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Resenha

'Bacurau' e um Brasil distópico

Uma análise do longa de Kleber Mendonça Filho e Juliano Dornelles, premiado em Cannes

TEXTO MARIANE MORISAWA, DE CANNES*

03 de Julho de 2019

Elenco conta com Sônia Braga (ao centro), que foi protagonista de 'Aquarius'

Elenco conta com Sônia Braga (ao centro), que foi protagonista de 'Aquarius'

Foto Divulgação

[conteúdo na íntegra | ed. 223 | julho de 2019]

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Os bons filmes são um instantâneo da vida em seu tempo, capturando desde seus espaços até comportamentos e modos de pensar. Mas há aqueles que conversam com sua época de tal maneira, que parecem uma reação direta ao que está acontecendo exatamente agora. Claro que um longa demora anos para ser desenvolvido, então é como se seus realizadores tivessem se munido de uma bola de cristal. É o caso de Bacurau, de Kleber Mendonça Filho e Juliano Dornelles, que dividiu o Prêmio do Júri com o francês Les misérables, de Ladj Ly, no último Festival de Cannes, uma edição histórica para o Brasil, com A vida invisível de Eurídice Gusmão, de Karim Aïnouz, levando o troféu principal da mostra Um Certo Olhar.

Bacurau parece tanto um retrato do clima distópico do Brasil sob Jair Bolsonaro quanto um chamado às armas, à resistência. Mas a eleição foi só em outubro de 2018. As filmagens terminaram em maio do ano passado, 12 meses exatos antes da exibição em Cannes. E a ideia inicial surgiu em 2009, depois que KMF e Dornelles participaram de um festival de cinema no Brasil e se incomodaram com a convivência tensa e desconfortável entre membros da elite cultural e os objetos de documentários, em geral, pessoas simples que ali estavam completamente fora de seu espaço, sendo tratadas em geral com condescendência.

Bacurau é o nome de uma vila fictícia no sertão pernambucano, “daqui a alguns anos”. Teresa (Bárbara Colen, que fez a Clara jovem em Aquarius) volta à sua terra natal com uma mala de remédios, artigo em falta, de carona num caminhão-pipa, já que a água é escassa depois da construção de uma barragem com aprovação do prefeito Tony Jr. (Thardelly Lima). A avó de Teresa, Dona Carmelita (Lia de Itamaracá, que participou do curta Recife frio, lançado por Kleber Mendonça Filho em 2009), a matriarca local, acabou de morrer. As cenas de seu velório e funeral são marcantes, da passagem da mala com os remédios sobre as cabeças da pequena multidão que toma todos os cômodos da casa ao reencontro da neta com a avó já morta, aos ataques alcoolizados da médica local, Domingas (Sonia Braga), à defunta, o uso de uma misteriosa erva psicotrópica e um cortejo embalado por Bichos da noite, de Sérgio Ricardo, que diz “São muitas horas da noite/ São horas do bacurau”.


O filme dividiu o Prêmio do Júri com o francês Les misérables, no último Festival de Cannes. Foto: Divulgação

Em sua primeira parte, Bacurau, o filme, mergulha naquele vilarejo e seus personagens cheios de cor e vida, com certa dose de excentricidade. Pacote (Thomas Aquino) é o matador local, astro de coletâneas de vídeos de câmeras de segurança com seus crimes, que prefere agora ser chamado de Acácio. Lunga (Silvero Pereira) é o/a bandido/a lendário/a, que não se conforma às normas de gênero, perseguido pela polícia e visto como herói da resistência por grande parte da população. Há as prostitutas, pessoas trans, o DJ local, responsável pela divulgação das notícias, o professor, pai de Teresa. É ele quem se dá conta primeiro de que a cidade sumiu do Google Maps. Outras coisas atípicas começam a acontecer: uma família inteira é assassinada numa fazenda, uma dupla de motoqueiros/forasteiros vindos do Sudeste (Antonio Saboia e Karine Teles) aparece do nada, paramentada da cabeça aos pés, até um disco-voador sobrevoa a região.

O alemão Udo Kier também surge como o misterioso Michael – e ninguém em sã consciência vê o ator num filme e não acha que as coisas vão ficar muito doidas. E é aí que o longa envereda de vez pelo cinema de gênero, transitando do western ao terror, da ficção científica ao filme de cangaço, com elementos satíricos e distópicos, deixando claras as influências de John Carpenter, Os sete samurais, de Akira Kurosawa, de filmes de sertão brasileiros, um pouco de Mad Max, um tanto de Sam Peckinpah e Sergio Leone, e alguns aromas de filmões comerciais quase B, como Rambo. Tudo isso numa mistura de muita personalidade e surpresas a cada curva da estrada.

