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Portfólio

Mônica Rodrigues Fernandes

Quase nenhum elemento

TEXTO Erika Muniz

01 de Dezembro de 2018

Na série 'Invasões', Mônica Rodrigues interfere no ambiente na busca por delicadeza em meio à brutalidade

Na série 'Invasões', Mônica Rodrigues interfere no ambiente na busca por delicadeza em meio à brutalidade

Foto Mônica Rodrigues Fernandes/Divulgação

[conteúdo na íntegra (degustação) | ed. 216 | dezembro de 2018]

A primeira vez
que Ferreira Gullar tomou conhecimento da obra de Iberê Camargo foi em sua juventude, quando ainda morava em São Luís do Maranhão. Na década de 1940, através de um exemplar da revista Esso, a paisagem urbana da Glória, no Rio de Janeiro, representada pela pintura do artista plástico, revelou-lhe uma linguagem possível. “Pois bem, jamais imaginaria, então, que aquele pintor iria, no futuro distante, tornar-se meu amigo”, chegou a escrever o maranhense, que anos mais tarde teria um retrato seu pintado por quem ele tanto admirara. Na série Carretéis, Iberê alcança, talvez, suas criações mais emblemáticas, quando produz variações em torno do objeto de costura utilizado por sua mãe, que servia de brinquedo durante sua infância, no Rio Grande do Sul.

Mônica Rodrigues Fernandes é outra artista nascida em São Luís do Maranhão. No entanto, quando ela tinha apenas seis meses, sua família mudou-se para o Recife e por isso se considera pernambucana.

Desde 1998, escolheu São Paulo para morar. Além da arte, ela envereda pelos campos da cenografia, do design e da fotografia. Assim como seu conterrâneo poeta, cultiva o deslumbre pela obra de Iberê Camargo, na qual se aprofundou enquanto desenvolvia pesquisas em Porto Alegre. Através da fundação dedicada ao artista gaúcho, ela entrou em contato com objetos que fizeram parte do seu universo, suas prensas e obras, especialmente, as referentes a Carretéis.

Dessa imersão, à época, acordou no meio da noite para rabiscar o projeto de seu primeiro banco cúbico, cujo título Carretel é uma confessa homenagem ao gravurista gaúcho. Nesse projeto, e em seus desdobramentos, Mônica propõe o uso de madeiras de reutilização, encontradas em caçambas e restos de obras. Aliás, conferir possibilidades de destinos a sobras de materiais é característica recorrente em suas criações.


No banco Metrópole, a artista presta uma homenagem a São Paulo e, no Carretel, a Iberê Camargo. Foto: Divulgação

Após Carretel, ela criou Cubo, Metrópole – na qual homenageia São Paulo –, e Machado, cuja forma apresenta um cálculo preciso de como seria o corte de um machado num cubo. Por essas peças projetadas para madeira de reutilização, além de outras como as luminárias Lumi 01 e Lumi 04 (ver galeria no fim do texto), a artista foi um dos três nomes brasileiros associados ao livro do Design sustentável up-cycle!, de Narelle Yabuka. A publicação norte-americana seleciona 100 projetos de designers de todo o mundo que desenvolvem peças a partir de materiais reciclados.

Seja na fotografia, na cenografia, no design ou na arte, um traço alinhava todas as obras de Mônica Rodrigues Fernandes: o vezo por elementos comuns a ambientes em construção. Preservando o rigor, seus trabalhos lidam com lascas de madeira, fios, paredes irregulares, tapumes e até móveis castigados pelas marcas do tempo, como se ela priorizasse a arqueologia de cada lugar e de cada objeto. A tudo isso é capaz de unir, num mesmo ambiente, elementos sofisticados e contemporâneos. Formas geométricas são constantemente evidenciadas em diferentes trabalhos da artista.

