o rap ainda nem era considerado gênero, os MC’s iniciaram um projeto que tinha como principal missão discutir temas até então velados na sociedade racista brasileira e conseguiram penetrar todas as regiões paulistanas já no primeiro disco, Holocausto urbano (1990).

Sobre a potência revolucionária que representou os Racionais para a reconfiguração da identidade periférica nacional, o professor de Literatura Brasileira da Universidade de Pernambuco Acauam Silvério de Oliveira, que assina o prefácio do livro Sobrevivendo no inferno, da Companhia das Letras, escreveu: “A atuação do grupo foi decisiva para fazer o rap mais do que uma simples representação da periferia. Sua radicalidade e seu senso de “missão” (afinal, o “rap é compromisso”, já dizia Sabotage) ajudaram a desenvolver um espaço discursivo em que os cidadãos periféricos puderam se apropriar da sua própria imagem, construindo para si uma voz que, no limite, mudaria a forma de enxergar e vivenciar a pobreza no Brasil”. O livro está na lista de leituras obrigatórias para o vestibular Unicamp 2020.

Sem contar os trabalhos solos de cada um dos integrantes, ao longo da carreira dos Racionais, o grupo gravou seis álbuns e recebeu, entre outras premiações, o Prêmio VMB 2012, com o Melhor Clipe do Ano da música Mil faces de um homem leal, e também o Prêmio Multishow 2014, quando celebrou 25 anos de carreira, na categoria Melhor Turnê do Ano. A setlist do show da turnê de 30 anos faz um retrospecto do percurso dos Racionais trazendo músicas de todos os discos do grupo: Holocausto urbano (1990), Escolha o seu caminho (1992), Raio X do Brasil (1993), Sobrevivendo no inferno (1997), Nada como um dia após o outro dia (2002) e Cores e valores (2014). Músicas como Tempos difíceis, Pânico na Zona Sul, Voz ativa, Homem na estrada, Capítulo 4 Versículo 3, Negro Drama, entre outras composições mais recentes, estão no repertório.

Edi Rock, que começou seus passos ao lado de KL Jay na casa noturna Clube do Rap, na Bela Vista, Zona Norte de SP, diz que o momento merece celebração e marca mais do que o aniversário de um grupo de rap: “Trinta anos de banda não é todo dia, e ainda tem uma relevância, uma importância na data é que a gente está na ativa e juntos. Depois de 30 anos, a gente continua trabalhando e fazendo projetos para o futuro. Então, pode-se dizer que estamos fazendo várias comemorações: 30 anos da banda, 30 anos de estrada, 30 anos de amizade, 30 anos de família, 30 anos de irmandade, levando toda essa história para o palco em forma de presente para os fãs”. Para Ice Blue, o sentimento é parecido: “O que a gente sempre ofereceu um para o outro foi lealdade. Nós somos amigos, irmãos de forma incondicional nessa e nas outras vidas. E nossos fãs fazem parte dessa família”.

Em Pernambuco, Racionais convidaram dois artistas locais para fazer a abertura do evento, marcado para iniciar às 22h. O MC pernambucano, natural de Nazaré da Mata, Luís Lins, e a DJ e beatmaker Karla Gnom, uma das únicas mulheres produzindo beat no Estado, fazem as honras da casa. Aliás, a presença feminina tem sido uma praxe por onde a turnê passou, o que normalmente não acontece em se tratando de eventos de rap. A Continente conversou com KL Jay sobre a trajetória dos Racionais que, embora tenha contado com algumas pausas, muito provavelmente, é o único grupo de rap brasileiro que comemora três décadas de história com a formação original. Nessa “vida loka”, em que o racismo condiciona limites para uma parcela da população, os Racionais é um exemplo de como o povo preto chega mais longe e faz revolução quando caminha de mãos dadas. 

