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Arte: A massa como tema

TEXTO Fábio Lucas

01 de Abril de 2014

A primeira imagem em movimento dos irmãos Lumière retrata a saída de trabalhadores da fábrica

A primeira imagem em movimento dos irmãos Lumière retrata a saída de trabalhadores da fábrica

Foto Reprodução

[conteúdo vinculado à reportagem de capa | ed. 160 | abril 2014]

Talvez o anti-herói solitário, marcado pela injustiça,
a lutar contra o sistema opressor e a se tornar líder anônimo de um movimento revolucionário. Ou o oceano de faces indeterminadas abrigando a cara-metade de alguém na longa busca do ideal romântico. Talvez a turba desesperada diante de evento de extinção iminente, ou outra, em ameaçador descontrole, avançando em formação de zumbis contra os últimos humanos não infectados por terrível epidemia. Talvez a violência sangrenta da guerra corpo a corpo em batalhas campais. Ou o cenário confuso, tenso e apressado das ruas atulhadas nas grandes cidades.

O símbolo das multidões no imaginário coletivo tem aparecido com frequência na expressão artística da cultura de massas, reforçando arquétipos, gerando ou renovando estereótipos, e ampliando os efeitos psicológicos de um fenômeno cada vez mais presente na vida contemporânea: o encontro, hostilizante ou não, na praça, na esquina, no metrô, no teatro, no estádio, no parque, nas calçadas ou no meio da rua, de um monte de gente.

As pinturas de momentos históricos, a narrativa de pessoas aglomeradas por qualquer motivo, as cenas cheias de efeitos especiais - aumentando ao máximo o seu impacto visual -, as fotos e filmes de campos de refugiados ou de ambientes lotados para um show musical, mostram a perseguição de “uma ordem oculta na desordem, uma ordem que inclui a desordem”, na expressão de Arturo Pérez-Reverte, no romance O pintor de batalhas. É a multidão pelo avesso da análise psicanalítica, desenhada agora pelos canais da arte.


Filme de Vertov, de 1929, O homem da câmera é um elogio às massas. Foto: Reprodução

Como observa o professor do curso de Cinema da UFPE Fernando Weller, a sétima arte já nasceu com a visão de uma multidão: “A primeira imagem dos irmãos Lumière, que retrata a saída dos trabalhadores da fábrica, é emblemática porque condensa esses dois fenômenos da modernidade – o tecnológico, que inaugura um novo regime perceptivo do mundo; e a massa, essa nova categoria que molda e é moldada por esse novo regime”. Weller lembra que há uma série de filmes sobre as cidades que se referem ao novo sujeito da modernidade. “As multidões exigem um novo olhar, veloz, chocante e não mais contemplativo ou o olhar concentrado das artes tradicionais.”

Nas primeiras décadas do cinema, conta Weller, são inúmeros os exemplos de filmes que refletem o fascínio que a nova arte tinha pelas multidões formadas pelos trabalhadores urbanos. “Os soviéticos, sobretudo, apostavam em um caráter revolucionário das massas e elegeram a técnica cinematográfica como a mais potente para representar o novo homem surgido no mundo industrial. O filme de Vertov, O homem da câmera, de 1929, é um elogio radical às massas e uma crença nas potencialidades da maquinização da vida moderna.” No espelho coletivo, morava então, como ainda mora, a semente da transformação latente, e a descoberta de uma espécie de potência escondida. “A multidão era revolucionária, sobretudo, porque ela exigia e promovia uma nova percepção estética do mundo e, consequentemente, uma nova política.”

O professor de Cinema da UFPE diz que, com Leni Riefenstahl em O triunfo da vontade, de 1935, e Olympia, de 1938, o cinema conheceu uma outra face das multidões. “Os choques perceptivos de Vertov dão lugar a uma imagem da massa ordenada, uníssona, que converge na figura do líder. O que surgiu no cinema como uma explosão revolucionária, como uma aposta futurista, torna-se expressão de um discurso do retorno às origens. Homens e mulheres não mais são representados em um ambiente urbano, conflituoso, mas desfilam coreografados em um cenário olímpico, neoclássico. As ferramentas nas mãos dos trabalhadores dão lugar a tochas e bandeiras”, explica Fernando Weller.


Nos filmes da alemã Leni Rienfenstahl, a multidão ordenada converge em direção ao líder. Foto: Reprodução

EXPERIÊNCIA
Para o doutor em Filosofia pela Universidade de Frankfurt e, atualmente, pesquisador de pós-doutorado na UFPE, Filipe Campello, a arte, em grande medida, pode ser vista como uma tensão constante entre a representação da individualidade e a de uma multidão esparsa. “Isso se mostra também na própria experiência estética. Aquilo que parece ser mais particular em, por exemplo, um poema ou um quadro, com o qual o indivíduo se identifica singularmente, é também expressão de muitos indivíduos.”

O compartilhamento do efeito catártico de um show, de uma peça teatral ou mesmo de um filme faz com que a reação do público complemente a obra e integre a experiência estética subjetiva. “É nesse sentido que um dos conceitos mais intrigantes nesse debate é o de autenticidade: a experiência estética traz um caráter aparentemente singular, mas que, em última análise, revela o de uma coletividade”, define o filósofo, autor de publicações no Brasil e no exterior sobre temas como política e afetos, subjetividade, teoria crítica e idealismo alemão.

Filipe Campello também recorda Antonio Negri, quando este evoca Espinosa, na indicação de uma ontologia social no instante em que o indivíduo se expressa também a partir das demandas e sentimentos compartilhados.

Segundo Campello, essa reflexão ainda pode ser encontrada no pensamento de Heidegger, que entendia o conceito de autenticidade/ propriedade (Eigentlichkeit) como uma categoria da existência em que o sujeito se movimenta como constante expressão da sua singularidade, um horizonte que não é facilmente alcançado. “De certo modo, a arte, bem como a própria experiência estética, estabelece essa tensão: ela expressa o que há de mais singular no artista (ou no espectador), mas também revela uma experiência tanto do seu tempo, enquanto situa-se numa experiência compartilhada, como atemporal, enquanto desvela o que é comum ao ser humano.”

Em sua inquieta marcha, a carregar múltiplos olhares e desejos, a multidão espera a obra que a traduza, pronta para o aplauso. 

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