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Entrevista

“Ser poeta é uma maneira de estar no mundo”

Com residência artística em Berlim e tendo lançado recentemente ‘Canções de atormentar’, a poeta Angélica Freitas comenta sobre seus processos de criação

TEXTO Erika Muniz

05 de Novembro de 2020

Angélica Freitas é uma das poetas brasileiras mais importantes da atualidade

Angélica Freitas é uma das poetas brasileiras mais importantes da atualidade

Foto Jasper Kettner

[conteúdo na íntegra | ed. 239 | novembro de 2020]

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Quando se pensa na poesia brasileira das últimas décadas, Rilke Shake (Ás de Colete, 2007) e Um útero é do tamanho de um punho (Cosac Naify, 2012; Companhia das Letras, 2017) são títulos fundamentais. Em cada um, a cadência, o ritmo, o humor, a potência política e a miscelânea de referências que compõem a obra – e a formação – de Angélica Freitas se evidenciam. Agora é a vez de Canções de atormentar (Companhia das Letras, 2020) fazer coro às publicações da poeta, como um dos lançamentos mais aguardados deste ano difícil, que tem trazido qualquer coisa de bons ventos ao menos através desse território de resistência que é o da poesia.

Nascida em Pelotas (RS), em 1973, Angélica formou-se em Jornalismo. A escrita, no entanto, a acompanha desde a infância. Uma vez, ela conta, uma tia apresentou um volume de uma enciclopédia de poesia para crianças. Através dos caminhos lúdicos e engraçados que aqueles textos lhe ofereceram, seu interesse pela leitura – e, em seguida, pela escrita – foi sendo despertado. Costumava, desde aquele período, preencher cadernos com poemas de temáticas diversas. Inclusive, o hábito de escrever à mão permanece até hoje, assim como o humor e o jogo com as sonoridades das palavras. Com o passar dos anos, descobriu autoras e títulos marcantes, entre as quais Ana Cristina Cesar, Sylvia Plath, Ledusha, Susana Thénon. Em 2006, decidiu dedicar-se à poesia. Algo que, na verdade, nunca abandonou desde pequena, e isso ela comenta mais adiante.

De Berlim, onde atualmente mora, por conta de uma residência artística, a poeta e tradutora concedeu esta entrevista à Continente. Entre os temas que conversamos, estão algumas dessas suas lembranças, além da prática de escrita diária, como tem sido a vida na capital alemã, afinidades musicais, feminismos, trajetória artística, influências e um pouco dos processos que antecederam a publicação de seu novo livro e também do anterior, Um útero é do tamanho de um punho. 


Novo livro de Angélica Freitas foi lançado
este ano. 
Imagem: Reprodução

CONTINENTE Como é que você está? Como tem sido a vida aí em Berlim?
ANGÉLICA FREITAS Eu estou bem. A gente chegou aqui no fim de julho. Teve que fazer uma quarentena de duas semanas. Faz uma semana, mais ou menos, que a gente saiu para a rua, pela primeira vez. É muito louco, né? Você se mudar para um lugar, ficar dentro de um apartamento e só ver pela janela as casas e a rua. A gente olhou o Google Maps para ver como é que era o bairro. Mas sair na rua, pela primeira vez, nem sei como descrever. No Brasil, a gente estava saindo para ir ao supermercado e, aqui, não podia nem colocar o nariz para fora do apartamento. Vinha alguém da bolsa, da residência, para pegar o lixo e tal. Foi bem estranho sair, mas está superbom. Está verão, então, estamos aproveitando bastante o calor. Umas duas vezes, a gente foi a um lago, que fica a meia hora e, no restante do tempo, tenho ficado escrevendo minhas coisas. Essa residência que estou fazendo do DAAD Artists-in-Berlin já existe há muitos anos. Do Brasil, por exemplo, uma das primeiras pessoas que vieram foi o João Ubaldo Ribeiro, da parte de literatura, porque tem cinema, música, artes visuais. Acho que o último brasileiro a vir foi o (escritor) Bernardo Carvalho. Acho que sou a primeira mulher brasileira que participa desse programa. Uma residência de 12 meses em Berlim – eles te dão um apartamento e um salário mensal para você ficar escrevendo. Pela primeira vez, em muito tempo, tenho um escritório e eu estou muito feliz com isso. É bem grande, tenho um sofá, uma poltroninha, outra mais atrás. É maior que minha sala de estar em Perdizes, em São Paulo (SP), com várias luminárias para ficar lendo. Meio inacreditável para quem escreve, meio Disneylândia. Está massa porque já tenho essa coisa de escrever sempre quando acordo, mas, geralmente, escrevia na cama. Fazia o café e voltava. Eu e a Ju (a artista Juliana Perdigão, com quem Angélica é casada), lá em São Paulo, tínhamos quartos separados, cada uma tinha a sua cama. Então, o meu quarto era meu escritório também. Agora, eu levanto, faço o café e venho para cá. É muito bom, estou curtindo muito.

CONTINENTE Ainda está recente, mas, dessa residência, vai sair algum livro?
ANGÉLICA FREITAS A ideia é que, sim. Estou aqui para escrever um livro. Acho que vou acabar fazendo mais de um projeto. Desde que cheguei, tenho escrito todos os dias, porém, mais como uma forma de exercício e de entrar no clima da escrita, propriamente. A minha ideia é, já que vou ter esses 12 meses aqui, escrever o máximo que eu conseguir. Um livro, pelo menos.