GÊNERO
Por seu abraço descarado ao cinema de gênero, Bacurau parece, à primeira vista, muito distante dos longas anteriores de Kleber Mendonça Filho, O som ao redor e Aquarius – Juliano Dornelles, que aqui divide o crédito de direção, foi designer de produção nos dois. Mas a verdade é que o gênero sempre esteve presente na obra do autor em maior ou menor medida, desde seu primeiro curta, Enjaulado (1997), que retrabalha a influência de John Carpenter e Brian de Palma para a capital pernambucana como microcosmo do Brasil, com suas grades, fechaduras e cadeados e o medo constante da violência. A menina do algodão (2003), baseado num mito urbano, e Vinil verde (2004), inspirado numa fábula russa, usam elementos do terror para também tratar do medo. Recife frio (2009) é uma ficção científica que discute o espaço urbano quando a cidade misteriosamente fica gelada.

Mesmo O som ao redor e Aquarius têm elementos de gênero na sua construção e na maneira como foram filmados. O primeiro com um misto de terror e thriller no medo constante que paira, mesmo quando as pessoas se fecham atrás das grades – a impressão é a de que algo terrível pode acontecer a qualquer momento, o que reflete a insegurança de quem vive nas cidades brasileiras.

Fora isso, sua narrativa termina em surpresa e revelação de uma trama de vingança que transfere para a metrópole uma das marcas do western (e do cangaço real). No segundo há uma ameaça constante a Clara (Sonia Braga), a única mulher que resiste ao avanço de uma construtora sobre o edifício que habita, representada principalmente pela falsa simpatia de Diego (Humberto Carrão).

Longa é um western que coloca em xeque a ideia de que o interiorano é vítima indefesa. Foto: Divulgação

A atmosfera tensa também se reflete nos pesadelos, que frequentemente mostram invasões, seja a horda de corpos que ultrapassam muros, numa onda incessante, como a dos zumbis em O som ao redor, ou a porta que se abre e a empregada que roubou e vaga pela casa como assombração, em Aquarius. Em ambos, os sonhos refletem as inseguranças que temos quando estamos de olhos abertos. Em Bacurau, a invasão em pesadelo é mais poética e adequada a um western.

PASSADO E PRESENTE
Tematicamente, também, Bacurau conversa com os filmes anteriores de Kleber Mendonça Filho. Uma das marcas de seu cinema, como já apontou o crítico e professor Ismail Xavier, é congregar o passado e o presente, ou melhor, a presença do passado no presente – algo de forma geral raro nas narrativas brasileiras e ainda mais fundamental quando a correlação não é percebida ou conhecida pelos cidadãos do país. A História, aquela que era escrita com “h” maiúsculo para diferenciá-la das histórias que criamos e contamos, fundamenta sua obra, mas nunca de forma isolada, jamais como lição de um professor ruim.

O som ao redor e Aquarius, não à toa, começam com fotos de arquivo, o primeiro, das casas-grandes e senzalas que marcam as relações pessoais, de trabalho, de classe, de raça no Brasil até hoje; o segundo, de uma praia da Boa Viagem ainda desprovida dos edifícios imensos, modernosos e sem caráter que bloqueiam precocemente o sol de quem está na areia.

Em Bacurau, as fotos de arquivo de Lampião e seu bando mortos, cabeças expostas de maneira cruel para garantir sua extinção, apontam para um passado em que a resistência é esmagada. Não é o único elemento do cangaço a aparecer no longa-metragem: Lunga (Silvero Pereira) reúne em si a mítica do homem procurado pela polícia por crimes cometidos, que é, no entanto, protegido pela população por tentar defendê-la de quem só a prejudica.

Bacurau é o nome de uma vila fictícia no sertão pernambucano. Foto: Divulgação

O cangaceiro, afinal, sempre foi uma figura ambígua: bandido para uns, herói para outros, até porque os grupos se dividiam mesmo. Alguns eram como jagunços que ofereciam proteção aos latifundiários. Outros eram resistência aos latifúndios e à vingança da violência do processo de aglomeração de terras pelos coronéis, algo que se perpetua até hoje. Mas Lunga é o que seria um cangaceiro no século XXI: no lugar das paramentadas roupas de couro, um visual de gênero indefinido e fluido.

EXPANSÃO
Bacurau representa uma expansão da relação entre exploradores e explorados, entre opressores e oprimidos, entre senhores de engenho e escravos (ou vassalos). Em O som ao redor, Francisco (W.J. Solha) era o senhor de engenho transplantado da fazenda decadente para a cidade. Ele perdeu parte da fortuna, mas não a majestade. Ainda assim, é muito mais rico do que a maior parte das pessoas e tem quase todas as propriedades da rua – o filme é um microcosmo literal de Pernambuco e, com uma diferença aqui e outra ali no processo histórico, do Brasil. As relações com os subalternos são marcadas pela falsa cordialidade, desde que, claro, cada um fique no seu quadrado, e os trabalhadores aceitem sua condição de explorados sem reclamação.

Seu neto João (Gustavo Jahn) é um cara bacana, parece, mas demonstra em pequenas atitudes que é herdeiro também nos costumes do antigo engenho. A cena da cachoeira de sangue não poderia ser mais explícita em sua simbologia: a posição e a riqueza da família foram construídas pela exploração de outros seres humanos, com violência, se for o caso.

