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Concerto: Afinado com o talento local

Conhecida em todo o Nordeste pela qualificação de seus intérpretes, a capital paraibana promove o I Festival Internacional de Música Clássica

TEXTO Carlos Eduardo Amaral

01 de Dezembro de 2013

O festival foi idealizado pelo maestro Laercio Diniz, da Orquestra Sinfônica de João Pessoa

O festival foi idealizado pelo maestro Laercio Diniz, da Orquestra Sinfônica de João Pessoa

Foto Kazuo Watanabe/Divulgação

Em Pernambuco, tanto quanto os talentos musicais da terra, os produtores culturais são conhecidos pela habilidade de projetar qualquer banda em início de carreira ou de organizar festas e eventos artísticos que, no mínimo, movimentem a cena musical da cidade. Os incentivos culturais, mais vultosos aqui do que em estados vizinhos, também tornam a tarefa menos árdua, quando falamos de manifestações que dependem primordialmente do apoio público.

Na Paraíba, a safra de produtores culturais – ao menos na música erudita – não acompanhou a de talentos musicais lá revelados, nem ninguém de fora tinha se aventurado a apostar no potencial turístico e histórico de João Pessoa ou de um município do quilate de Areia, como ocorreu em Olinda com a Mimo. Isso até o recente anúncio do I Festival Internacional de Música Clássica de João Pessoa, idealizado pelo maestro Laércio Diniz.

Através do violinista paraibano, radicado na Holanda, Alberto Johnson, spalla da New Netherlands Orchestra, Laércio travou contato com o presidente da Fundação Cultural de João Pessoa (Funjope), Maurício Burity, para falar sobre a ideia de uma nova orquestra sinfônica para a cidade. Maurício é filho do falecido ex-governador da Paraíba Maurício Burity, sob cujo governo a Orquestra Sinfônica da Paraíba (OSPB) alcançou glória nacional e teve à sua frente alguns dos melhores maestros do Brasil à época, nos anos 1980.

A intenção foi referendada pela prefeitura e somou-se ao projeto do festival e ao de um programa social de ensino coletivo de instrumentos de cordas, que deverá ser anunciado em breve. Assim, Laércio Diniz assumiu a direção artística da recém-criada Orquestra Sinfônica Municipal de João Pessoa e do Festival Internacional de Música Clássica de João Pessoa. A OSM, que incorporou os músicos da Orquestra de Câmara da Cidade de João Pessoa e ampliou o quadro de 40 para 55 integrantes, junta-se à veterana OSPB e à novata Orquestra Sinfônica da UFPB, fundada este ano. Ela ainda não tem uma sede – ensaia na Funjope, por enquanto –, mas já se fala na construção de um teatro municipal.

O festival, que acontece de 1º a 7 de dezembro, vem a ser o primeiro de nível internacional desde 1988, na época áurea da OSPB, quando Eleazar de Carvalho chamou intérpretes do mundo inteiro à capital paraibana e levou a orquestra a gravar um CD no exterior. É intrigante perceber que um dos maiores centros da música erudita nordestina (o próprio festival Virtuosi, aqui no Recife, sempre contou com mais músicos paraibanos em sua orquestra sinfônica ad hoc) não empreendeu um evento de porte em todo esse período.

O diretor artístico explica por que a dificuldade de canalizar recursos para a música clássica é constante, hoje em dia, mais do que naqueles anos: “Acredito que, diferentemente de tempos atrás, quando os recursos apareciam muitas vezes por meras decisões políticas, nos tempos atuais existe uma necessidade grande de as orquestras terem de provar muita qualidade para que estes recursos apareçam. Mesmo que eles venham do governo, é uma eterna luta, mas esta é a luta atual. Então, não dá para ficar parado, e acredito que João Pessoa pode pensar grande”.


Uma das atrações, violoncelista paraibano Raiff Dantas Barreto lança álbum durante a programação. Foto: Divulgação

À exceção da sigla não fluente, como em Mimo, o FIMCJP, a princípio, segue a receita de sucesso do festival pernambucano, a de conciliar música e um importante sítio histórico nacional: cinco igrejas pessoenses receberão concertos, além do Espaço Ciência (contemporâneo ao Parque Dona Lindu e também de autoria de Oscar Niemeyer) e do Teatro Radegundis Feitosa, na UFPB, inaugurado em 2012.

“João Pessoa é uma cidade com uma rica tradição cultural e uma beleza natural ímpar, por isso, na hora de receber os recursos do governo federal para a cultura, devemos pensar como o Rio e São Paulo, para recebermos uma infraestrutura que nos dê condições de representar musicalmente o talento do povo pessoense à altura”, justifica o regente, que convidou solistas e ministradores das master classes de cerca de 10 países para o festival.

Também constam na programação grupos de câmara locais, como o Quarteto de Cordas da Paraíba, o Quinteto Musarum, o Grupo Camena e os celebrados Quinteto Uirapuru e Quinteto da Paraíba. Dentre os solistas, dois lançarão CDs no evento: o violoncelista Raiff Dantas e o pianista Paulo Álvares. A abertura ficará a cargo da Sinfônica Municipal, dia 1º de dezembro, no Adro da Igreja de São Francisco, centro de João Pessoa.

O festival contará com patrocínio privado, e a orquestra será mantida pela prefeitura de João Pessoa, tal qual o era a OCCJP. Contudo, o maestro Laércio Diniz também prevê que ela venha a captar recursos via leis de incentivo fiscal e parcerias com instituições privadas. Ele, em particular, é patrocinado por uma companhia de seguros que arca com o seu salário, o que também permite que atue como regente convidado onde quer que seja, sem onerar a orquestra convidante – um trunfo, dentre todos os profissionais do ramo no Brasil.

Para 2014, no intervalo até a esperada segunda edição do FIMCJP, a OSMJP se empenhará em construir seu conceito sonoro e artístico. Laércio promete uma forte disciplina de trabalho e anuncia que seguirá o caminho esperado para um conjunto sinfônico em início de trabalho: enfatizar o repertório standard, isto é, do Barroco ao Romantismo, incluindo, eventualmente, obras modernas e contemporâneas. “Já anunciando que o patrono da nossa orquestra é o grande compositor paraibano José Siqueira e que com a sua obra teremos boas surpresas em 2014”, revela. 

CARLOS EDUARDO AMARAL, jornalista, crítico de música erudita e mestre em Comunicação.

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