CONTINENTE Você é uma pessoa mais diurna ou noturna do ponto de vista de escrita?
ANGÉLICA FREITAS Sou totalmente diurna. Não importa a hora em que vou dormir. Seis e meia, sete horas da manhã, no máximo, já estou acordada porque as minhas gatas me acordam. Se não levanto, elas vão: “Ué, o que aconteceu?”. Ficam miando na porta do quarto. Acordo e não consigo dormir mais. Tenho um caderno novo, que comecei aqui em Berlim (mostra o caderno preto e branco pela câmera). Para você ter uma ideia, hoje, eu escrevi uma, duas páginas, como se fossem três. Agora, estou na 37 do caderno, e são 80. Ou seja, quase na metade deste caderninho desde que cheguei. E eu gosto disso, me dá uma satisfação encher caderno, sabe?

CONTINENTE Ah, sei, sim. Também sou dessas que escrevem à mão.
ANGÉLICA FREITAS Ah-ha! Também! (riso) Eu sei que tenho que chegar aqui, de manhã, na mesa, pegar o meu caderno e escrever. O que vai sair? Não importa, isso tudo é para um modo de escrita de poesia. É como se esse caderno aqui fosse uma espécie de aquecimento. Geralmente, consigo escrever ou gostar do que escrevo, quando entro numa rotina de escrita. Se passo um tempo sem escrever – o que é raro –, se quero retomar, sei que, nos primeiros dias, o que vai sair será meio disforme, como se fosse uma tentativa de estabelecer um contato. Acho que tem essa parte, que a gente poderia pensar como se dedicar mesmo a escrever. Acredito também que você tem que comparecer ao trabalho. Tenho feito isso todos os dias e é isso que gosto de fazer.

CONTINENTE Queria que você contasse sobre o título de seu novo livro Canções de atormentar (2020). Eu já estou com o meu aqui.
ANGÉLICA FREITAS Ah, que massa! Comecei a fazer uma residência no final de 2016 e início de 2017. Fui para a Índia, em mais de uma cidade, na verdade. No final de 2016, em Calcutá, lembro que estava meio “empacado” para escrever e eu tentava passar um tempo na rua, caminhando. Só que Calcutá é uma cidade muito caótica, tem muito carro, muita gente na rua. Algumas ruas até tinham vacas soltas. Não é que fosse uma coisa tão clichê da Índia, mas era muito barulho também. Numa dessas voltas que estava dando, passei na frente de uma loja de instrumentos musicais e vi um violãozinho para vender. Pequeno e com um formato triangular. Eu me apaixonei por ele e acabei comprando. Quando cheguei ao quarto do hotel, comecei a fazer umas melodias. Quando vi, estava escrevendo e compondo o primeiro poema dessa série, que fala basicamente que o marinheiro tem medo da sereia. Eu já tinha escrito sobre sereias, o fato de ter encontrado o violão, de ter começado a compor nele, desencadeou um processo criativo um pouco diferente. Até já tinha feito umas musiquinhas, mas era a primeira vez que eu estava fazendo uma série de poemas e compondo no violão, então, eles já vieram com som e ritmo. As sereias e as canções que elas cantavam não eram para seduzir os marinheiros, mas para atormentá-los mesmo. Canções de furar tímpanos e afundar navios. Elas queriam mesmo afundar navios, porque olha os resultados das grandes navegações! A coisa deu meio errada, né? Em 2017, eu me mudei para São Paulo (SP) e o Joca Reiners Terron me convidou para participar de um projeto de poesia falada, que se chama Zapoeta. É sempre um poeta e alguém da música fazendo uma interferência musical. Eu estava namorando a Ju e disse: “Vamos fazer isso daqui, tenho essa série da sereia”. Ela já conhecia, eu tinha mandado por áudio e a gente acabou deixando num formato que dava para escutar sem ser muito “atormentada”, digamos assim (risos). Ela meio que transformou em música a série que mandei com o meu violãozinho. Acabou virando uma performance por causa desse convite do Joca. Se não tivesse pintado isso, talvez ficasse só uma série de poemas mesmo. O nome vem daí, das “canções de atormentar” das sereias. Depois, dei uma pesquisada e achei uma expressão em italiano, que significa “canção de atormentar”. Seria aquele tipo de música que gruda na tua cabeça. Gostei dessa ideia também da música que fica dando voltas na cabeça, porque, de certa forma, um dos critérios de organização desse livro foi o de me lembrar dos poemas. De Um útero é do tamanho de um punho até agora, passaram-se oito anos. Então, eu tinha uma quantidade de poemas e cadernos que é meio difícil de organizar, especialmente porque não sou o tipo de pessoa que passa a limpo o poema imediatamente. Deixo no caderno, porque gosto de me distanciar para voltar e ver o que preciso mudar. Ver se gosto dele. Para mim, é muito difícil ter uma opinião formada sobre um poema, logo após escrevê-lo. Posso ter uma intuição de que tem uma coisa ali, mas preciso desse tempo de uma semana para voltar com o olhar mais frio, mais descansado. Tenho esses cadernos e fiquei: “Bom, e agora?”. Alguns que não entraram no Um útero é do tamanho de um punho, eu pensava: “Agora pode entrar”. Esse livro não é temático como o Um útero… Nele, tem algumas séries de poemas que vim desenvolvendo faz alguns anos e que quase pensei em transformar em livrinhos separados. É isso, acho que respondi à tua pergunta.


