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Curtas

Partida

De São Paulo a Montevidéu: a utopia de um momento com Mujica

TEXTO Luciana Veras

03 de Agosto de 2020

Longa é dirigido por Caco Ciocler e desde junho está disponível nas plataformas de 'streaming'

Longa é dirigido por Caco Ciocler e desde junho está disponível nas plataformas de 'streaming'

Imagem FRAME DO FILME 'PARTIDA'/PANDORA FILMES/DIVULGAÇÃO

[conteúdo na íntegra | ed. 236 | agosto de 2020]

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“O que é o cinema?”, indagava André Bazin, um dos próceres da crítica cinematográfica francesa, na cada vez mais longínqua década de 1950. Qu’est-ce que le cinéma?, era a pergunta original a reverberar para além das páginas da Cahiers du cinéma, e desde então milhares de pessoas, entre realizadores, críticos, pesquisadores e filhos da cinefilia, tentam respondê-la, talvez inclinados a considerar o cinema, essa entidade mágica mitificada por Bazin, maior até do que a própria vida. Bem, décadas se passaram e a pergunta segue em seu esplendor de mistério, sem uma resposta categórica (ainda bem), e firme e forte como combustível para projetos ousados, que desafiam convenções e buscam, de propósito, embaralhar gêneros e rótulos. Parafraseando Bazin, o que é Partida (Brasil, 2019), o segundo longa-metragem dirigido por Caco Ciocler e desde junho disponível nas plataformas de streaming como Now, Vivo Play, Looke e Filme Filme?

No material de imprensa, essa realização da Cisma Produções, distribuída pela Pandora Filmes (e lançada em VOD em parceria com o Canal Brasil), é descrita como “documentário” e sua trama poderia ser resumida da seguinte forma: no Brasil, logo após as últimas eleições presidenciais, a atriz Georgette Fadel decide se lançar como candidata e, para tanto, se junta a amigas e amigos em uma viagem de ônibus até o Uruguai, com o sonho de encontrar o ex-presidente Pepe Mujica. Isso é fato, como o próprio diretor revela à Continente. “Eu quis fazer essa viagem com um casal de amigos, ir até o Uruguai fazia parte do meu imaginário, e aí quando a Georgette soltou isso, que queria se candidatar, a ideia voltou”, explica.

Logo no início da narrativa, áudios trocados no aplicativo WhatsApp entre Caco e Georgette atestam isso. “Eram conversas que aconteceram de verdade, antes de a gente dar a nossa ‘partida’ no projeto. A ideia inicial era irmos eu e ela e tudo que fosse preciso para o filme acontecer minimamente. Mas aí o Vasco Pimentel topou fazer o som, a minha namorada queria ir, a da Georgette também, as coisas foram surgindo e tudo foi se juntando. De um carro, passamos para dois, depois três carros, uma kombi e depois virou um ônibus. E, de fato, íamos conversando sobre sua feitura enquanto aquela viagem ia acontecendo. O objetivo era chegar lá no dia 31 de dezembro e tentar falar com o Mujica”, comenta o cineasta.

Toda essa combinação se deu no breve intervalo de tempo entre o segundo turno vencido por Jair Bolsonaro e o mês que findaria o fatídico ano de 2018. “Agora está tudo muito revelado: não era uma loucura nossa, dos democratas e das pessoas de esquerda, que esse homem era um assassino. E agora que tudo isso está confirmado de uma maneira surreal, o filme toma uma proporção quase como uma profecia sinistra, macabra até, com tudo isso que estamos vendo na pandemia”, relembra Georgette, atriz com vasta experiência no teatro e vista recentemente em O banquete, de Daniela Thomas.

