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Arruar: história pitoresca do Recife Antigo

Obra do autor pernambucano, publicada pela primeira vez em 1948, ganha reedição pela Cepe Editora. Leia aqui um capítulo do livro, que deve sair em maio

TEXTO Mário Sette

04 de Dezembro de 2017

Sobrados da Rua Nova, Recife, 1940

Sobrados da Rua Nova, Recife, 1940

Foto Benicio Dias/Reprodução

De fora de Portas ao Aterro da Boa-Vista

Quem dirá hoje da perfeita expressão jubilosa dos gulosos olhos de mulher que se viam, através da móvel moldura do postigo de uma cadeirinha de arruar, fugindo à clausura do lar, a percorrer as ruas da cidade, na indisfarçável cobiça de saber das suas novidades? Cadeirinha de arruar tão bonita, tão maneira, tão fofa, invejada pelas vizinhas que a espreitavam, fingindo desdém, pelas frestas do balcão. Assim valia a pena ir-se assistir ao sermão do Corpo Santo, ouvir a missa cantada no Poço, visitar a comadre de resguardo, andar mesmo à toa pelos pátios cheios das barraquinhas de uma novena de Nossa Senhora, quando não ouvir o oratório na Casa da ópera... Não se cansavam as pernas e dava-se tanto na vista!

Cadeirinha de arruar, misto de recato e de ostentação. Um pouco de mistério e um muito de vaidade. E tão raras a princípio! Não era para quem queria e, sim, para quem podia. Distinguiam-se na cidade os seus donos, falava-se das transitadoras pela Boa Vista, por Santo Antônio, por Fora de Portas. As senhoras de relevo social, moradoras dos sobrados de azulejos, por cima dos trapiches ou das lojas dos maridos, ou já nos sítios de casas apalacetadas dos arrabaldes, possuíam as suas, com ornatos de talha, com estofos de gorgorão, com portinholas desenhadas, conduzidas por escravos em parelhas de igual altura, negros bonitões e robustos, trajando librés de cores berrantes e bonés de oleado que o jornal anunciava como “novidade de Paris”.

Apareciam novos modelos: de cúpula dourada, com portinhas em alto-relevo, grades, correias de marroquim, e o que se tornou um auge de bom gosto: providas de vidros. Vidraças! Que luxo! Não se temia mais a poeira das varreduras nem os chuviscos imprevistos. Sobretudo, ia-se ali dentro, à vontade, vendo-se tudo, sem recear a indiscrição de uma mão afoita ousando atirar uma flor, ou um escritinho, se não mesmo o furtar de um beijo...

Cadeirinhas douradas, “de caixão”, das mais suntuosas e pouco vistas, evocando aquelas em que passeavam as fidalgas parisienses, de cabeleiras empoadas. Bom mesmo atravessar a cidade numa delas, protegida pelos vidros, apreciando o movimento, olhando as lojas, descendo na igreja ou na costureira.

Cadeirinhas de arruar... Que de poemas inspirastes! Que de ansiedades e esperanças provocastes! Quantos homens ficaram horas, ao sol ou à chuva, esperando uma dessas balouçantes caixinhas de luxo, por se aninhar nela sinhazinha que ia pedir a bênção à madrinha, escoltada pelo pai, a cavalo, de chapéu alto e rebenque em punho! Às vezes as cadeirinhas tomavam estradas, viajavam. Caminho do Mondego, Estrada dos Apipucos, Caminho de Olinda. Ia-se passar a Festa ou pagar uma promessa na Sé. Na reclusão feminina dos tempos, a cadeirinha possibilitava uma rápida visão da rua, a surpresa de um quadro maldoso, a acolhida de um olhar ousado, a observação estranha de um outro bairro. Cadeirinhas de arruar... Seu nome resumia uma finalidade ampla, saborosa, mundana. Arruar. E a rua constituía um pecado tão feio! Rua tinha saibo de cousa proibida e de má fama. Moleque de rua... Povo da rua... Mulher de rua... Bolo de rua... Namoro de porta de rua... Mas arruar era tão gostoso! E a cadeirinha proporcionava esse gozo, com uma espécie de poder isolador, vendo-se tudo sem perigo de contágio. Vendo-se, ouvindo-se e sentindo-se. Camarim ambulante para se apreciarem as cenas constantes e variadas dessa peça social que as ruas oferecem a todo instante.


