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Cinema: Até parece de verdade

Imersos na escuridão da sala, os espectadores experimentam a verossimilhança do medo

TEXTO André Balaio

01 de Maio de 2012

Ilustração Indio San

[conteúdo vinculado à reportagem de capa | ed. 137 | maio 2012]

O cinema surgiu como mera imitação da realidade.
Mas um ilusionista, Georges Méliès, percebeu o potencial da novidade e passou a usar efeitos para contar histórias com a ilusão do fantástico. Foi o pioneiro na abordagem de fantasmas, vampiros e demônios, em trabalhos como O solar do diabo e Uma noite terrível, de 1896. Fez a primeira ficção científica em 1902, Viagem à Lua, baseada em Júlio Verne e também a primeira fita com monstros. Até a falência de seu estúdio, em 1913, o mágico produziu centenas de filmes abordando o sobrenatural e o fantástico, influenciando realizadores dos EUA.

A indústria do cinema americano do início do século 20 não tardou a realizar filmes de horror. Em 1909, D. W. Griffith adaptou a peça O demônio e o conto O coração delator, de Edgar Allan Poe, no seu A consciência vingativa (1914). Em 1910, já havia um Frankenstein, baseado na obra de Mary Shelley, produzido pelo estúdio do inventor Thomas A. Edison. O médico e o monstro (Dr. Jekyll and Mr. Hyde), de Stevenson, teve duas adaptações, em 1912 e 1913.

Em 1913, Paul Wegener faria um longa-metragem baseado no conto William Wilson, de Edgar Allan Poe, e na novela Os duplos, de E.T.A. Hoffman – O estudante de Praga, primeiro filme expressionista alemão. Wegener dirigiria nos anos seguintes três obras sobre a lenda judaica do Golem, um ser de barro que ganha vida. Nos anos 1920, a Alemanha estava com a economia arrasada e graves tensões sociais, que culminariam na ascensão do nazismo, na década seguinte. A crise, em contrapartida, fomentou a criação artística. Foi nessa época que o expressionismo alemão atingiu seu auge nas artes plásticas, dança, arquitetura e no cinema.


O ator Peter Lorre em cena do clássico M, o vampiro de Dusseldorf. Foto: Reprodução

A estética do cinema expressionista rejeitava o Realismo e privilegiava uma fotografia baseada no uso das sombras, em cenários irreais de enorme beleza plástica e em temas de forte conotação psicológica e fundo político. Robert Wiene (O gabinete do Dr. Caligari, de 1920), F. W. Murnau (Nosferatu e O fantasma), Fritz Lang (a trilogia do gênio do crime H. D. Mabuse, a fábula A morte cansada, a metáfora de ficção científica Metrópolis e a história de serial killer M), Paul Leni (O gabinete das figuras de cera) e outros conseguiram expressar as tensões, medos e dilemas do ser humano em face aos novos tempos. Desde então, o expressionismo alemão tem exercido uma forte influência em obras tão distintas quanto os clássicos de suspense de Alfred Hitchcock e o Edward mãos de tesoura de Tim Burton (inspirado no Cesare de Dr. Caligari), nos quadrinhos e até em videoclipes. Na efervescente indústria do cinema americano dos anos 1920, normalmente eram feitas adaptações de clássicos da literatura (O corcunda de Notre Dame) ou do teatro (O monstro). No cinema mudo, o maior astro do gênero era Lon Chaney, conhecido como “O homem das mil faces”. Ele participou de inúmeras produções de sucesso, como O fantasma da ópera e Londres depois da meia-noite (obra perdida do genial diretor Tod Browning), mas ficou eternizado como o corcunda Quasímodo, na adaptação da obra de Victor Hugo.

Nos anos 1930, a Universal começou a produzir filmes de horror falados, entre eles Drácula, dirigido por Tod Browning. O papel-título iria para Chaney, porém seu falecimento fez com que fosse para um semidesconhecido: o húngaro Bela Lugosi. Este havia atuado em filmes alemães e austríacos e tinha chegado recentemente aos Estados Unidos, onde interpretou o vampiro no teatro. Seu inglês era péssimo e o sotaque muito carregado, mas ficou perfeito no papel. “Drácula” virou um sucesso estrondoso e transformou Lugosi em ícone do gênero. Devido ao vício em heroína, experimentou a decadência e passou a viver na pobreza e numa quase obscuridade. Nos anos 1950, foi redescoberto pelo diretor de filmes de baixo orçamento e gosto duvidoso Ed Wood.

Já Tod Browning filmou, em 1932, na MGM, uma história de crime e traição com atrações de “circos de aberrações”. Usou atores que tinham essas características e fez Monstros (Freaks), um fracasso que quase destruiu sua carreira. Décadas depois, o filme seria considerado uma obra-prima.