Angélica Freitas e Juliana Perdigão em performance poético-musical. Foto: Ricardo Moura

CONTINENTE Queria perguntar sobre as transformações em sua poesia, a partir da parceria artística com Juliana Perdigão. Vocês fazem performances, apresentações e, de certa forma, isso também aparece no ritmo e na composição dos poemas. Como você observa isso?
ANGÉLICA FREITAS Bom, tem vários aspectos dessa parceria com a Ju, mas, deixa eu pensar… Acho que conviver com ela, e ela é uma artista que faz música, mas também performance e está enveredando pelas artes visuais, me dá um alívio muito grande e uma liberdade. Acho que fico mais livre na convivência com ela. Penso que a poesia tem um peso que não vejo na música. Vejo os amigos da Ju, com quem ela convive, e acho que é um meio tão mais legal que o da poesia, tão mais livre. Talvez porque os músicos tenham que trabalhar juntos. Você tem que ter um trabalho colaborativo. E, quando escreve, faz isso sozinha. Ela faz eu me sentir mais livre, com mais vontade de criar e experimentar. É como se tirasse um peso, uma gravidade da poesia. E também quando a gente faz trabalhos juntas, porque a gente fez várias outras performances. Essa ideia de que escrever é um trabalho, sabe? Sou poeta, tenho que ser capaz de escrever um poema para a performance e trabalhar, a partir das coisas que ela me apresenta também. Ela me inspira muito, me desanuvia. Às vezes, estou com um poema, leio para ela e parece que a coisa clareia. Acho que isso é uma das coisas de você ter uma parceira artística. Gosto de pensar que também a influencio, de alguma maneira. Mas acho que isso só ela pode responder. É muito bom, muito interessante, sou uma pessoa muito mais feliz por conviver com ela. É uma grande sorte você poder colaborar com outras pessoas e criar uma coisa juntas, porque o pessoal do cinema tem que trabalhar junto, o da música trabalha junto, o das artes visuais, de repente, também pode trabalhar mais coletivamente. Mas o pessoal da literatura, não. Acho que o pessoal da poesia é mais tristinho (risos).

CONTINENTE Canções de atormentar é um livro muito aguardado, já vi gente compartilhando nas redes sociais. Queria que você reiterasse sobre a escolha dos poemas. Alguns, como disse, acabaram ficando de fora. Como foi esse processo de edição?
ANGÉLICA FREITAS O livro que mandei originalmente era bem diferente. Ele sofreu um processo de poda brutal (risos). No ano passado, tinha outra configuração. Tinham muitos poemas que eram sobre escrever poesia e eram os que abriam o livro. Resolvi tirá-los e deu um outro tom. A primeira parte, que é a do laranjal, antes, estava lá para o final. Eu trouxe para a frente porque achei que começava de uma forma mais leve. Estava pensando… Esse é o meu terceiro livro de poemas, tenho uma graphic novel também, então, talvez a minha maneira de trabalhar seja colocar as coisas no caderno e deixar elas amadurecerem. De repente, os poemas que não entraram nesse livro, daqui a um tempo, vão entrar em outro. Não consegui colocar muita coisa recente que estava escrevendo, porque, primeiro, não achei onde encaixar e, depois, porque decidi: “Vou dar um tempo para isso aqui”. O poema mais recente é o juçara marçal adota um gato. Fiz no fim do ano passado. E tem o rômulo fróes toma uma decisão. Talvez, depois eu faça uma série de poemas sobre o pessoal da música. Gosto muito deles e essa convivência com a Ju também me aproximou de uma galera da música. Acho muito legal. Durante a pandemia, das coisas que a gente mais sentia falta era de ir a shows e de encontrar as pessoas da música.

CONTINENTE Essa ideia de fazer séries com pessoas da música me lembrou o livro 27 poemas con nombres de persona (2012), da poeta Cecília Pavón, Por falar nisso, você gosta de poesia argentina, não é?
ANGÉLICA FREITAS Gosto muito! Morei um tempo na Argentina. Quase dois anos e meio numa cidade chamada Bahía Blanca, que tem muitos poetas, é uma província de Buenos Aires. Gosto muito da poesia argentina, até traduzi a Susana Thénon, a obra completa. Eu me senti muito à vontade na Argentina, praticamente uma poeta argentina (risos). Mas é, gosto mais da poesia argentina que da brasileira. Não sei, é diferente.

CONTINENTE Os poemas de Canções de atormentar são bem-ritmados, dá até para cantá-los. O que você acha disso?
ANGÉLICA FREITAS Acho ótimo, ficaria muito feliz que as pessoas cantassem os meus poemas. Para mim, é um objetivo fazer poemas que possam ser cantados.