CONTINENTE Desde o período escravagista, os negros foram condicionados a disputar uns contra os outros. Era muito comum, segundo historiadores, misturar africanos de etnias diferentes para impedir a comunicação e a união entre eles em terra brasileira. Essas práticas criaram raízes profundas e, até hoje, a população preta, inconscientemente, ainda rivaliza entre si. Na contramão disso, os quatro MC's dos Racionais conseguiram constituir uma história de mãos dadas, o que não significa que não tenha havido discordâncias ao longo desse processo. O que você elegeria como elemento principal para o sucesso dessa parceria?
KL JAY Racionais veio cumprir uma missão, cada um de nós. Essa missão de salvar vidas através da música, da postura, das atitudes e da coragem.

CONTINENTE Como foi o primeiro encontro entre os Racionais?
KL JAY Nos conhecemos na Estação São Bento, Zona Norte de São Paulo, que era ponto de encontro do movimento hip hop da época. E a gente se identificou com as ideias. A gente era de lugares diferentes, mas a visão era a mesma e falávamos sobre coisas numa época em que ninguém mais falava.

CONTINENTE Você é responsável pelas batidas, é trilha sonora da vida de jovens de todo país e formou os ouvidos de muita gente que talvez nunca tivesse acesso a trabalhos de artistas importantes para a história da música brasileira. Quais são as principais referências pelas quais passeiam os samples dos Racionais?
KL JAY Muita gente acha que eu sou o produtor das músicas, mas isso não é verdade. Os quatro participam da produção das músicas e a nossa formação vem dos anos 1980. A gente ouviu muito punk rock, rock nacional. Ouvimos muito Djavan, Bebeto, Jorge Ben, Tim Maia. Quando a gente começou os Racionais, o hip hop trouxe outros artistas que nos inspiraram também. A gente tinha uma bagagem dos quatro, e o hip hop potencializou essa bagagem e fez a gente voltar lá para os anos 1960, 1970.

CONTINENTE O público dos Racionais é composto por pessoas de gerações e vivências diferentes. O que você acha que contribui para essa identificação com o trabalho de vocês?
KL JAY A música dos Racionais é atemporal e tem uma linguagem que conversa com todo mundo. A música é entendida por muita gente. Crianças, jovens, adultos e pessoas mais velhas. Os Racionais têm o poder da comunicação, e nossos shows reúnem muitas gerações. Tem muita gente que leva os filhos. Filhos que levam os pais ou os irmãos. Os Racionais ultrapassam o limite de tempo, né?

CONTINENTE O universo do hip hop, historicamente, foi dominado por homens, embora a gente saiba que, ao longo de toda história do movimento, sempre houve mulheres atuando. Em Pernambuco, como em outras regiões do país, os festivais são ocupados por atrações masculinas. A turnê dos 30 anos dos Racionais vem incluindo, em todos os estados, atrações femininas. Você acha que essa postura também pode influenciar outras produções a dar mais espaço para o trabalho das minas?
KL JAY Esperamos que sim. Os Racionais tem esse histórico de quebrar barreiras, abrir caminhos e plantar sementes de igualdade.

CONTINENTE O disco Sobrevivendo no inferno traz muitas citações bíblicas. A gente sabe que as igrejas evangélicas estão muito presentes nas favelas brasileiras desempenhando um papel social também e tiveram um grande peso no resultado da eleição presidencial. Como você vê essa relação entre a religião e a política atual?
KL JAY Os quatro MCs são espiritualizados, mas, embora em Sobrevivendo no inferno a gente tenha usado muita citação cristã, ninguém é evangélico. Eu acho que existe muita hipocrisia nas atitudes dos cristãos que a gente não se identifica. O próprio presidente, que se diz cristão, fala de “Deus acima de tudo” e é um criminoso, anda com milícia, o que já foi até comprovado. E eu não defendo e não passo pano não.