Dos anos 1930 aos 1940, a Universal atingiu o apogeu com obras como a trilogia do Frankenstein: O homem invisível, A múmia e O lobisomem. Foram estes, junto ao Drácula de Browning, que estabeleceram a nova mitologia dos personagens do horror. Não é exagero dizer que tudo o que foi feito sobre eles, depois, teve inspiração ali. O monstro, de Victor Frankenstein, teve três filmes em série e o inglês Boris Karloff foi a sua mais completa tradução. Seu porte e o rosto de expressão melancólica se ajustaram perfeitamente às produções da Universal.

Desde o início, o cinema investiu na temática do terror. Foto: Reprodução

Karloff fez sucesso também como o personagem-título de A múmia. Já Lon Chaney Jr., filho do astro do cinema mudo, foi o único a encarnar os quatro grandes: o monstro de Frankenstein, o vampiro (filho de Drácula), a múmia e o lobisomem, sendo mais lembrado como este último por causa do título da Universal de 1941. Os dois primeiros Frankenstein, bem como O homem invisível, tiveram a assinatura de James Whale, diretor inglês fortemente influenciado pelo expressionismo alemão.

Nos anos 1940, os estúdios RKO (os mesmos de Cidadão Kane) decidiram investir em um setor específico de horror e determinavam três regras: cada filme tinha custar menos do que 150 mil dólares, durar menos que 75 minutos e ter o título escolhido pelos chefes do estúdio. Em cinco anos, foram 11 películas, sendo duas obras-primas: Sangue de pantera (Cat people, 1942) e A morta-viva (I walked with a zombie, 1943), dirigidas pelo francês Jacques Tourneur com extremo apuro técnico.

As produções americanas dos anos 1930 e 1940 estavam no contexto do apogeu industrial de Hollywood e do crescimento econômico dos Estados Unidos, ou seja, a diversão se distanciava da realidade. Alguns anos depois, o mundo era outro: havia seis milhões de judeus assassinados e duas bombas nucleares jogadas. Vampiros e lobisomens não assustavam mais como antes. O cinema virou um perfeito espelho da paranoia com a Guerra Fria e o risco de um conflito nuclear. Os vilões agora eram animais gigantes por causa da radiação ou cruéis invasores alienígenas. Também se dava, de forma subliminar, uma resposta à perseguição de direita personificada no senador republicano Joseph McCarthy com metáforas sobre a ameaça conservadora.

O acesso a novas tecnologias de efeitos especiais também permitia novos voos em produções como A coisa do outro mundo (1951), O monstro da Lagoa Negra (1954), Vampiros de almas (Invasion of the body snatchers, 1956) e O incrível homem que encolheu (1957). No Japão, a recuperação econômica não evitava o medo do cataclismo atômico, amplificado pelo trauma das bombas de Hiroshima e Nagasaki. A indústria do cinema japonês passou a fazer filmes de monstros que atacavam cidades, metáfora para a impotência diante da ameaça bélica. Na galeria dos gigantes clássicos, teve destaque Godzilla.


O filme Frankstein teve influência do expressionismo alemão. Foto: Divulgação

Enquanto isso, do outro lado do Atlântico, a Hammer Film Productions passava a investir no horror gótico. Drácula, a múmia, o monstro de Frankenstein e outros personagens malignos apareciam em vibrante Technicolor. O sangue era em vermelho vivo, algo impensável nas produções americanas clássicas. Outra característica era o forte conteúdo sexual, reforçado pela presença de belas atrizes, quase sempre em decotes sensuais.

A primeira produção com essas características, A maldição de Frankenstein, trazia um time que viraria a referência do horror de sua época: o diretor Terence Fisher e o roteirista Jimmy Sanger; Peter Cushing, como o Barão de Frankenstein, e Chistopher Lee, como o monstro. O quarteto voltaria em Drácula – o vampiro da noite (Horror of Dracula, 1958), com Cushing e Lee nos papéis de Van Helsing e Drácula.

Christopher Lee é, provavelmente, o único ator que conseguiu se equiparar a Bela Lugosi como ícone do vampiro da Transilvânia. A influência nos cineastas de outros países foi inevitável, o que fez com que Itália, França e Estados Unidos também explorassem temas góticos para assustar suas audiências. Mario Bava, principal nome do horror italiano naquele tempo, criou belas películas em preto e branco, como A maldição do demônio (Black Sunday, 1960), ou em cores, feito As três máscaras do terror (Black sabbath, 1963), que inspiraria o nome da banda de rock. Nos Estados Unidos, o diretor e produtor de filmes B. Roger Corman realizou oito boas adaptações da obra de Edgar Allan Poe, na primeira metade dos anos 1960, a maioria com o grande ator Vincent Price.