CONTINENTE Em algumas performances, você toca guitarra. Como é isso? Tem se dedicado à guitarra também?
ANGÉLICA FREITAS Eu pratico quando tenho que fazer performances. Já me apresentei sozinha, sem a Ju. A convivência com ela também me deu mais segurança e vontade de palco, de me apresentar e não ficar só lendo os poemas. Mas eu faço barulho, né? Sei tocar algumas notas na guitarra, mas o que gosto mesmo é de ficar fazendo uns barulhinhos. E componho também umas coisas, de vez em quando. Só que, aí, ano passado, roubaram o meu violão, que era o que eu usava para compor. A guitarra tem essa coisa de que você tem que plugar, tem que fazer toda uma disposição de pegar o amplificador e plugar a guitarra. Violão parece que é mais “fácil”, digamos assim.

CONTINENTE Agora, uma pergunta difícil. Como é ser poeta, Angélica?
ANGÉLICA FREITAS Como é ser poeta? Ah, eu não penso muito, só vou fazendo, sabe? Acho que, na maior parte do tempo, até me esqueço de que sou poeta, porque essa coisa de escrever está tão dentro da minha rotina, que não paro para pensar. Sou uma pessoa que tem livros publicados, é meio doido falar isso assim, mas, realmente, não fico me vendo de fora. Acho que ser poeta é uma maneira de você estar no mundo. É uma maneira bem intensa de estar no mundo, porque a maioria das pessoas não faz nada com os estímulos que recebe. Você pode ver uma coisa pela janela, ver um pássaro, ver um acidente de trânsito, ver um avião passando… Você viu e era isso. Agora, se você é poeta, há grande probabilidade de que vai ver um avião passando, vai começar a devanear sobre isso e acabar escrevendo um poema, que, de repente, não tem nem a ver com o avião. E vai lhe levar para outro lugar. Ou vai ver esse acidente de trânsito, não vai escrever nada na hora, mas, daqui a duas semanas, escreve um negócio que tem a ver com automóveis, velocidade, morte ou choque. É isso, você acaba sendo poeta. Meio que processa os estímulos que recebe o tempo inteiro e faz alguma coisa com isso. Você transforma um emaranhado de sons, de sentidos, sobre os quais não tem tanto controle assim. Acho que uma coisa é dominar a técnica, mas ela não necessariamente faz de você um bom poeta. Por exemplo, uma pessoa que estuda piano a vida inteira, não necessariamente vai compor ou, sei lá, chegar em um grau de competência no que faz. Acho uma coisa bastante misteriosa o processo de escrita dos poemas. Às vezes, um poema pode demorar anos até ter escrito. Você pode ter uma ideia ou um verso e ficar com isso durante muito tempo, um dia, a coisa sai. Mas ser poeta é também estar disponível para fazer isso. Você pode sentir uma vontade de transformar o que vê, o que vive em poesia. Mas também pode dizer: “Não, não vou”. E, conforme esses “nãos” se acumulam, vai perdendo essa conexão com as coisas. Por isso, acho também que tem que estar disponível, tem que dar bola para isso, quando você sente vontade. No meu caso, eu sinto vontade de escrever. Às vezes, não sinto, mas sei propiciá-la, que é por meio de uma rotina de escrita, da repetição, do gesto de acordar, fazer um café... Lá em São Paulo, eu voltava para a cama, aqui, venho para o meu escritório e, se estou com sono, dou um tempo, leio um pouco e tem uma hora que vou para a mesa. Vou abrir o caderno porque já estou no estado próprio para escrever. A partir dessa disponibilidade, é que as coisas acontecem. Você pode também facilmente perder isso, se fica um tempo sem escrever.


A poeta Angélica Freitas em Berlim. Foto: Jasper Kettner

CONTINENTE Recentemente, você colocou no Twitter uma analogia entre a técnica mais formal na poesia e o reality show RuPaul’s Drag Race (apresentado por drag queens). Seria como se poetas que têm mais domínio de ritmo e de métrica fossem as queens que sabem mais de costura, não é isso? Mas é preciso ter Cunt (charisma, uniqueness, nerve e talent, ou carisma, singularidade, coragem e talento) para vencer o programa.
ANGÉLICA FREITAS Eu sou viciada em RuPaul’s! Nas minhas últimas oficinas (de poesia), incluí alguns exercícios de métrica porque o pessoal perguntava: “Não tenho que aprender a contar sílabas?”. E a minha ideia anterior era: “Não, você não precisa fazer um poema metrificado. Se você quiser, você faz, mas não tem uma obrigação de fazer um soneto e nem de começar a aprender poesia por contagem de sílabas”. Uma série de professores concorda com isso. Bernadett Mayer, que é uma poeta americana, acha que você não precisa aprender a contar sílabas, não precisa fazer um soneto. E ela tem livros de sonetos. Outras professoras, como Mary Oliver, outra poeta americana, que também dava oficinas, diz que é interessante conhecer os ritmos da linguagem que você fala. A maneira de aprender isso é aprendendo a contar sílabas, mas o ideal não é que comece a aprender poesia pela contagem de sílabas, mas que trabalhe com o que já tem. E sou dessa escola, que parte do princípio de que uma pessoa vai fazer uma oficina de poesia porque já teve algum contato, já tem uma ideia e consegue criar um tipo de musiquinha na cabeça, ainda que não tenha consciência do que é uma redondilha. Mas, é claro, aprender essas coisas só te ajuda. Esse tipo de conhecimento está aí para te ajudar e não para complicar o jogo. Um poeta que tem noção, que sabe o que é uma redondilha, que sabe escrever um decassílabo, vai saber, por exemplo, dar um ritmo para esse poema com mais facilidade. “Ah, vou colocar isso aqui no esquema de 10 sílabas, acentuar em não sei qual sílaba e compor a partir disso.” Então, poetas que têm um ouvido bom para isso, são as queens que sabem costurar. Mas também, assim, na hora do desespero, se você fez a sua roupa com cola quente e ela funcionou, beleza também. RuPaul’s Drag Race me faz pensar assim nas oficinas. Quando for dar oficinas de novo, talvez eu mude algumas coisas em função de RuPaul’s Drag Race. Acho que vai ser divertido.