Recife, anos 1940. Foto: Benicio Dias/Reprodução

Arruar! Ver apenas, não! Sentir a cidade. Evocar seu passado, partilhar do seu presente, sonhar com o seu futuro. Encontrar interesse vivo numa fachada de azulejos, numas pedras de calçamento, num bico de telhado, num cocuruto de mirante, numa cara de transeunte, numa escadaria de igreja, numa jaqueira de muro, num interior de loja, num lampião de esquina... Arruar... Conhecer e recordar. Pisar e querer adivinhar os que já pisaram. Ser ao mesmo tempo a geração de agora e as gerações de outrora. Arruar... Passatempo e análise. Regalo dos olhos e entendimento dos espíritos. Arruar... Ver as ruas e penetrar-lhes a história. A história cronológica e a história social. A história pitoresca também. Não somente a trilha inicial, a origem do arruado, o imperativo do cordeador, as exigências das posturas, mas, igualmente, os costumes, o vozear, as expansões, os vícios, as festas, os maus dias, os amores de seus habitantes...

Arruar é abrir esse livro de história, folhear-lhe vagarosa e saborosamente os capítulos, contemplar-lhe as ilustrações, comparar-lhe aspectos e episódios, compreender-lhe o sentido através das épocas e das gentes.

Hoje, já não se sabe arruar direito. Anda-se, ou melhor, corre-se pelas ruas. Os meios de transporte não favorecem esse prazer dos antigos. O automóvel e o ônibus passam rápidos, indiferentes, ignorantes. Não importa o percurso; interessa apenas o término. O rio, as árvores, o templo, a rua, a estrada, o sobrado, o tipo popular, a ponte, o nome local, que fiquem depressa para trás. Não se arrua mais. Chispa-se, voa-se... O bonde, que sempre consentia um vagar para esse prazer, hoje com a superlotação é um sacrifício...

Arruar é diferente do que fazemos hoje ao atravessar a cidade, no interesse do trabalho ou na distração de um passeio, a caminho da escola, da igreja, do cinema, da loja, da festa, sem darmos um reparo menos superficial à sua fisionomia, sem sorver melhor o seu perfume, sem escutar meditadamente a sua música... Vamos por aqui, por ali, a esmo, abstratos, guiados pelo hábito, sem atentar, como devêramos, no encanto deste trecho, na claridade desta manhã, no colorido deste ocaso, na harmonia deste movimento, no feitiço deste pitoresco. Atravessamos as ruas apenas com o cuidado nos automóveis e olhamos as placas das esquinas sem outro propósito do que lhes ler os nomes. Somos, no cenário de nosso nascimento e de nossa vida costumeira, quase uns estranhos, à sua história, às suas tradições, à sua poesia. O passado é um baú velho atochado de papéis amarelos que se destroem num momento azado. Os velhos monumentos foram embora e poucos se lembram deles. Mudam-se as expressões típicas da cidade, e ninguém quase protesta. Desdenhamos não somente o passado de nossa terra, mas o nosso próprio passado...


Rua da Aurora, Recife, 1938. Foto: Benicio Dias/Reprodução

E, no entanto, que lição e que entendimento proporciona o estudo e o conhecimento da nossa cidade! O seu rosto, o seu cheiro, as suas cores, os seus sons!... Há nela um sentido que transcende de mero núcleo civilizado para atingir as raias de um templo de nós mesmos. Em cada rua destas, em cada telhado daqueles, numa ponte, numa calçada, numa nave, num cais, num jardim, viveu também alguém que nos precedeu no mundo e que nos foi querido. Nossos avós, nossos pais, irmãos de nosso sangue, uma madrinha, uma ama-seca, um amigo, já longe de nós, dormindo no cemitério, por ali andaram, por ali sorriram, por ali sofreram, por ali pensaram em nós... Por onde arruamos há os passos deles, num arruar distante, indeléveis nas recordações dos que sabem recordar. Entremos, por exemplo, nesta igreja. É velhíssima e nada mudou no seu interior. Os altares, os santos, os candelabros, as tribunas, a pia batismal, tudo está como era. Até o piso, até as soleiras, até os degraus. Rezamos hoje; rezaram ontem esses antepassados, essas criaturas muito amadas. Esses mesmos nomes de templo – Penha... Carmo... São Pedro... Madre de Deus... São José de Ribamar... Santa Cruz... Nossa Senhora do Terço... — estiveram nas suas bocas e nas suas vozes. Quando aquela mesma bênção foi dada, há anos, há séculos, eles estavam aqui mesmo, de joelhos, recebendo-a, batendo nos peitos e curvando as cabeças. Essa procissão que sai todas as quaresmas, com suas velas acesas dentro de angélicas de papel, com suas duas imensas fileiras de devotos, com seu andor velado por um baldaquino roxo e a ponta da cruz de fora, aos dobres dos sinos das matrizes, essa procissão eles a viram também como nós a vemos, eles também se encheram de recolhimento e de preces, eles ouviram os mesmos sinos, carregaram os mesmos barandões, adoraram a mesma imagem.

