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Resenha

Suspense policial à brasileira

Série ‘Bom dia, Verônica’, baseada no livro homônimo de Ilana Casoy e Raphael Montes, traz fôlego às produções nacionais

TEXTO Jocê Rodrigues

05 de Novembro de 2020

Tainá Müller interpreta a escrivã de delegacia Verônica Torres

Tainá Müller interpreta a escrivã de delegacia Verônica Torres

Foto Reprodução

[conteúdo na íntegra | ed. 239 | novembro de 2020]

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Histórias policiais há muito cativam a imaginação das pessoas ao redor do mundo. Mistério, violência, busca por justiça. Combinação difícil de dar errado. É claro que não é apenas com essa combinação clássica de conteúdos que se faz uma obra; tudo vai depender, também, da qualidade da pena de quem a escreve. Contar uma boa história é mais do que saber organizar palavras e frases. É preciso usar bem o ritmo, abrir e fechar as cortinas da narrativa no tempo certo, distribuindo equilibradamente os elementos.

Iniciado na literatura com a publicação de Os assassinatos da Rua Morgue, do mestre Edgar Allan Poe (1809-1849), em 1841, esse gênero literário mexe com nossa cabeça ao nos colocar em busca de uma verdade que, segundo o escritor argentino Ricardo Piglia, só existe ali, dentro daquele universo de tramas cuidadosamente costuradas. “A exemplo dos grandes gêneros literários, o policial foi capaz de discutir o mesmo que discute a sociedade, mas em outro registro”, escreveu Piglia em Formas breves (Companhia das Letras, 2004). “É isto o que faz a literatura: discute a mesma coisa de outra maneira”, pontua.

Esse tipo de literatura deu ao mundo algumas das mentes mais brilhantes e argutas da ficção, como o Sherlock Holmes de Arthur Conan Doyle, o Padre Brown de G.K. Chesterton, o Hercule Poirot de Agatha Christie e o Mandrake de Rubem Fonseca. Personagens dotadas de capacidade quase sobre-humanas para solucionar problemas que todas as outras pessoas falharam em resolver; com olhos treinados para ver o que se esconde por detrás do véu das aparências.

Entretanto, o romance policial não conta apenas com a criação de mentes extraordinárias para estruturar suas narrativas. O crítico, filósofo e historiador búlgaro Tzvetan Todorov estabeleceu subgêneros para ele. Entre os quais, o romance de enigma, o romance negro (noir) e o de suspense – que se apropria de características dos anteriores para tornar o seu abraço mais largo, mais espaçoso. É nele que podemos encontrar personagens centrais mais humanos e vulneráveis. Gente quase como a gente, que acaba por se envolver em situações que colocam em risco suas vidas, enquanto tentam chegar a uma verdade velada.


O maior elemento de tensão na série é a violência contra as mulheres, a partir de um assassino em série. Imagem: Reprodução

Nesse tipo de narrativa, “o leitor está interessado não só no que aconteceu, mas também no que acontecerá mais tarde, interroga-se tanto sobre o futuro quanto sobre o passado”, explica Todorov, em As estruturas narrativas (Perspectiva, 2006). “Os dois tipos de interesse se acham pois aqui reunidos: existe a curiosidade de saber como se explicam os acontecimentos já passados; e há também o suspense: que vai acontecer às personagens principais?”, continua.

Com tais atributos, não surpreende que as histórias de suspense policiais tenham se adaptado tão bem a outros formatos, como a televisão. Tão bom quanto ler sobre crimes e assassinatos horrendos é poder vê-los em uma tela. Na verdade, muitas pessoas preferem a segunda opção. E a indústria cinematográfica sabe disso. Segundo artigo escrito por Paulo Nogueira, “desde a invenção da câmera de filmar, um em cada três de todos os filmes e séries de TV já rodados são policiais”.

Na televisão, o suspense policial à brasileira ainda padece muito dos formatos pasteurizados e pouco profundos que vemos reproduzidos nas novelas largamente consumidas pelo telespectador brasileiro. Os mesmos ângulos, a mesma fotografia, o mesmo ritmo, os mesmos roteiros previsíveis e pouco imaginativos. Algo que pode nos fazer pensar mecanicamente: se você viu um, já viu todos. Talvez a afirmação seja exagerada, mas funciona em muitos casos.

Felizmente, existem movimentos que contradizem essa afirmação. A chegada de Bom dia, Verônica, série brasileira produzida pela Netflix, marca um ponto de virada, uma curva na estrada a que vale a pena prestar atenção. Não somente pelo aspecto narrativo, mas também técnico da produção, que foi inteiramente baseada no livro homônimo escrito a quatro mãos por Ilana Casoy e Raphael Montes, publicado em 2016 pela Editora Darkside.

A parceria surgiu de um convite feito despretensiosamente numa feira literária da qual ambos participavam. Pouco tempo depois, estavam trabalhando na criação da obra que combinaria o talento dos dois. É possível que Ilana seja a criminóloga mais conhecida do Brasil; autora de livros de sucesso sobre o perfil psicológico de assassinos em série e seus crimes hediondos. Já Raphael é reconhecido por thrillers de suspense como Dias perfeitos, Suicidas, Jantar secreto e pelo seu trabalho como roteirista para televisão em produções como A regra do jogo, Supermax e Espinosa.