APARIÇÃO DO DIABO
Antes dos anos 1960, o “coisa-ruim” não tinha vez no cinema, talvez por causa de conservadorismo religioso, até que o franco-polonês Roman Polanski lançou, em 1968, O bebê de Rosemary, com Mia Farrow, John Cassavetes e Ruth Gordon, e um enredo sobre o envolvimento de uma mulher inocente para dar à luz ao filho do demônio. Cinco anos depois, foi lançado O exorcista, adaptação do livro de William Peter Blatty sobre uma garota possuída por um demônio que desafia um sacerdote em crise de fé e que conta com o apoio de um velho padre exorcista. A película dirigida por William Friedkin surprendia com o realismo das cenas de possessão, através de efeitos especiais e maquiagem muito convincentes. As sessões lotaram, com muito choro e gritaria. Influenciou diversas produções e gerou sequências. Outra obra bem-sucedida foi A profecia (1976), de Richard Donner, sobre um garoto criado por um embaixador (Gregory Peck), mas que é filho do... você sabe quem.

Obra de Polanski, O bebê de Rosemary foi a primeira a explorar a temática diabólica

Em 1968, o Código de Produção Cinematográfica, que regulava e – na prática – censurava violência e sexo, foi extinto e em seu lugar veio o sistema de restrição por idade. Neste ano, o jovem diretor George Romero lançou A noite dos mortos-vivos, um filme barato em preto e branco sobre zumbis. O filme tinha forte violência gráfica, atores desconhecidos, subtexto político, uma bela fotografia e um final surpreendente. Virou um clássico, com diversas sequências e refilmagens.

Nas décadas de 1970 e 1980, popularizaram-se os filmes slasher e splatter. Nos slasher, um ou mais maníacos matam pessoas em série com machados ou facões. Já os splatter, também chamados de gore, são de baixo orçamento, com excessiva violência estilizada, sangue em profusão, humor negro e erotismo, tendo como maior gênio o italiano Lucio Fulci.

Mas foram os americanos que tiveram mais sucesso com esse tipo de filme, a começar com o independente O massacre da serra elétrica (1974), de Tobe Hooper, sobre amigos em viagem de carro que são capturados por uma família de canibais, entre eles o demente Leatherface, com sua máscara de pele humana e sua serra elétrica. Outro foi Halloween – a noite do terror (1978), dirigido por John Carpenter, sobre Michael Myers, jovem que volta de um hospital psiquiátrico e sai matando suas vítimas sempre de máscara e com a faca em punho. Outros beberam nessa fonte, com qualidade inferior, como Sexta-feira 13 e A hora do pesadelo, para o qual, nos anos 1990, apareceu uma interessante releitura com a série Pânico.

PENETRAS DO GÊNERO
Alguns cineastas imprimem sua visão pessoal, transcendendo os limites do gênero. Um deles é o canadense David Cronenberg, cuja filmografia inclui Scanners – sua mente pode destruir, Videodrome e Crash – estranhos prazeres. Destacou-se também Stanley Kubrick e sua bela adaptação de O iluminado (1980), de Stephen King, e David Lynch e seu horror psicológico e onírico em Eraserhead (1977), Estrada perdida (1997) e Cidade dos sonhos (Mulholland drive, 2001).


O personagem Zé do Caixão aparece em diversos filmes de horror brasileiro.
Foto: Reprodução

No cinema italiano, usa-se o termo giallo para produções com sangrentos assassinatos, direção de arte estilizada, que beira o barroco, e música climática. Entre seus representantes, destaca-se Dario Argento (Suspiria, Phenomena e Terror na ópera).

No Brasil, o cinema de horror passou a ser original com o aparecimento do autodidata José Mojica Marins, de estilo próprio, experimental e de produções baratas com atores desconhecidos. Seu principal personagem, Zé do Caixão, entrou para o imaginário popular em obras como À meia-noite levarei a sua alma, O estranho mundo de Zé do Caixão e o censurado O despertar da Besta.

Nos últimos anos, os temas e estilos são inúmeros: desde falsos documentários, como A bruxa de Blair (1999) e Atividade paranormal (2007), o cinema clássico de Os outros (2001), de Alejandro Amenábar, passando pelo monstro do sul-coreano O hospedeiro (2006), de Bong Joon-ho, até os vampiros do sueco Deixe ela entrar (2008). O horror japonês atual tem forte ligação com o sobrenatural, nos trabalhos de Hideo Nakata (O chamado e Água negra) e Norio Tsuruta (Ring 0 – O chamado). E há obras no estilo torture porn, uma reedição do gore com mais doses de sadismo, mutilação e violência extrema. Alguns exemplos: Jogos mortais, Premonição e O albergue. Lidando com sentimentos primitivos e individuais, em caráter de celebração ritualística, o cinema de horror reflete os medos e preocupações da sociedade, servindo como um interessante painel da sua época. 

ANDRÉ BALAIO, engenheiro elétrico, músico e fundador do site O Recife Assombrado.

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