A rua sofre de vez em quando com furtos, como o rádio do carro de Sofia (Irma Brown), a nova namorada de João. Por isso, a chegada de Clodoaldo (Irandhir Santos), que oferece proteção, é mais do que bem-vinda. É um arranjo comum no Brasil, onde não vale chamar a polícia para procurar quem roubou o rádio, muito menos contar com ela para a segurança do bairro. Clodoaldo também é herdeiro do cangaço, curiosamente tanto daquele que protege quanto aquele que resiste ao latifundiário-coronel-senhor de engenho. A sensação de insegurança das metrópoles brasileiras aparece também em Enjaulado, em Eletrodoméstica e em Recife frio, com o shopping servindo tanto de abrigo do frio (em vez do calor, como de hábito), quanto de espaço de proteção.

RESISTÊNCIA
Assim como O som ao redor, Aquarius se concentra praticamente no edifício que dá nome ao filme. Clara é vítima de uma elite econômica de raízes certamente antigas – os donos da construtora se comportam e são senhores de engenho antigos, só que agora no ramo imobiliário. Seu único caráter, como ela diz, é o dinheiro. Mas Clara não é uma pobre trabalhadora explorada. Ela tem recursos, como deixa claro quando fala com seus filhos sobre sua recusa de vender o apartamento para construção de mais uma das torres sem caráter de Boa Viagem. Ela almoça no tradicional e caro Restaurante Leite. Ela tem como recorrer a pessoas poderosas para resistir aos poderosos. Mas, como Diego faz questão de dizer, Clara não tem “berço”, ou seja, não vem de riquezas centenárias, mas de novas riquezas, o que deve ter sido difícil, ele continua, por sua família ser morena.

Clara também replica as relações de cordialidade entre patrões e funcionários com sua empregada Ladjane (Zoraide Coleto), que mora na Brasília Teimosa, igualmente à beira-mar, mas do lado de lá do rio de esgoto correndo pela areia em direção ao oceano, ou seja, “do lado pobre”. Uma divisão feita por um rio de esgoto dá bem a medida do que é a elite no Brasil. As relações complexas entre patrões e empregados quase da família, desde que se mantenham em seu lugar, já são mostradas também no Recife frio, por exemplo, a sátira em que a funcionária da casa é obrigada a trocar seu desconfortável quarto de empregada pelo cômodo do menino, o sinhozinho, que é mais frio.

RUMO AO SERTÃO
Bacurau se muda para o interior – e essa é provavelmente a maior diferença em relação ao conjunto do trabalho de Kleber Mendonça Filho, sempre localizado no Recife. Isso era necessário, pois a ideia era fazer um western – e este western subverte as noções de que a gente simples do interior é vítima indefesa. Ali se replicam algumas outras estruturas ancestrais da sociedade brasileira, com o coronel-político na forma de Tony Jr., que é filho e talvez neto de outros coronéis-políticos que pouco fizeram pelo seu povo. É ano de eleição, então Tony Jr., que tomou a água de seus eleitores, tenta comprá-los com livros velhos, remédios viciantes e comida vencida. Mas Bacurau, o povoado, resiste.


Filmagem fora do cenário urbano diferencia Bacurau dos filmes anteriores de Kleber Mendonça. Foto: Divulgação

A invasão desta vez é estrangeira, de senhores de engenho paulistanos, cariocas e americanos que veem pouco valor nas vidas dos habitantes primitivos dali, um mosaico de pessoas sem recursos financeiros, mas cheias de caráter. E de memória – outro tema já abordado em Aquarius, em que Clara buscava a preservação de suas memórias pessoais e de uma cidade que teima em destruí-la. Aqui se trata da memória de um povo. O museu que forasteiros (sejam eles do Sudeste ou do exterior) não visitam é motivo de orgulho local. Guarda a história com “h” maiúsculo de luta e resistência e oferece, como a história com “h” maiúsculo costuma oferecer, um caminho de sobrevivência, liberdade e dignidade.

ESPELHO
Com O som ao redor, Kleber Mendonça Filho documentou a ascensão da classe média nos governos Lula, representada no longa-metragem por Bia (Maeve Jenkins), a dona de casa cheia de eletrodomésticos (como a do curta), enjaulada em seu apartamento com grades, entediada e irritada com o cachorro do vizinho. Aquarius é a resistência de uma mulher e saiu bem no momento em que a presidenta Dilma Rousseff sofria o processo de impeachment – que a equipe do filme denunciou como um golpe nas glamourosas escadarias do Palais des Festivals em Cannes. As represálias vieram fortes. Agora, como disseram Kleber Mendonça Filho e Juliano Dornelles, o protesto é o filme e vem bem a calhar neste momento de desesperança e descaminho. As músicas que embalam Bacurau são de Geraldo Vandré e Sergio Ricardo, símbolos da resistência durante a ditadura militar. Como Bacurau, o vilarejo, e apesar de tudo, é preciso resistir.

MARIANE MORISAWA é jornalista apaixonada por cinema. Vive a duas quadras do Chinese Theater, em Hollywood, e cobre festivais.

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