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Virtuosi: Para louvar a ópera e a música de câmara

Festival homenageia os dois maiores nomes do drama lírico e enfatiza o repertório romântico para piano solo e ensembles, no Santa Isabel

TEXTO Carlos Eduardo Amaral

01 de Dezembro de 2013

Soprano Eiko Senda apresenta-se na noite de abertura

Soprano Eiko Senda apresenta-se na noite de abertura

Foto Divulgação

A pergunta é antiga e recorrente: o que seria da música clássica sem as efemérides? Na música popular, sabemos que um cantor ou grupo consagrado corre o risco de receber muxoxos e resmungos desmedidos se deixar de fora de sua playlist aquelas músicas que todo mundo espera ouvir – ou aquela. Imaginem, para pegar um exemplo banal, Nelson Gonçalves, quando vivo, rejeitar uma palhinha de A volta do boêmio, por mais que sua discografia superasse as dezenas de LPs.

Por mais que haja queixas, esse comportamento, por si só, é necessário e natural entre os ouvintes, porque advém da evanescência inerente à arte musical, isto é, da fugacidade da obra musical assim que tocada. Na falta da materialidade dessa obra, temos de reiterá-la na nossa memória, escutando-a o máximo que nosso gosto mandar. O problema é a bitola fabricada por esse hábito. Na música clássica, tal apego pelo habitual beira o defuntismo, posto que ouvir a Quinta ou a Nona é ouvir Beethoven – o vulto, na condição de gênio, supera sua obra ou iguala-se a ela.

Enfim, a necrofilia não é privilégio dos clássicos (Michael Jackson, John Lennon e outros o comprovam), mas a aura da genialidade – meritória, é verdade –, mais do que a dos showmen, junta a faceta fetichista à museológica e à acadêmica e transforma em cultura de gueto tudo o mais que aparece em nossos dias na música de concerto, condenando a música popular a ditar seus “modismos” pro “povão inculto”. Daí que as efemérides cumprem uma função dúbia de organizar nossa memória afetiva e atiçar um saudosismo que se mostra míope ao presente.

Para o Virtuosi, não funcionam assim as coisas. O festival (ou rede de festivais) produzido pelo casal Rafael Garcia e Ana Lúcia Altino Garcia concebeu e emplacou três vertentes – intituladas Brasil, Sem fronteiras e Século XXI (este, recém-realizado na última semana de novembro) – dedicadas a um repertório livre do que chamamos standard. Talvez por isso, a mais ampla e mais antiga das outras três ficou mais à vontade este ano para investir no que o “povão” da música clássica gosta.

O Virtuosi “propriamente dito”, ou Internacional (há ainda as edições Gravatá e na Serra), não decepcionará na fórmula: música de câmara, com muita ênfase nos convidados pianistas; boas peças sinfônicas; e, pois falamos de efemérides, Verdi e Wagner, cujo bicentenário de nascimento garante o nicho operístico na programação, mesmo que sem produção cenográfica (em tempo, notemos que, pela primeira vez, tivemos duas encenações de ópera em um mesmo ano no Recife: Don Giovanni, pela Companhia de Ópera do Recife, e Gianni Schicchi, pelo Departamento de Música da UFPE).

Na noite do dia 14 de dezembro, o concerto Paixão pela ópera constará de aberturas famosas (Nabucco e A força do destino) executadas pela Orquestra Virtuosi, sob regência de Rafael Garcia, e terá como solista a soprano japonesa Eiko Senda, que desde 1995 se divide entre os palcos de Montevidéu e do Sudeste do Brasil. Eiko, quem tem desenvoltura tanto para papéis wagnerianos (Senta, de O holandês voador, e Isolda) quanto para puccinianos (sua Madame Butterfly é tida como irrepreensível pela crítica paulistana), também se especializou nos papéis principais de Carlos Gomes, já tendo atuado em Lo schiavo, Maria Tudor e Condor.

Para reforçar a audição operística, nos dias 10, 11 e 12, o crítico musical Irineu Franco Perpétuo ministra o minicurso Aprendendo a ouvir ópera, na Livraria Cultura do Paço Alfândega, das 9 às 12 horas. Já o encerramento do festival, dia 15, trará uma maratona pianística de mais de quatro horas de duração, com os solistas Victor Asunción (convidado de sempre do Virtuosi), a paulistana Juliana D’Agostini e o russo Ilya Ramlav.

O repertório camerístico ainda não havia sido anunciado por completo, até o fechamento desta edição, mas está confirmada a Série Salão Nobre entre os dias 10 e 13, às 17h, que terá mais de 15 instrumentistas e irá culminar com a execução do Quarteto para piano em mi bemol, de Dvorák, e do Quinteto para piano, de Cesar Franck. A programação completa dos concertos – que acontecerão em Olinda, Recife, João Pessoa, Campina Grande e Belém, entre os dias 8 e 17 – está disponível no site www.virtuosi.com.br.

CARLOS EDUARDO AMARAL, jornalista, crítico de música erudita e mestre em Comunicação.

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