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Crônica

O ano sem carnaval

TEXTO SAMARONE LIMA
ILUSTRAÇÃO HALLINA BELTRÃO

01 de Fevereiro de 2021

Ilustração Hallina Beltrão

[conteúdo na íntegra | ed. 242 | fevereiro de 2021]

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Não lembro exatamente o impacto do Carnaval em minha vida, porque meu pai era funcionário do Banco do Brasil, e vivíamos num vendaval de mudanças que nos tornava ciganos precoces, sem direito a raízes perpétuas em nenhum lugar. As turmas de escolas eram breves devaneios e, quando se formavam novos amigos, era o momento de fechar a casa e ir para outra cidade. A geografia ficou assim: Crato, Brejo Santo, Imperatriz, Pentecostes e Fortaleza.

Em 1987, cheguei ao Recife, seguindo os caminhos aleatórios do destino pessoal. Meu primeiro Carnaval em terras pernambucanas foi em 1988, quando tinha 19 anos, o que confirma uma velha tese de que sempre chego atrasado nas coisas.

Não sabia o que era aquilo, aquela loucura, a paixão dos pernambucanos pelos festejos. Uma mistura de preparação, organização, devoção, definição de espaços geográficos prediletos, e uma saudade infinita rondando já o primeiro dia da festa.

Os quatro anos de Casa do Estudante da UFPE foram típicos de um retirante. Aulas na universidade, bandejão no “RU”, pouquíssima grana. Lembro que acompanhei, com os amigos “xepeiros”, o bloco Cabeça de Touro, no distante Engenho do Meio, e bebíamos as bebidas ruins de sempre, coisas mais baratas possíveis, acompanhando uma multidão alucinada.

Morei em São Paulo de 1994 a 2000, e a cidade não tinha uma reles troça de Carnaval, alguma coisa na rua. Acho que, num sábado de carnaval de 1995, acordei, fui ao boteco da frente dos “Mombaça” (todos os funcionários eram da cidade de Mombaça, no Ceará), pedi um pão com queijo e um café; um dos Mombaça ligou a TV, era uma entrada ao vivo com imagens do Galo da Madrugada. Tive uma das poucas depressões da minha vida. Fui à Estação da Luz, peguei um trem que ia para o Mato Grosso e fui bebendo vinho, para não saber nada do assunto. Voltei na Quarta-feira de Cinzas.

Quando voltei ao Recife, em 2000, fui à desforra de tudo o que não tinha vivido. Estava com 31 anos e era um donzelo de carnaval. O primeiro Carnaval em Olinda foi um deslumbre, eu parava numas esquinas e ficava achando tudo lindo. Como já era professor da Universidade Católica, descobri que os alunos se multiplicavam. Os 60 pareciam estar em qualquer travessa, atrás de qualquer cortejo. No ano seguinte, morando no Poço da Panela, fundei com os amigos Walter Lima e Maurício Silva a Troça Carnavalesca Mista Os Barba, uma festinha simples, amorosa, comunitária, que virou uma coisa desnecessariamente gigantesca.

Mas o mundo dá muitas voltas, como já diz a velha lenda. Em março de 2017, mudei para uma bela casa em Olinda, em plena Rua 13 de Maio, onde abri um sebo. Trinta anos depois daquela chegada desamparada na Rodoviária do Recife, estava no olho do furacão carnavalesco de Pernambuco.

Como seria viver numa cidade que aparece para o mundo com suas ruas sempre empanturradas de gente, adorando orquestras raçudas, estandartes os mais diversos, clarins abrindo desfiles e tantas histórias em cada esquina?

Cheguei exatamente duas semanas após a Quarta-feira de Cinzas. Sou daqueles que acreditam que não só as pessoas têm vida própria, mas cidades, lugares, objetos, enfim. A cidade estava numa ressaca tremenda, movida a Engov e outros penduricalhos que tomamos, nos momentos de maior exagero. Um silêncio absoluto tomava conta das ruas. Bares, botecos, restaurantes quase não funcionavam, ou abriam com uma má-vontade tremenda. Lá pelo mês de junho, quando algumas coisas retomaram, perguntei até quando duraria aquela morgação.

“Espere o 7 de Setembro”, me alertaram os moradores, diversas vezes. “A cidade vira a chave”.

Esperei. Enquanto isso, fui fazendo novos amigos e reencontrando os poucos que já moravam nela. Um deles, filósofo de mão-cheia, nascido em Olinda, descendente de fundadores de troças, de gente que fez hinos famosos, que são cantados pelas multidões a cada ano – ele próprio fundador de troça –, de vez em quando soltava um pensamento que parecia um presságio.

“Sama, faz 30 anos que tenho um sonho. Queria que Olinda passasse um ano sem ter Carnaval.”

Ele falava de um lirismo, de uma mitologia que envolvia a festa, de algo que já não povoava as ladeiras. Tratava aquele sonho como algo impossível, mas dizem que não é salutar duvidar dos filósofos.

O 7 de Setembro caiu numa quinta-feira, a Praia dos Milagres estava lotada, mergulhei, tomei umas cervejas com uns amigos e, quando voltei pra casa, vi a população já encerrar o feriado com os olhos revirando, uma algazarra imensa.

Era a senha.

Na semana seguinte, o Grêmio Musical Henrique Dias, fundado em 30 de abril, iniciou sua jornada de ensaios, que só terminaria no Carnaval.

Acompanhei a rotina de uma cidade que começa a girar em torno da festa. A cada ensaio das orquestras, mais gente. Aos poucos, casas começando a ser pintadas. Lá pelas tantas, a inundação das placas “aluga-se para o Carnaval”.  No final do ano, turistas desfilando com seus ares de turistas, algumas troças dando suas voltinhas, até que chega o momento da decoração da cidade, e os amigos começam a ligar perguntando “como vai ser o esquema da casa”, para o caso de uma “passada rápida”.

O primeiro Carnaval como morador foi em 2018. Tive que me organizar para receber hóspedes e amigos, o que implicava até uma pessoa para controlar a entrada. Inventei uma pulseirinha e fiz uma lista, que não serviu para nada. O segurança, evangélico e bastante conservador nos costumes, ao final da primeira manhã de doideira, na 13 de Maio, comentou comigo:

“Professor, isso é uma festa do Capeta.”

Nunca mais tinha ouvido aquela palavra.

Em 2019, na mesma casa, já achei muita doideira. Em 2020, como o Sebo era na Rua de São Bento, roteiro de todas as troças, funcionamos apenas vendendo chope e vendo a doideira passar.

Bastou o Carnaval passar, e veio o decreto da quarentena, por conta da Covid-19.

A pandemia segue firme. Este ano não terá Carnaval em Olinda. Quando vi o decreto, lembrei que não se deve duvidar de filósofos.

Encontrei recentemente meu amigo. Conversamos longamente, e aquela pergunta latejando na algibeira.

“Visse que teu pedido foi atendido? Não vai ter o Carnaval em Olinda. O que achas?”

Ele deu seu sorriso zombeteiro, das tantas estradas por onde andou, e respondeu:

“Será a volta de Lilith.”

SAMARONE LIMA, poeta e prosador.

HALLINA BELTRÃO, designer e ilustradora.

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