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Lovecraft: Um gentleman de alma perturbada

Com a entrada no domínio público, a obra do escritor norte-americano, cultuada entre segmentos do terror, encontra novo reconhecimento dentro da cultura pop

TEXTO Fernando Athayde

01 de Junho de 2016

Lovecfrat

Lovecfrat

Ilustração Janio Santos

Contista diabólico e insano, Howard Phillips Lovecraft foi um dos responsáveis por conceber o gênero de horror como o conhecemos hoje. Nascido em 1890 e falecido em 1937 (há quase 80 anos, portanto), teve uma vida breve de 47 anos, repleta de bizarrices, sendo criador de uma mitologia seminal para as gerações de escritores de fantasia posteriores. Contemporâneo de um mercado editorial que não se interessava pelo que escrevia, H. P. Lovecraft nunca chegou a alcançar o sucesso, e passou décadas apenas reverenciado por fãs como Neil Gaiman e John Carpenter. Com a chegada do novo milênio e a sua obra posta em domínio público, porém, o autor tem encontrado maior reconhecimento, especialmente dentro do universo da cultura pop.

Descendente de diplomatas ingleses, Lovecraft nasceu e cresceu em Providence, Rhode Island, estado situado em New England, região que agrupa seis províncias na costa oeste dos Estados Unidos. O escritor teve uma infância marcada pela insanidade. Sua mãe o vestia de menina para evitar o contato com outras crianças do mesmo sexo, e seu pai, um caixeiro-viajante natural de Nova York, morreu internado num manicômio antes de ele completar oito anos de idade. Assim, Lovecraft acabou criado por sua família materna, que possuía muito dinheiro, um casarão de vários quartos em Providence e, principalmente, uma biblioteca com os grandes clássicos literários da época. Nela, ainda na primeira década de vida e por intermédio de seu avô, o autor conheceu As mil e uma noites, leitura que o levou à literatura.

Aos seis anos, Lovecraft já sabia ler e escrevia poemas infantis, bem distantes do eixo temático de sua obra. Apesar disso, estima-se que foi na infância que o escritor concebeu o nome Abdul Alhazred, descrito por ele em diversos contos como o “árabe louco”, criador do Necronomicon, o livro dos mortos, um grimório em que estariam listados todos os demônios, criaturas, feitiços e rituais mais diabólicos que o homem já conhecera.

Quando adolescente, Lovecraft tomou nota do trabalho de Edgar Allan Poe e sua capacidade criativa tomou nova proporção. A literatura gótica de Poe, seus temas sombrios, bem como a própria escolha de escrever através de narrativas curtas, forneceram-lhe a inspiração que faltava para que se aventurasse a escrever e publicar.

O autor, que por toda a vida se recusou a aceitar qualquer trabalho formal, dedicou-se exclusivamente à literatura, antes mesmo de completar 20 anos, embora só tenha entrado no mercado editorial quando já beirava os 30. Essa entrada tardia teve dois motivos centrais. Primeiro, devido à morte de seu avô, que o abalou e fez com que sua família se mudasse para uma casa mais modesta, deixando para trás não somente as memórias do jovem Lovecraft, mas também toda a biblioteca que o educou e o fez tomar gosto pelo ato de escrever. Depois, pelo fato de a temática sombria e fantástica de seus escritos não ter respaldo frente ao mercado editorial da época.

Recluso e dividindo o mesmo teto que a mãe neurótica, Lovecraft vivia deprimido pela dificuldade de encontrar espaço para suas publicações. Até que, em 1923, foi fundada a revista pulp de horror e ficção científica Weird Tales, que abriu portas para que o escritor não só encontrasse uma casa editorial, como também construísse amizade com vários artistas da época. A partir desse período, Lovecraft passou a se comunicar por meio de cartas com escritores como Robert E. Howard, criador do Conan, o Bárbaro, e Robert Bloch, que escreveu o romance Psicose, posteriormente adaptado para o cinema por Alfred Hitchcock. Nessas cartas, Lovecraft dividia detalhes de seu estilo narrativo, planos e, sobretudo, a busca por desenvolver e explorar a criação de sua mitologia. Ainda hoje, esse material é a maior fonte de informações sobre a vida e obra do escritor. No Brasil, algumas dessas cartas foram recentemente traduzidas e lançadas pela editora Hedra como apêndices dos livros de contos do autor.

ESTILO NARRATIVO
“Então, de repente eu vi. Com um leve rumor que marcou sua chegada à superfície, a coisa apareceu acima das águas escuras. Vasto como um Polifemo, horrendo, aquilo dardejava como um pavoroso monstro saído de algum pesadelo em direção ao monólito, ao redor do qual agitava os braços escamosos ao mesmo tempo que inclinava a cabeça hedionda e emitia sons compassados.”

