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Emergência tecnofágica

TEXTO Giselle Beiguelman

01 de Janeiro de 2011

[conteúdo vinculado ao especial "Arte" | ed. 121 | janeiro 2011]

A produção brasileira no campo da cultura digital indica uma emergente vertente tecnofágica, um processo de devoramento e trituração da tecnologia mediado pelo uso crítico e criativo das mídias. Essa vertente aparece em modelos econômicos alternativos, práticas artísticas agenciadoras de outras ações e sistemas de pirataria voltados para usos coletivos das telecomunicações.

A tecnofagia não é um movimento, mas uma conceituação que desenvolvi para dar conta de operações de combinação entre a tradição e a inovação, arranjos inusitados entre saberes científicos e artesanais e ações micropolíticas de apropriação das tecnologias. Essa tendência pode ser um primeiro esboço de uma prática política e estética que opera pela combinação e remodelagem de equipamentos, revalidação das noções de hi e low tech, e produção de dispositivos capazes de agenciar outras formas de criação. Seu contexto é o da globalização e do processo de digitalização da cultura em todos os níveis.

A intensidade desse processo, no Brasil, vem alterando não só a economia e a posição geopolítica do país no mundo, mas as formas de relacionamento com os dispositivos tecnológicos, incluindo-se aí o perfil social do acesso à internet. Ele é feito, hoje, majoritariamente, pelas lower middle e lower classes (52%) e a partir de lan houses, localizadas na periferia e em favelas.

Não só o perfil social de acesso às tecnologias de informação e comunicação (TICs) mudou muito nos últimos anos. Mudaram também as formas de produção e circulação da cultura. Isso tem culminado em diversas ações independentes, como os projetos Overmundo e Casa da Cultura Digital, voltados para o estabelecimento de circuitos de veiculação da produção cultural. E tem culminado também na formação de redes temporárias de criação de dispositivos, que podem resultar em outras ações criativas, propondo novos modelos econômicos.

Nessa perspectiva, destaca-se o Circuito Fora do Eixo, uma rede de pequenas iniciativas na indústria da música, dedicada ao intercâmbio de tecnologia, criada em 2005 por produtores culturais de cidades situadas fora do circuito mainstream da economia cultural brasileira, ou seja, fora do eixo Rio-São Paulo. A rede, hoje, tem nós em todo o país, sendo responsável por festivais e iniciativas internacionais, como o Grito Rock South America.

Essa efervescência de novos modelos de produção se dá em um contexto de notável expansão do poder aquisitivo. Entre 2003 e 2008, a renda da população mais pobre do país cresceu 72%, implicando a saída de 18,5 milhões de pessoas da pobreza e no ingresso de outros 32 milhões às classes mais ricas. O impacto dessas transformações em relação à capacidade de consumo é inegável e criou novos perfis sociais nas classes C e D, que vem sendo chamados pelos especialistas de “consumistas impulsivos”.

O resultado perverso dessa súbita amplificação da capacidade de consumo é o desperdício e a rápida descartabilidade dos bens tecnológicos. O contraponto a essa situação aparece em grupos fluidos, como Gambiologia.net, MetaReciclagem, Estúdio Livre e LabOCA, que combinam atividades de procedimentos de reciclagem de equipamentos e exploração de software de código aberto. No conjunto, esses coletivos vêm configurando uma estética hi-low tech, com forte potencial de agenciamento ecológico e político e que tem marcado a obra de artistas como Fernando Rabelo, Mariana Manhães e Lucas Bambozzi, entre outros.

Mobile crash, de Lucas Bambozzi, por exemplo, tensiona a esfera do consumo, dando ao público o papel de protagonista no jogo obsolescência planejada. Trata-se de uma instalação baseada em quatro projeções interativas, que reagem à presença dos visitantes. Apresenta uma sequência de pequenos vídeos de dispositivos tecnológicos sendo esmagados por um martelo. Os vídeos são ritmados e divididos em 12 níveis de intensidade, acionados em resposta aos gestos do público. Quanto mais nos movemos, mais rapidamente os vídeos são processados e mais rapidamente os antigos símbolos de luxo são transformados em lixo eletrônico.

O resultado é um processo interativo catártico que desperta a consciência sobre as dimensões políticas dos circuitos tecnológicos. Enfatiza, assim, uma hipótese do antropólogo Néstor Canclini, que observa como as novas tecnologias de comunicação têm ampliado a noção de cidadania, incorporando práticas de consumo ao seu exercício.

Essa relação entre consumo relacionado às TICs e cidadania atravessa certas estratégias de pirataria, como a da TV Nova Baixada, uma rede “clandestina” de TV a cabo que atendia a 30 mil assinantes no Rio de Janeiro. Vale lembrar que essa rede não só era mais barata, como chegava a lugares que as corporações não atingiam, utilizando o parque tecnológico delas. Além disso, a Nova Baixada exibia cópias piratas de filmes recém-lançados nos cinemas e tinha programação própria com canais dedicados ao funk e esportes. Movimentava cerca de US$ 300 mil por mês e empregava 40 pessoas. Foi fechada pela polícia, recentemente. Outras estão surgindo para ocupar o seu lugar.

De perfis variados, essas diferentes práticas tecnofágicas são um fenômeno diretamente relacionado ao processo de digitalização cultural pelo qual o Brasil passa. Caracterizam-se, por um lado, pela reinvenção irônica da tecnologia e, por outro, pela capacidade de agenciamento, colocando em circulação modelos alternativos de economia criativa seja porque propõe novos circuitos no mercado de consumo, seja porque os põem em questão. 

GISELLE BEIGUELMAN, artista plástica, doutora em História da Cultura, professora da pós-graduação da PUC-SP

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