Sobre outras referências, ela destaca o neoconcretismo de Lygia Clark e Helio Oiticica, o brutalismo de Paulo Mendes da Rocha e a arte do pernambucano Macaparana, radicado em São Paulo, além das vivências com o pai, o arquiteto e engenheiro Naldo Paiva Cruz. Quando criança, ambos costumavam fotografar as crateras da lua, o que, possivelmente, foi um dos primeiros estímulos para seu olhar afiado diante de texturas. Mônica se divertia nas visitas aos canteiros de obras e parques industriais nos quais seu pai trabalhava pelo Nordeste. “Meu guia era o mestre de obras José Amaro, que me mostrava tudo o que sabia sobre os tijolos e a areia. Eu adorava aquilo”, relembra. Aos nove anos, ganhou sua primeira câmera analógica, uma Love; desde então, não parou de fotografar os detalhes. Depois teve uma Pentax K1000, até se render a outras possibilidades com o equipamento digital.

“Há belezas que a velocidade da vida acaba deixando passar despercebidas. Talvez por isso, eu goste tanto dos detalhes. Me sensibiliza estar num dia cheio de coisas para fazer e, no meio disso, conseguir contemplar cores que encontrei em camadas de uma parede, imaginar que história aquilo carrega”, afirma. A arte urbana e o pixo provocam a admiração da artista, do ponto de vista político e sociológico. “O pixo é uma forma lindíssima de ocupação da cidade e de mostrar que existe uma classe social coexistindo. De que forma, a não ser servindo às casas, a periferia estaria nos Jardins e na Avenida Paulista? O pixo vai para os altos dos prédios, lugares onde a própria sociedade muitas vezes não está. Respeito e conheço muitos pichadores. De Paraisópolis, o Vinícius Caps, admiro muito.”


A figura humana, quase sempre ausente em seus trabalhos, aparece em Sombras da Paulista (2009). Foto: Mônica Rodrigues Fernandes/Divulgação

FOTOGRAFIA, FRAGMENTOS
O olhar apurado de Mônica Rodrigues se expressa também na série Demolição concreta, cujas fotografias retratam fragmentos de ambientes em processo de demolição pelas metrópoles, numa ostensiva busca por retângulos, quadrados e outras formas geométricas. Há 12 anos, a série segue em produção, pois a cada espaço que visita, ela encontra novas possibilidades. Por conta do grande volume de fotos, quando participa de uma exposição com essa série, Mônica seleciona um número de acordo com cores, materiais dos objetos retratados ou formatos predominantes.

Apesar de geralmente não haver pré-produção em suas fotografias, já que prefere lugares “prontos”, na série Invasões, a artista experimenta interferir no que está posto. Uma das imagens, que retrata um carrinho de mão encontrado num ambiente de obras, a intervenção se dá a partir de bexigas de festa colocadas como carga. Esse trabalho é uma espécie de síntese das criações de Mônica, visto que evidencia sua busca por delicadeza e leveza em meio a brutalidades.


Na série de fotografias Interiores, a artista busca provocar
sensações no público. Foto: Mônica Rodrigues Fernandes/Divulgação


Num jogo entre frágil e cru, lapidado e o que está bruto, suas criações preenchem de subjetividade espaços, outrora, plenos de ausências. “Hoje em dia, esse lugar está todo restaurado. Levei aqueles balões, quando encontrei aquele carrinho naquela mesma posição e fiz a foto”, relembra. Da mesma série, outras imagens apresentam gambiarras e improvisos aparentes, com as intervenções de espelhos. Por conta da maneira como a cenógrafa posiciona esses objetos, diversas texturas são criadas de maneira que nem parece se tratar de espaços anteriormente vazios. Outra fotografia de Invasões chama a atenção pela presença de uma cor destoante, através do manejo de pó-xadrez. De sobras de sarrafos e outros materiais encontrados no próprio local da foto, Mônica – que adora trabalhos manuais – construiu um suporte retangular para colocar um pigmento azul vibrante diante do cinza predominante.