Ali está o nosso velho e sempre novo teatro. Talvez nenhum ambiente nos sugira recordações como o dessa casa de espetáculos tão típica de nossa cidade. Gerações e gerações passaram pelos seus camarotes e pela sua plateia. Na emoção da arte, na ânsia de comunicabilidade, nos encontros de amores, na faceirice da vaidade. Se quiséssemos — ou melhor, se pudéssemos — realizar uma história dos indumentos, teríamos de reviver os aspectos dos saraus de várias épocas, enchendo aquele teatro, pela imaginação, com os cavalheiros e as damas, os rapazes e as sinhazinhas do seu tempo, ouvindo o auto pastoril, a ópera de Bellini, a tragédia de Dumas, o vaudeville de Feydeau, o drama de Pinheiro Chagas ou a revista de Artur Azevedo. Todas as modas por ali desfilaram. Da saia-balão à saia entravada. Para somente aludir às que se foram. Essas criaturas de outrora sentaram-se nas frisas e nas cadeiras, olharam o palco, choraram e riram-se, miraram-se aos espelhos do salão, apoiaram as mãos nas balaustradas, desceram as escadarias...

Todas as paisagens e cenários de nossa cidade impregnaram-se desses olhares antigos. E como que procuramos adivinhar como é que esses olhos viam, o que os lábios diziam, o que os pensamentos traduziam, o que as almas sentiam... Temos o capricho de querer viver a nossa cidade por nós e pelos nossos antepassados. Não vemos apenas o rosto da cidade, mas também seu espírito. Na beleza do rio espraiado e sinuoso, nos reflexos das luzes, nas sombras do casario, na solidão dos sobrados, nas angústias dos becos, na quietude das alvarengas, no pinturesco do mercado, nos cotovelos das ruas tortas, no burburinho das docas, na alacridade dos sábados, nos arvoredos dos sítios, nos terraços das pontes, nos toques das igrejas, nos apitos dos trens, nos pregões dos vendedores, no vocabulário da gente... Tudo é nosso, tudo é expressivo, tudo é diferente das outras cidades.

Cada cidade tem sua história, não apenas a política, mas, sobretudo, a peculiar aos seus costumes, aos seus regionalismos, aos seus modismos. E se aquela empolga, entusiasma, esta enternece e embala como um berço impelido por mãe carinhosa. História, ou histórias, semelhantes às contadas pelas velhas pretas de antigamente; histórias que ainda nos encantam quando vamos envelhecendo...

Arruar é apreender o sentido dos vários trechos da cidade, penetrando-lhes a origem e saboreando o acerto de batismo dos bairros, das freguesias, dos logradouros. Recife, Santo Antônio, Afogados, Boa Vista, Várzea, Espinheiro, Camboa do Carmo... Nomes históricos, lendários, geográficos, pitorescos, a evocar um episódio, um costume, um aspecto, uma ironia, por vezes, quando não uma figura também.

Quem, sabendo um pouco do nosso passado colonial, ao ir à Casa Forte não se recorda logo daquela formosa e galante dama pernambucana, D. Ana Paes, que teve a habilidade de passar conjugalmente pelos braços de três homens, harmonizando ao calor de seus beijos, portugueses e holandeses?

Quem não se identifica de pronto com as raízes populares de denominações claríssimas como Caminho Novo, Porto da Madeira, Ponte Velha, Ilha do Retiro, Água Fria, Espinheiro, Fora-de-Portas? Meditemos nesses nomes, e cada um deles será um pequeno capítulo do romance do Recife.