Indagada sobre se é fato ou invenção que quis se candidatar, ela, falando por telefone de um sítio no interior de Minas Gerais, responde com rapidez: “Sim, é verdade, ele ganhou o segundo turno e eu disse a alguns amigos ‘gente, eu estou me candidatando, sei exatamente o que fazer e quero ir até o Uruguai’. O Caco soube, me ligou e disse ‘muito bem, vamos encontrar o nosso herói Mujica’. Então, juntamos as propostas e fomos. Acho que a despretensão é um grande atributo do filme, que é uma crônica daqueles dias de viagem, um pouco como uma brincadeira de artistas, meio mambembe até, mas falando de coisas sérias, com o coração aberto para conseguir captar as nuances sem esconder as nossas fragilidades. Por exemplo, quando fechamos a porta do ônibus e começamos a viagem, somos uma equipe branca, formada por empresários e artistas burgueses, todos nós guiados por Jefferson, um motorista negro. Somos parte do racismo estrutural do país. Não adiantava negar”.


Ao longo da jornada, embates ideológicos surgem entre o empresário Leo e a atriz e aspirante à presidência Georgette. Imagem: Frame do filme/Pandora Filmes/Divulgação

Partida documenta essa viagem de São Paulo até Montevidéu, mas em sua tessitura dramática estão elementos performativos, colocados ali para borrar as franjas entre documentário e ficção. Tão logo o grupo embarca, começam os embates ideológicos entre Georgette e Léo Steinbruch, um empresário e produtor que se juntou àquela intrépida trupe a convite de Caco Ciocler. “O jogo que propus a Leo, um amigo empresário que tinha sido ator na juventude, mas que eu já não via há mais de 20 anos, era que ele fosse na viagem para reforçar alguns traços de maneira dramatúrgica, para a gente poder botar para fora algumas coisas mais interessantes, já que ele era o diferente de todos ali”, recorda o diretor.

Entre uma discussão e outra, à medida que os dias passam e a fronteira Brasil-Uruguai se avizinha, forja-se uma aliança entre Leo, o empresário a representar o capital, e Georgette, a atriz que anseia concorrer à presidência. “O Leo é um empresário grande e quando você pergunta sobre definições básicas de comunismo, ele não sabe falar. A campanha anticomunista foi uma coisa profunda e hoje em dia no Brasil você não pode nem falar essa palavra, quando na verdade isso faz parte da disputa entre esquerda e direita e das diferenças entre duas visões de mundo, uma que prega a exclusão e outra que pensa na inclusão de todos”, observa Georgette. “Durante a montagem, fomos percebendo que essas discussões representavam uma camada que exporia a própria feitura do filme. O caráter performativo daquelas discussões intermináveis, sabe, a clareza da viagem como uma experiência de transformação coletiva... Quisemos colocar o filme no divã”, amplifica Caco.

A utopia de um momento com Mujica é o motor de Partida. Não importa se o registro é documental ou se o enredo é ficcional, a construção das relações entre aquelas pessoas e a esperança – algo tão caro e, ao mesmo tempo, tão em falta ante uma catástrofe – da jornada dão liga e força ao filme. “Você pode não ler o filme como um documentário, pois tem uma história por trás, mas filmamos como um documentário e acredito que é essa parte do cinema documental, ou híbrido mesmo, que permite a beleza de se percorrer o caminho sem saber onde vai dar. Qual vai ser o caminho para nos levar até Mujica? Não sabemos, mas vamos dando os passos e aí constituímos o caminho”, pontua Julia Zakia, que dividiu com Manuela Rabinovitch a direção de fotografia do filme.

Julia é amiga de Georgette Fadel, que é madrinha de sua filha, Luiza, e a sua presença ali é mais uma evidência de que, para além da intersecção entre gêneros cinematográficos ou da célebre pergunta a André Bazin, Partida é sobre afetos. Caco e Georgette já se conheciam, Julia e Manuela também, várias pessoas ali compartilham vínculos de amizade de outrora; de repente, tudo desemboca em dias e noites num ônibus, rumo a um país vizinho e sem nada acertado com Pepe Mujica, mas com aquela estranha mania de ter fé na vida, apesar – ou talvez até por causa – das suas assimetrias. Nas cenas em que aparece, Luiza, a única criança em meio aos adultos, é como um sopro, um antídoto contra o desespero ou, ainda, como diria Gilberto Gil, a certeza de que ter ido fosse necessário para voltar. 

LUCIANA VERAS é repórter especial e crítica de cinema da Continente.

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