No campo cenográfico, alguns dos trabalhos de Mônica são o clipe Eletrônica viva, de Lirinha, do qual também participa na direção artística; alguns desfiles e vitrines para a marca Uma, da estilista Rachel Davidowicz e os clipes de Trummer SSA (ver abaixo) e do Maquinado, projeto de Lucio Maia, guitarrista da Nação Zumbi, em que mesclou lixo e pinturas. “Na cenografia, minha preocupação é como as pessoas vão perceber aquele espaço e que tipo de sensação elas vão ter. Na fotografia, não penso nisso. O trabalho sai, lanço a série e o mundo diz o que acha. A única série que pensei na sensação é Interiores”, demarca.



Uma das fundadoras da Vértices Cenografia, Arte e Design, sediada na Mooca, Mônica divide o espaço, os projetos e a vida com o artista visual paulistano Mozart Fernandes. Há poucos anos, a empresa migrou de Pinheiros para o bairro tradicional na zona leste paulistana. Não por acaso, esse foi o local escolhido para sua entrevista à Continente. Com dois andares, o imóvel da década de 1920 é remanescente do fervor industrial do século XX. Pelo modo que apresenta a história da casa, ela demonstra como costuma pesquisar a história de cada lugar. “A parte de baixo era a pequena indústria, a de cima, casa dos familiares. Esse imóvel não tem uma sala, todos os cômodos eram quartos e o banheiro, porque não existia preocupação com uma área de convívio.”

O próprio escritório da empresa, com arte disposta pelas paredes de tijolos originais, é exemplo imediato do conceito da Vértices: respeitar a história de cada lugar, visto que se adaptam às necessidades de cada cliente. No imóvel, apenas duas paredes danificadas foram removidas, o resto da estrutura teve reparos e foi mantida. Por sorte, cópias de afrescos romanos foram encontrados durante a limpeza no local. Hoje, eles convivem com os lambe-lambes na decoração do banheiro. “Na Vértices, a gente quer é que as pessoas tenham a sensação de que nem tudo é tão plástico. A gente gosta de criar algum elemento que pareça ter estado no antigo uso e tenta descobrir o que havia ali. Por exemplo, se foi uma oficina, traz algum móvel que pertença à mecânica”, explica a artista.



PEQUENOS EFEITOS
Na série Gêneros, por sua vez, Mônica explora questões em torno da sexualidade quando ressignifica um simples prego numa superfície de madeira. No conjunto de três obras, intituladas O cu, O pênis e A vagina, num ímpeto metalinguístico, ela evidencia como a proximidade da lente sobre o objeto retratado é capaz de torná-lo maior ou, até, atribuir-lhe outra semântica. “Enxergo que a violência não está nas grandes coisas apenas. Acho que está nos pequenos efeitos. Essa série surge da minha alegria quando percebo a liberdade que existe em comparação à minha adolescência. Eu via tanta opressão e sofrimento em relação à sexualidade, muitas mentiras e esconderijos. Gêneros veio de fotos que fiz para Demolição concreta, mas em que acabei enxergando os órgãos sexuais. Falta a boca, e um monte de orifícios, mas basicamente simboliza isso”, explica.

 



Em Gêneros, a artista explora a sexualidade pela ressignificação de objetos. Foto: Mônica Rodrigues Fernandes/Divulgação

Fotografar objetos crus ou ambientes solitários são mais frequentes para Mônica que retratar pessoas. Talvez, um dos momentos mais próximos disso, em sua obra, aconteceu na série Sombras na Paulista, 2009, em que estabelece uma espécie de diálogo com a luz, captura as sombras dos pedestres na avenida paulistana.

“Para não dizer que nunca fotografei gente, tenho duas fotos. Uma se chama Homens. Me sinto invasora quando fotografo pessoas, por isso me é instigante esse tema. É como se estivesse roubando um pedaço da vida de alguém sem pedir consentimento. Nas duas situações, me apaixonei pelos indivíduos”, relembra. A misteriosa fotografia, que nunca expôs, exceto agora, aconteceu em Nova York, quando capturava outros elementos da cidade. Por obra do acaso, duas vozes masculinas chamaram a sua atenção, enquanto atravessavam a rua vestidos de mulheres. “Foi assim que fiz uma série inteira deles”, revela, em tom de segredo.

ERIKA MUNIZ, estudante de Jornalismo e colaboradora da revista Continente.

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