CONTINENTE Como é sua relação com a música? Conta o que você costuma escutar e o que está no seu Spotify.
ANGÉLICA FREITAS Escuto umas coisas bem diferentes. No Spotify, estou ouvindo muito uma banda de krautrock dos anos 1970 chamada Can. Tenho ouvido também o Moondog, que era um cara norte-americano. Mas sempre volto para o Bob Marley e costumo pegar carona nas coisas que a Ju está ouvindo. Ela ouve muita música brasileira, de todas as épocas. Acho que fui bastante influenciada, porque, quando era novinha, ouvia muito The Smiths. Então, Morrissey, até ele começar a falar bobagem, era muito importante para mim. Por que você fez isso com a gente, Morrissey? (risos) As letras do Lou Reed, gostava muito, e as letras da Suzanne Vega. Para a música, infelizmente, sou bem- colonizada. Tento ouvir, faço um esforço para ouvir músicas que não sejam em inglês, mas acabo voltando para essa “língua franca do mundo”. Às vezes, no Spotify, estou ouvindo Moondog, fica na rádio dele e vem Laurie Anderson também. Gosto dessa função do playlist do Spotify porque acabo descobrindo várias coisas.

CONTINENTE Na live com a editora e poeta Alice Sant’Anna, você disse algo como: “Mesmo que não escrevam necessariamente sobre, a infância dos poetas pode dar muito pano para manga”. Você começou a escrever poemas ainda criança e a infância aparece em laranjal, série que abre o livro novo. Queria pedir para você contar algumas memórias desse momento de sua vida, que foi também o de sua descoberta da escrita.
ANGÉLICA FREITAS Eu comecei a escrever muito cedo. Tinha uns nove anos e foi porque ganhei uma enciclopédia de uma tia. Era para crianças e chamava-se Mundo infantil. Minha tia me deu porque eu gostava de ler. Era uma coisa que todo mundo na família tinha se dado conta logo. Não tinham muitos livros lá em casa. Minha mãe até gostava de ler. Tinham uns livros que eram do meu avô português, que ficaram lá em casa. Ele foi um cara que veio de Portugal com 13 anos. Sabia ler e fazer operações aritméticas, mas mais do que isso, não. Só que ele gostava muito de ler. Então, tinham esses livros portugueses, lá em casa. Meus pais me davam livros e essa tia também: “Ah, ela gosta de ler, então, vou dar essa enciclopédia para ela”. O primeiro volume era só de poemas, era uma enciclopédia americana traduzida para o português. Gostei tanto de lê-los, que comecei, naturalmente, a escrever os meus próprios poemas. Pedia para a minha mãe comprar cadernos e enchia-os de poemas sobre qualquer coisa, eu gostava muito disso. Acho que, desde pequena, trago uma zona de escrita em que era muito fácil escrever sobre qualquer coisa. Gostava de escrever poemas engraçados, porque, enfim, meu contato com poesia aos nove anos foi com poesia para crianças e, geralmente, tem um jogo de palavras, de sons, que, na verdade, acho que nunca me abandonou. Associo a escrita de poesia a esse tipo de alegria quase infantil, de você fazer um negócio e ficar feliz pelo que fez. Claro que, com o passar do tempo, as coisas foram mudando um pouco. No fundo, tem isso de, quando estou escrevendo, me sentir no meu elemento. É quando entro nessa zona de escrita. Essa coisa do humor, acho que vem daí, dos poemas que lia quando era pequena. Isso acabou ficando colado à ideia de poesia para mim. Quando era adolescente, escrevia umas coisas bem sérias, ou seja, muito sem graça. Mas depois eu me reencontrei. É louco isso, né? Eu vindo aqui para Berlim por causa de escrever poesia, dei-me conta de que é porque comecei a fazer isso quando era pequena. A poesia é uma presença mesmo na minha vida, é um negócio que nunca me abandonou. É louco porque é uma profissão muito diferente de ser advogada, arquiteta ou mesmo de uma pessoa da música. Não acho, assim, que tem uma demanda por poesia no mundo. As pessoas dão a entender que existe uma demanda por poesia, mas não sei se acredito nisso. Acho que faz parte, quando se é poeta, de escrever apesar de achar que talvez não tenha demanda para isso. É uma profissão, uma ocupação meio que você faz porque sim. Aí, você falou da infância. Acho que, com o passar do tempo, escrever poesia tem tudo a ver com a infância e como você era quando começou a aprender o que era o mundo e o que é a linguagem. Muito da força do que a gente escreve vem de situações da infância, desse período de descoberta. Acho que poeta tem a infância um pouco complicada, sempre. Não necessariamente infeliz, mas uma infância que não transcorre de um jeito muito suave. É uma infância com uma série de desconcertos. Pensando na minha, de eu me impressionar com o mundo, com as pessoas e, desde muito cedo, sentir que não fazia parte direito do que estava acontecendo. Eu sempre me senti muito deslocada do nível macro até o nível micro. Do universo até a festinha, sabe? Acho que uma pessoa 100% integrada ao mundo não é poeta. Tem que ter um defeito, um defeito de fabricação que te faz ir por esse caminho. É isso, um caminho de prestar atenção nas coisas e lidar com o que acontece, com os impulsos que recebe de uma outra maneira. Você transforma isso em outra coisa, é o que você faz.