O trecho faz parte do conto Dagon, primeira publicação realizada por Lovecraft, em 1919. Tinha apenas sete páginas e saiu no jornal The Vagrant. A história, ambientada na Primeira Guerra Mundial e escrita em primeira pessoa, traz o relato de um oficial da marinha viciado em morfina, que é capturado pelas forças rivais e consegue fugir, passando dias à deriva num barco velho. À beira do delírio, o oficial se vê diante de Dagon, uma divindade que habita as profundezas do oceano, e enlouquece perante a grandeza da criatura, até acordar numa cama de hospital, dias depois.

Nesse conto, embora seja o primeiro de Lovecraft, é possível tomar nota de alguns elementos que jamais deixarão seus escritos. O arco narrativo envolvendo um homem comum que avança rumo ao desconhecido e, por fim, enlouquece, é sempre o mote de suas histórias. Talvez por isso sua predileção seja escrever em primeira pessoa, do ponto de vista do louco, daquele que confronta o caos e não suporta o que vê. E aí entendamos que, para Lovecraft, a metáfora para a loucura e para o desconhecido é a dimensão do próprio cosmo diante do homem. Assim, quando o oficial da marinha se vê diante de Dagon, a mensagem contida naquela cena é a de que a humanidade não é nada frente ao que está além da sua compreensão.

Além disso, o gosto pela linguagem rebuscada e o uso recorrente de adjetivos também são características predominantes em sua literatura, o que chega a ser contraditório pelo fato de sua maior referência ser Edgar Alan Poe, dono de um estilo objetivo e claro. No documentário Lovecraft: Medo do desconhecido (2008), de Frank H. Woorward, o escritor britânico Neil Gaiman chega a dizer que o texto de Lovecraft “não é moderno nem dinâmico; não é sequer eficiente e, em alguns momentos, chega a ser risível”, mas reconhece que isso não está relacionado com a grande influência exercida pelo autor na formação do horror.

A questão é que o brilhantismo da obra de Lovecraft não está em um ou dois contos específicos, mas na edificação de uma mitologia única: os mitos de Cthulhu. O autor entendia muito bem a dinâmica que fundamenta a tradição cultural dos povos e se destacou por ter conseguido convertê-la numa experiência estética. Assim, ao reunir todos os contos de Lovecraft, o que temos é a construção de um complexo e fragmentado universo de lendas, mitos, criaturas e personagens que, por vezes, se encontram, interagem, contradizem-se e, sobretudo, caminham rumo à loucura.

Em A sombra vinda do tempo, por exemplo, que conta a história de um professor universitário que desmaia em sala de aula e acorda somente anos depois com a notícia de que, enquanto ele estava desacordado, uma outra personalidade assumiu seu corpo, nós somos apresentados a algumas criaturas com cabeça de estrela-do-mar e asas de morcego. Essas criaturas, embora nada acrescentem ao desenrolar da história e façam parte de um grande e enfadonho apêndice introduzido bruscamente no meio do texto, são fundamentais para o desenvolvimento de outro conto de Lovecraft, o famoso Nas montanhas da loucura. Nele, a trama centra-se numa expedição ao Ártico, onde uma equipe de cientistas acaba por encontrar os cadáveres das benditas criaturas e passa por maus bocados.

Assim como um grande bestiário, Lovecraft também gerou um vocabulário próprio e até regiões geográficas. O conto de estreia, Dagon, seria anos depois relacionado à baía da cidade fictícia de Innsmouth, onde uma população de adoradores do Deus-peixe mora, como visto na história A sombra de Innsmouth. Além disso, a cidade de Arkham e a Universidade Miskatonic não somente se tornaram cenários recorrentes e importantes dentro de sua mitologia, como foram expandidas para outras obras e linguagens, vide a homenagem realizada pela DC Comics ao batizar o manicômio de Gotham City, a cidade do Batman, de Asilo Arkham.

A impronunciável palavra Cthulhu, criada pelo autor, nomeia a mais importante das criaturas colossais e diabólicas de Lovecraft, sendo apenas o mais famoso dentre outros semelhantes, como Shogoth, Shub Niggurath e Yth. Um fato interessante é que, poucos anos após a morte do autor, o argentino Jorge Luís Borges publicou o conto Tlön, Uqbar, Orbis Tertius, sobre um obscuro país chamado Uqbar e uma série de conspirações envolvendo a criação de um novo mundo. Tal proximidade com a estética lovecraftiana seria desvendada em 1975, quando Borges dedicou sua então mais recente publicação, O livro de areia, à memória de H. P. Lovecraft, revelando-se um grande admirador do contista de Providence.

