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Crítica

Romances com imagens

O uso da fotografia como recurso narrativo em autores como o alemão W. G. Sebald, o francês Marcel Cohen e a norte-americana Nicole Krauss

TEXTO KELVIN FALCÃO KLEIN

01 de Dezembro de 2018

Em 'A cena interior. Fatos', Marcel Cohen utiliza retratos e imagens de objetos para tornar mais visível um passado traumático

Em 'A cena interior. Fatos', Marcel Cohen utiliza retratos e imagens de objetos para tornar mais visível um passado traumático

Foto Reprodução

[conteúdo exclusivo para assinantes | ed. 216 | dezembro de 2018]

É possível dizer que a história da fotografia é acompanhada muito de perto pela história da literatura, pelas biografias e obras de autores e autoras. A curiosidade pela figura do autor é alimentada e tornada possível pela chance de ver seus retratos. Basta pensar na trajetória do célebre e pioneiro fotógrafo Nadar, nascido em 1820 e morto em 1910, autor de icônicos retratos de Baudelaire, George Sand, Zola, Flaubert. Não demorou para que a literatura absorvesse a fotografia como mais uma ferramenta narrativa disponível: o belga Georges Rodenbach publica, em 1892, o romance Bruges-la-morte, história de um viúvo que se isola na cidade de Bruges para lamentar a perda da esposa, rodeado de relíquias – suas cartas, suas roupas, uma trança de seu cabelo, seus retratos. Rodenbach incorpora ao romance 35 fotografias em preto e branco, a maioria composta de imagens ilustrativas da cidade que dá nome ao livro.

A virada do século e suas primeiras décadas oferecem uma intensificação da produção e do consumo de imagens, desde o cinema até as revistas ilustradas, o já conhecido processo da “reprodutibilidade técnica” diagnosticado por Walter Benjamin. Em 1926, Louis Aragon publica O camponês de Paris, e André Breton, em 1928, publica Nadja, dois romances que são marcos não só do Surrealismo, mas também dessa nova vertente literária que são os romances com fotografias. Aragon inaugura também, no interior do romance, a reflexão acerca da imagem incorporada à narrativa, quando escreve: “O vício chamado Surrealismo é o emprego desregrado e passional da estupefaciente imagem, ou melhor, da provocação sem controle da imagem por ela mesma”.

As turbulências sociais e políticas dessas primeiras décadas do século XX, culminando com a Segunda Guerra Mundial, geraram um fluxo de migração, traumas e memórias. Todos esses elementos ficaram registrados em fotografias, objetos, relatos, diários, reportagens e testemunhos os mais diversos. É desse substrato que o escritor alemão W. G. Sebald (1944-2001) vai retirar material para suas narrativas, responsáveis por uma renovação e uma transformação no uso de imagens na literatura. Sebald utiliza em seus romances uma vasta quantidade de imagens, das mais variadas fontes e qualidades – desde cartões-postais até fotografias de fachadas, passando por reproduções de pinturas, fragmentos de artigos de jornais, fragmentos de bilhetes e anotações em diários, e assim por diante.

Esse é um procedimento narrativo que Sebald apresenta em seus quatro romances publicados: Vertigem, de 1990, Os emigrantes, de 1992, Os anéis de Saturno, de 1995, e Austerlitz, de 2001.

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