Atualmente, a poeta mora na capital alemã, onde vive uma residência artística. Foto: Jasper Kettner

CONTINENTE Ainda sobre memórias, você fez a oficina de poesia de Carlito Azevedo. Queria que contasse como foi e se foi importante para você.
ANGÉLICA FREITAS Foi demais. Essa oficina do Carlito foi em 2005. Na época, eu estava com 32 (anos). Então, imagina, eu já vinha escrevendo desde os nove, só que, alguns meses antes, tinha começado a postar poemas em um blog. Já tinha contato com alguns poetas, mas não tinha ainda muita validação, digamos. Alguém dizer: “Isso aqui é bom”. Ou mesmo: “Para de fazer isso e vai fazer outra coisa da tua vida”. Mas fui para essa oficina do Carlito, que era de um dia só, no Sesc Consolação. “Vamos ver o que é isso de oficina de poesia.” Eu não sabia que era possível, na verdade. Daí, acabei escrevendo um poema lá, de que ele gostou muito (O que passou pela cabeça do violinista em que a morte acentuou a palidez ao despenhar-se com sua cabeleira negra & seu stradivárius no grande desastre aéreo de ontem, publicado posteriormente em Rilke Shake). Fiquei ao mesmo tempo surpresa e, ao mesmo tempo, não. Foi muito louco saber que ele gostou do poema, porque era uma coisa que eu vinha fazendo há muito tempo, mas não dava muita bola para isso. É como alguém que passasse a vida inteira desenhando e alguém chegasse: “Esse desenho que você pensa, pode expor”. Isso mudou o jogo, para mim. Nessa época, eu era jornalista. Fiz Jornalismo e pensava assim: “Gosto de escrever, vou fazer isso da minha vida”. A partir da oficina do Carlito, tive a nítida sensação de que não era jornalismo que tinha que fazer e, sim, poesia, que era o que eu já estava fazendo. É como se você desse a volta ao mundo para chegar à sua casa e dizer: “É aqui que sou feliz”. Eu me dei conta de que o que queria mesmo era escrever poesia. Aí, larguei meu emprego de jornalista e voltei para a casa da minha mãe em Pelotas (RS), para ficar só escrevendo poesia. Tendo uma vida de poeta. E nunca mais voltei para o jornalismo. Em fevereiro de 2006, pedi as contas e voltei para o Sul. Depois, acabei indo passar um tempo na Bolívia, porque tinha uma irmã que estava morando lá. Dei uma circulada, fui a alguns festivais da América do Sul. Fui ler na Argentina e acabei morando. Desde então, vivo essa vida de poeta. De volta para o início da conversa: “Como é que é ser poeta?”. Não sei, vou fazendo (risos). E é muito louco porque, desde que comecei a me dedicar só a isso, acho que fui altamente recompensada com as coisas que escrevi, com a recepção que os livros tiveram. Tanto o Rilke Shake (2007), quanto o Um útero (2012). Não fico pensando nisso, mas, quando penso, o impacto que esses dois livros tiveram… Nossa, que incrível. Não fiz pensando nisso. Será que tem algum poeta que pensa: “Quero ser um poeta famoso”? Isso é meio uma contradição, né? Poeta famoso vivo. Ah, tem algumas pessoas que são muito famosas na internet, mas não sei se é uma ambição ficar famosa com poesia. Teve umas épocas na minha vida em que eu não tinha dinheiro para nada porque as minhas economias acabaram. Morava com a minha mãe, depois fui morar na Argentina. Passei anos sem ter dinheiro para comprar livros. Acho que, quando voltei para o Brasil, em 2010, e comecei a traduzir livros, aos poucos, consegui me manter de novo. Mas é incrível, porque as coisas foram aparecendo. Sempre de uma forma bastante modesta, mas está dando certo até agora. E vou passar 12 meses em Berlim escrevendo, o que é um sonho. Antes disso, eu ganhei a bolsa da Petrobras, em que passei um ano pesquisando e escrevendo o Um útero é do tamanho de um punho. Vamos ver o que acontece aqui. Acho que é isso, dedico a minha vida a essa arte. Acho não, eu tenho certeza. É o que tenho feito e tem sido muito incrível, quando paro para pensar. Por causa da poesia, já viajei, já li na zona rural da Romênia, já fui falar em Harvard, duas vezes. Não fico pensando nisso, mas (a poesia) já me levou para muitos lugares.