CONTINENTE Os discos Nada como um dia após o outro (2002) e Cores e valores (2014) retratam qual Brasil?
KL JAY Nada como um dia… foi um disco que saiu numa época em que o Brasil deu uma melhorada, ficou menos desigual, que foi durante o governo do PT. Muita gente conseguiu comprar carro, casa, viajar de avião, ter um telefone celular. O Brasil ficou menos desigual nesse período e avançou um pouco em algumas questões. Cores e valores é um disco de homens com 40 anos, com outra visão de valores não apenas monetários, mas valores éticos e da vida. Ao mesmo tempo, falando que tudo é um jogo. Se você não tiver dinheiro, você não vai conseguir muita coisa.

CONTINENTE Sobre qual Brasil o Sobrevivendo no inferno falava?
KL JAY Na época em que o Sobrevivendo foi feito, o Brasil estava mais atrasado em vários aspectos. Mas tem muita coisa que foi dita ali que ainda está presente no cenário de hoje. A música Capítulo 4 Versículo 3 é um exemplo que pode se aplicar nos dias de hoje. Por isso, eu digo que Racionais é atemporal.

CONTINENTE Em 2011, Racionais fez um show no Festival Coquetel Molotov e muita gente estranhou o fato do grupo se apresentar dentro de um teatro para um público, em sua maioria, privilegiado. Qual a sua leitura sobre isso?
KL JAY A arte está acima de qualquer estrutura preconceituosa ou racista. A arte é a arte. Ela tem que furar o bloqueio, ela não escolhe o lugar para ser vista. É como futebol, que todo mundo gosta: preto, branco, amarelo, rico, pobre, bandido, polícia, trabalhador. A arte tem esse poder de entrar em qualquer lugar. E os Racionais tem que ir aonde a arte levar.

CONTINENTE Muitos temas, como o massacre do Carandiru, só chegaram ao conhecimento da favela porque foram levados pelos Racionais. Nesse sentido, você percebe como os Racionais também serviu como instrumento de formação?
KL JAY Através da música, levamos informação e ideias. A gente fala de muita coisa, sobre autoestima também. E muita gente se identifica. É muito comum encontrar gente na rua que diz: “Ouvir Racionais mudou a minha vida” ou “Se hoje eu tô nessa profissão, foi por causa dos Racionais”. A gente tem esse pacto social educacional.

CONTINENTE A internet causou um grande impacto na produção musical e fez com que o rap, repaginado pelo trap, conquistasse mais espaço e ganhasse outros contornos que vão do social à ostentação. Como tu vê essa nova geração?
KL JAY Exaltar a riqueza é melhor do que exaltar a miséria. Se você pôr na cabeça dos moleque que têm que ganhar dinheiro e viver bem, eles vão atrás por vários meios. A nova geração começou sabendo como ganhar dinheiro. O trap é o rap mais moderno, as batidas são parecidas. Os Racionais fizeram sucesso sem internet, mas foi um caso à parte. As histórias muitos reais fez com que muita gente se identificasse. Nossa divulgação foi de boca em boca. Hoje em dia, um videoclipe ajuda, o YouTube e outras redes ajudam muito.

CONTINENTE A turnê é acompanhada por uma banda. Como se deu essa construção?
KL JAY A gente teve uma experiência há 20 anos com banda de forma mais amadora. Nesse formato, mais profissional, é a primeira vez. Escolhemos bons músicos e, nos ensaios, tentamos chegar ao mais semelhante da música original. Tiramos o som o mais parecido possível em relação a timbre e instrumentos. São 14 músicos no palco. O repertório inclui as mais clássicas de todos os discos como “Fim de semana no parque”, “Homem na estrada”.

CONTINENTE O que continua movendo os Racionais nessa estrada?
KL JAY A mente jovem, disposição para trabalhar e ser útil. O hip hop tem uma mentalidade muito jovem e tem um espírito de luta que é o que faz a gente estar na ativa. Só estamos aqui ainda hoje por conta da ideologia. Se não, a gente não tava mais vivo, a (grande) mídia já tinha acabado com a gente. É a mesma postura, algumas coisas a gente lapidou, mas a ideia é a mesma.

LENNE FERREIRA, jornalista, feminista negra e produtora cultural.

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