No início, o livro foi lançado sob o sugestivo pseudônimo Andrea Killmore. A ideia era fazer uma espécie de jogo com os leitores e também experimentar como seria publicar algo sem o peso dos seus reconhecidos nomes no mercado literário. A revelação dos verdadeiros autores só ocorreu em 2019, quando Bom Dia, Verônica se tornara um sucesso.

TRAMA BEM-URDIDA
Livro e série seguem caminhos diferentes, mas são como dois rios que correm para o mesmo mar. Enquanto o livro tem um foco narrativo mais interno e subjetivo, a série traz fortemente a questão da violência física, sexual e psicológica contra a mulher, com cenas fortes, que chamam à reflexão.

A escolha por uma escrivã como protagonista não foi por acaso. Era preciso trazer uma personagem quase invisível à luz. Verônica, interpretada por Tainá Müller, é constantemente subestimada por seus superiores. Com um histórico familiar conturbado, ela precisa lidar com questões malresolvidas e ainda dar conta do trabalho e das pequenas tensões que habitam o núcleo familiar e afetivo, com marido e filhos.

A falta de empatia dos colegas de trabalho em relação ao abuso e violência, principalmente contra mulheres, aos poucos vai provocando pequenas rachaduras no interior de Verônica. Fissuras que vão se alargando a cada comportamento machista; a cada declaração que tente rebaixar a dor imposta de quem não tem vez em ambientes hegemonicamente masculinos, dominados por gente como o delegado Wilson Carvana (Antônio Grassi) e, curiosamente, pela delegada Anita Berenger (Elisa Volpatto), personagem criada especialmente para a série.

O ponto de ruptura acontece quando Verônica presencia uma situação de suicídio dentro da delegacia onde trabalha. A partir daí, tudo se transforma e ela tenta mover o mundo com os próprios esforços. Quando conhece Janete (Camila Morgado), sabe que algo de ruim está acontecendo com aquela mulher, mas não imagina o tamanho do problema no qual está prestes a se envolver. Acontece que o marido de Janete, Brandão (Eduardo Moscovis), é um assassino em série. Dominador e violento, ele consegue destruir o psicológico da esposa, a ponto de fazê-la colaborar com os crimes do marido.

A atuação de Morgado e Moscovis é impecável. Quando juntos, conseguem absorver toda a atenção apenas com gestos, olhares e trejeitos. Não que os diálogos não sejam bem-construídos. Muito pelo contrário, são bem-pensados e se encaixam perfeitamente. A cada ação de carinho e afeto entre os dois, um sentimento incômodo se instaura no ar, como se algo não estivesse certo. Quando uma palavra de carinho é lançada por Brandão, sabemos que uma bomba-relógio acabou de ser plantada e que logo irá explodir. Só não dá para saber exatamente quando.

Alguns desses momentos de tensão são mais leves, como aqueles entre Verônica e seu assistente e escudeiro Nelson (Silvio Guindane); outros, mais pesados e quase intragáveis, como as cenas que mostram o cruel modus operandi de Brandão com suas vítimas. Passagens que criam equilíbrio e dão corpo à história, que vai além da simples exposição de uma caçada a um assassino. Tanto a série quanto o livro nos entregam muito mais do que isso.

Em um país ainda com pouca tradição no gênero, a união entre Ilana Casoy e Raphael Montes ajuda a abrir os caminhos para que mais produções de qualidade e identidade possam surgir. Como os dois autores estiveram envolvidos com o processo de adaptação do livro, isso evitou que elementos pasteurizados dominassem a trama, dirigida por José Henrique Fonseca. Além de criador da série, Raphael foi o roteirista-chefe e produtor-executivo, trabalhando com Ilana e um time de roteiristas.

Ao participar de um enredo carregado de corrupção, abusos, violência e misoginia, Verônica surge como a representação das mulheres invisíveis que lutam diariamente suas batalhas internas e externas. Sua busca pela justiça, que dificilmente encontra na delegacia, a leva a tomar medidas perigosas, pois desafiam a ordem vigente e a cadeia de comando. Os questionamentos que faz ao longo da jornada suscitam transformações não apenas em sua vida, mas também na de outras pessoas, sejam elas próximas ou não.

Tudo o que ela precisou fazer foi dar o primeiro passo. Assim como fizeram Ilana Casoy e Raphael Montes. Um simples movimento que pode significar toda uma mudança no modo de lidar com problemas graves e que precisam ser constantemente discutidos. Principalmente numa sociedade estruturalmente condicionada a perpetuar comportamentos inaceitáveis contra todas as Verônicas que lutam pelos seus ideais, pelos seus sonhos e, muitas vezes, pelas próprias vidas.

JOCÊ RODRIGUES, jornalista, colabora com publicações culturais brasileiras.

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