CONTINENTE Antes de conversar com você, li um texto escrito pela poeta pernambucana Adelaide Ivánova, publicado no Suplemento Pernambuco, sobre Um útero é do tamanho de um punho. Nele, ela pontua dois momentos importantes que antecedem a escrita desse livro, que seriam a vivência com poetas e feministas argentinas e ter acompanhado uma amiga que faria um procedimento de aborto. Você poderia comentar esses dois pontos em relação ao livro?
ANGÉLICA FREITAS Acho que escrever sobre mulheres é uma coisa que aconteceria cedo ou tarde para mim, porque sempre foi uma questão. Eu sempre me senti estranha em relação a outras mulheres, agora já não tanto. Mas, digamos que, por eu ser lésbica, minha adolescência ter sido nos anos 1980, no interior do Rio Grande do Sul, e por não ter internet para entrar em contato com pessoas parecidas… De fato, eu não tinha nenhuma amiga lésbica, convivi muito com homens gays mais velhos e sou muito grata a eles por terem trazido alegria e magia para a minha vida. Talvez seja por isso que eu goste tanto de ver RuPaul’s Drag Race, na verdade. Lembro as minhas amigas bi lá de Pelotas, quando eu era adolescente. Elas me mostrando que uma outra vida era possível. Mas, assim, as mulheres sempre fizeram eu me sentir um elemento estranho por não ser parecida. Não dá para dizer de todas, mas as mulheres hétero que eu conhecia não eram muito legais. Eu também achava que, de um modo geral, as mulheres héteros faziam coisas para agradar os homens. Então, quando sofriam algum tipo de machismo, não falavam nada para não desagradar. Eu pensava: “Nossa, quando é que as coisas vão mudar?”. Na sequência, com esse incômodo, fui morar na Argentina. Aí, pela primeira vez, conheci mulheres que eram declaradamente feministas. Foi muito importante conversar com elas e mesmo identificar em mim o que é que tinha de misógino e machista. A partir dessas conversas e dessa convivência, eu me dei conta de que seria bom escrever sobre ser mulher. Na época em que tive essa ideia, falei com várias pessoas, várias amigas que não acharam uma ideia tão boa. “Como assim escrever sobre ser mulher?” ou “Você vai escrever sobre feminino?” Acho que não sacaram muito a proposta, mas tudo bem. Até aí, eu estava acostumada a não entenderem mesmo. Fiz um projeto para o Petrobras Cultural, foi aceito e fiquei escrevendo. Estava morando na Argentina, em seguida, voltei para o Brasil. Aí, fiquei nesse processo de escrita, meio desconfiada de como seria a aceitação desse livro no Brasil. Antes da Argentina, morei uns meses na Holanda, que também é outra história. Nessa época, uma amiga me ligou e disse assim: “Estou grávida”. Fui da Holanda para a Cidade do México, para acompanhá-la, para fazer um aborto. Na Cidade do México, pode fazer. É de graça, no centro de saúde pública. O centro abre às sete da manhã e acho que, às cinco, começam as filas. Todos os dias, umas 40 mulheres. A gente foi dois dias para conseguir fazer. Um pouco antes de abrir as portas, chegavam umas senhoras católicas. Nem eram evangélicas, eram católicas mesmo. Muitas delas iam falar com as meninas que estavam na fila para tentar dizer: “Não faz, não aborta”. Um pouco menos agressivo do que aconteceu com a menina de 10 anos (em agosto, no Brasil). Menos agressivo, mas muito violento também. Elas devem ter algum treinamento para conversar, porque era muito invasivo. Chegavam mostrando fotos de fetos em diferentes estágios de desenvolvimento. Dizendo: “Ah, se você quiser, pode morar numa casa da igreja e, quando o seu bebê nascer, vai para a adoção”. Pensando no corpo da mulher como numa maquininha de fazer bebê. Tinha gente muito jovem, algumas meninas se sentiam bastante incomodadas e iam embora. Tinham mulheres com os companheiros na fila também. Depois dessa abordagem inicial, elas ficavam na frente do centro de saúde com um megafone e rezando. Toda vez que eu saía para comer alguma coisa, elas vinham em cima, era muito agressivo. Aí, tu ficas te perguntando quem é que manda no teu corpo. Por que, afinal, uma mulher que não te conhece vai chegar e te dizer o que tu tens que fazer ou não? Por causa disso, também, pensei, deveria escrever sobre essa situação. E escrevi Um útero é do tamanho de um punho, que é um poema longo e dá título ao livro.

CONTINENTE Esse título é maravilhoso. Você chegou a pensar em não colocá-lo, não é?
ANGÉLICA FREITAS Eu pensei, porque ele era muito diferente de todos os títulos de poesia que eu conhecia no Brasil. Tem uma tendência a serem títulos bem sintéticos, alguma coisa bem “poética”, com viagem, um substantivo... Sei lá, chegar com Um útero é do tamanho de um punho, achei que era meio chocante para o Brasil, mas foi. Todo mundo que escreve um livro acaba ampliando um pouco a noção do que se pode fazer. Você dá uma contribuição para o jeito como se escreve poesia. Fico bem feliz, na verdade, que esse livro tenha sido muito lido e que, a partir dele, várias mulheres começaram a escrever sobre a sua própria experiência.