EDIÇÕES
Em 1919, Lovecraft mal tinha conseguido entrar no mercado editorial, quando sua mãe teve um surto psicótico e foi mandada para o mesmo manicômio no qual seu esposo morrera anos antes. O escritor, que dependia financeiramente dela, foi obrigado a deixar a casa e ir morar com as tias. Nessa época, ele chegou a atuar como ghostwriter para conseguir se manter, publicando até textos encomendados pelo ilusionista Harry Houdini. A relação entre os dois, que era tortuosa e logo teve fim, foi explorada com maestria literária e visual pelos roteiristas Hans Rodionoff e Keith Giffen e pelo ilustrador argentino Enrique Breccia na obra Lovecraft, uma biografia em quadrinhos sobre o autor, em que suas criaturas e vida pessoal aparecem entrelaçadas.

Em 1921, o editor George Julian Houtain, que conhecia o trabalho de Lovecraft das suas poucas publicações realizadas até então, convidou-o para escrever um conto na sua revista. Asim surgiu Dr. Herbert West: Re-animator, trabalho que o próprio Lovecraft condenou como a pior coisa escrita por ele. A ironia é que o texto, que permanece inédito no Brasil, foi adaptado para o cinema em 1985, pelo diretor Stuart Gordon, sob o nome de Re-animator, tornando-se um clássico trash da década de 1980 e dando início a uma série de adaptações cinematográficas de baixo custo da obra do escritor. O próprio Stuart Gordon ainda dirigiu Do além, em 1986, Herança maldita, em 1995, e Dagon, em 2001.

Quando a Weird Tales foi fundada em 1923 e Lovecraft passou a se dedicar com exclusividade à publicação, sua vida começou, enfim, a tomar um novo rumo. Nesse período, ele conheceu a também escritora Sonia H. Greene, uma mulher mais velha e divorciada com quem se casou naquele mesmo ano. O casal foi morar em Nova York, onde havia muito mais oportunidades. O problema é que Lovecraft fora educado para ser um gentleman e tinha dificuldade em lidar com o cosmopolitismo novaiorquino. Xenofóbico e até racista, o autor jamais se adaptou e o casamento dele com Sonia ruiu antes mesmo de completar um ano. Sobre o conservadorismo do escritor, o cineasta mexicano Guillermo Del Toro afirmou que os trabalhos de Lovecraft “podiam até mesmo ser referência para a época, mas eram, essencialmente, um registro antiquado dos ideais de um gentleman criado em New England”.

Como alguém que cresceu entre livros e sob uma mecânica educacional aristocrática, neurótica e rigorosa, Lovecraft tinha um fascínio genuíno tanto pela literatura quanto pelas sete belas artes e pelas próprias ciências naturais. Contos como A música de Erich Zann e O modelo de Pickman, por exemplo, são trabalhos em que Lovecraft expõe seu gosto apurado pela arte clássica e busca pela erudição. Eles foram escritos após o rompimento com Sonia, quando o escritor voltou a Providence e viveu um período de grande efervescência criativa, publicando ininterruptamente seus contos na Weird Tales, período também em que sua já citada mitologia foi criada e expandida.

Em 1936, porém, no auge de sua capacidade criativa, o escritor passou a sofrer pequenos problemas de saúde, um atrás do outro, até que foi diagnosticado com um câncer terminal no início de 1937 e morreu poucos dias depois, no dia 15 de março.

Após seu falecimento, dois de seus amigos e correspondentes, August Derleth e Donald Wandrei, fundaram a editora Arkham House, a fim de preservar a obra e as ideias contidas nos mitos de Cthulhu. A editora, que permanece em funcionamento, não só publicou Lovecraft, mas abriu espaço para o gênero de horror. Foi graças à iniciativa de Derleth e Wandrei que nomes como Stephen King e Neil Gaiman descobriram o escritor norte-americano.

O legado de Lovecraft é um catálogo de possibilidades estéticas aberto à contribuição de autores que se aventuraram a conhecê-lo. Não seria injusto dizer, nesse contexto, que cada um que utiliza os mitos de Chutulhu, como base para seu trabalho, deixa lá uma marca. O próprio Robert E. Howard chegou a contribuir com a expansão da mitologia antes de morrer, em 1936. Nunca lançada no Brasil, a antologia de contos Nameless Cults reúne todos os contos escritos por Howard dentro do universo lovecraftiano. 

FERNANDO ATHAYDE, jornalista e músico.

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