CONTINENTE Como é, para você, lidar com a repercussão, o sucesso e as críticas em torno desse livro?
ANGÉLICA FREITAS Não sei, acho que nem lido muito, na verdade. Não fico pensando nisso. Não consigo dimensionar muito. Fico feliz e também surpresa que ele tenha chamado tanta atenção, tenha sido tão lido e que tenha sido leitura no vestibular da UFSC (Universidade Federal de Santa Catarina). Alguns poemas caíram em outros vestibulares também. Ele já foi traduzido também. Estou lançando aqui em alemão, mas já foi traduzido para o espanhol, uma tradução argentina e uma mexicana, que foi publicada também na Espanha. Saiu em Portugal e está sendo traduzido para o inglês. Enfim, que exista esse interesse em outros lugares é uma coisa que não sei nem explicar. É demais, eu fico muito feliz.


A gata da poeta em expediente. Foto: Jasper Kettner

CONTINENTE Uma vez, um amigo seu chegou com o livro A teus pés (1982), de Ana Cristina Cesar, e a salvou de ser técnica em eletrônica. Esse episódio, inclusive, aparece num dos poema de Canções de atormentar. Como foi, para você, esse contato com a obra dela?
ANGÉLICA FREITAS A Ana Cristina Cesar caiu feito uma bomba na minha vida. Eu tinha 15 anos, já escrevia, e os meus colegas de escola sabiam que eu gostava de escrever. De fato, eu escrevia na sala de aula, não prestava muita atenção. Isso me fez “levar bomba” várias vezes. Poetas com pouca capacidade de concentração (risos). Muitos poetas, quando jovens, sofrem disso porque ficam devaneando e acabam tendo que processar de algum jeito as coisas que veem e sentem. Eu tinha uma ideia de poesia que também era marcada pelas leituras que fiz, quando era muito jovenzinha e também por ter lido o Quintana, o Drummond, a Cecília Meireles. Lia o que tinha na biblioteca da escola. Então, chega a Ana Cristina Cesar com essa carga de referências e outros escritores de quem eu nunca tinha ouvido falar. Era a coisa mais estranha que já tinha lido, até então. E, essa estranheza, eu comecei a tentar reproduzir naquilo que estava escrevendo. Não sei se teve outro poeta que teve tanto impacto no que escrevi, depois. Acho que não, não teve. Para mim, ela mudou tudo. Mudou o jogo.

CONTINENTE O Um útero é do tamanho de um punho é um livro que mudou o jogo para muita gente, sobretudo, para muitas mulheres. O que esse livro e os poemas dele significam para você, Angélica?
ANGÉLICA FREITAS Não esperava que fosse ter essa repercussão toda. Ter escrito esse livro me mostrou que escrever poesia também é uma investigação do mundo e da linguagem, e me renovou a crença na potência da poesia, na capacidade de fazer diferença no mundo. E isso é maravilhoso.

CONTINENTE Além de Ana C., quais poetas têm comunicação forte com o seu trabalho? Quais influenciam a sua poética?
ANGÉLICA FREITAS Ledusha, Sylvia Plath, Susana Thénon, mas também fui muito influenciada pela música. Grupo Rumo, Itamar Assumpção, Tom Zé, Rita Lee, Lou Reed, Cole Porter e por um disco específico de uma banda uruguaia, La Tabare Riverock Banda, intitulado Rocanrol del Arrabal (1989), que descobri em um verão viajando de carona pelo Uruguai, quando tinha uns 20 e poucos anos. Ainda é um dos meus discos favoritos de todos os tempos. Devo estar me esquecendo de muita coisa aí. Acho difícil fazer listas de influências, porque gostar muito não significa ser influenciada. Mas esses que citei me modificaram com certeza.

CONTINENTE Nos seus três livros, existe uma espécie de convivência entre elementos culturais relacionados aos cânones e a procedimentos poéticos mais formais, convivendo bem com elementos da cultura pop, mainstream e procedimentos mais livres. Oralidade e escrita se fundem de uma maneira muito sua. De que forma você percebe esse trânsito?
ANGÉLICA FREITAS A cultura pop é muito importante para mim. Difícil seria deixá-la de fora dos poemas. Quero dizer, nunca pensei em deixá-la de fora. É engraçado, mas cheguei a poetas como o W. H. Auden por meio da cultura pop, dos filmes, da música. Um poema do Auden é lido no filme Quatro casamentos e um funeral (Mike Newell, 1994), e foi assistindo a esse filme que fiquei sabendo que ele existia. William Blake, eu também conheci por meio de outro filme, The Rachel papers (Damian Harris, 1989). O nome Sylvia Plath, ouvi pela primeira vez numa canção da Shawn Colvin. E por aí vai.

CONTINENTE Você tem traduzido ou pensa em traduzir algo recentemente?
ANGÉLICA FREITAS Talvez traduza alguma poeta alemã. A ver.

CONTINENTE Para terminar, o que tem feito você feliz nestes dias?
ANGÉLICA FREITAS Ah, o que me faz feliz é acordar e saber que vou tomar um café e escrever (abre um sorriso). E também saber que, aqui, posso sair para a rua, que era uma coisa que não dava para fazer no Brasil. A realidade aqui é bem diferente. As pessoas estão tendo cuidado de usar máscara no transporte público e nos mercados, mas, de resto, você pode sair, andar no parque e encontrar pessoas, não muitas. Então, eu me sinto um pouco mais livre e mais feliz aqui. 

CONTINENTE Obrigada, Angélica!
ANGÉLICA FREITAS Obrigada!

ERIKA MUNIZ, jornalista e graduada em Letras.


Extra: Angélica Freitas recita ElefantinhosCruzeiro

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