Que dizer, por exemplo, de Mangabeira de Cima a contrastar com a Mangabeira de Baixo, ali na Estrada do Arraial, que por si mesmo já constitui um cenário histórico? As duas árvores, no caminho há pouco rompido, eram duas balizas dos transeuntes. Mangabeira, a de baixo; Mangabeira, a do alto da ladeira. Orientavam os que iam ali, e quando o trem suburbano substituiu a diligência do Cláudio, deram nome às respectivas estações que nós ainda frequentamos. Bem próxima, Tamarineira também teve fonte semelhante. Formoso exemplar vegetal, sem dúvida, de copa farta e sombreadora, no amplo sítio local. Ninguém deixava de descansar um pouco debaixo da tamarineira, quer fosse para Cruz das Almas, quer se destinasse a Água Fria ou ao Monteiro. Mais tarde, compram o sítio para o novo asilo dos doidos. Festas da primeira pedra e da inauguração. Trazem da Misericórdia de Olinda os dementes. Mas o nome da árvore fica, e agora com um significado irônico — e de morada dos que não giram direito... Mangabeiras ou tamarineiras, elas sabiam convidar ao repouso da etapa e ainda davam o sabor dos frutos. Caíram aos golpes do machado, porém ficou a lembrança delas com as crismas a que deram lugar.

Dos primitivos engenhos de açúcar há uma linda coleção de nomes no Recife: Apipucos, Madalena, Torre, Dois Irmãos. Do seu cenário de canaviais, de carros de bois, de moendas, de casas de purgar, eles se transformaram em povoados e hoje em arrabaldes. Dois Irmãos também foi Encanação devido aos mananciais de onde proveio a água para a cidade, melhoramento que muito deu que falar com seus chafarizes e torneiras. Quem nos dirá desse artista do ferro que de tão conhecido no mister e na simpatia batizou o trecho de sua tenda em Caldeireiro? Das virtudes e dos milagres da água numa volta do Capibaribe onde iam se encher as vasilhas e banhar os corpos, nasceu o famoso Poço da Panela, que não se limitou ao fastígio das curas e da vida social, mas transcendeu para as glórias de uma das páginas mais belas e mais humanas de nossa história, quando ali escondiam escravos para libertá-los.

Casa Amarela. Clima benéfico, onde de começo apenas se agrupavam mocambos entre veredas de ubaias e de pitangueiras. Um convalescente agradecido se fixa e levanta um prédio de tijolo e de telhas, que manda caiar de amarelo. Era a casa amarela indicadora, “Pegado à casa amarela”, “dobrando a casa amarela”, “confronte à casa amarela”... Povoação, teve também o seu trem. E a estação recebeu o nome popular. Nascido da gratidão do major ou do comendador que ficou bom do puxado ou da maleita.

Ali o rio ainda não conhecera ponte. Havia canoas e uma balsa para a travessia. Era a “Passagem”. Mais conhecida assim por mais frequentada. Ia-se para a Madalena, para a Ponte d’Uchoa, para Caxangá. Mais tarde abriu-se rua, ergueram-se palacetes de azulejos e de caramanchões, fizeram uma ponte, rodaram seges. Porém dizia-se: — “Estou morando na Passagem”. Fonte semelhante tiveram o Porto da Madeira, o Aterro dos Afogados, o Chora-Menino, a Estância, a Boa Viagem, a Encruzilhada de Belém, a Ponte d’Uchoa. Numa as canoas vão buscar a lenha, noutras o lançamento de uma estrada onde existiam mangues, o sacrifício de crianças pagãs numa revolução, a estacada defensiva do negro que repele o invasor, os navios que se vão e deixam num voto de bonançosa travessia uma igrejinha entre coqueiros, o cruzamento de caminhos em demanda de Beberibe e de Olinda, a pinguela de serventia num sítio particular...

E são somente os arredores a nos oferecerem o embalo evocativo desses nomes tradicionais dos logradouros públicos? Não. No centro da cidade, quer nas artérias principais, quer nas de menor predicamento, há um mundo de reminiscências, de ensinamentos, de poesia. A começar pela nossa rua mais galante, mais nobre, a preferida: a Rua Nova. Um encanto de batismo. Transparente, preciso, sintético. Fácil, curto, expressivo. Rua Nova? Perfeitamente. O acesso recente, cômodo, útil. Pelo antigo, o rodeio era maior e sem dúvida a paisagem menos apreciável. Ao se rumar para Fora de Portas ou para o Aterro da Boa Vista, por ali era outra cousa. E a trilha vira arruado. Casas de um lado, depois de outro, salteadas e unidas. Boticas no andar térreo, moradias nas que tinham sobrados. Embaixo, vendiam-se panos, borzeguins, chapelinas, braceletes, meizinhas, bacalhau, manteiga fresca, queijo do reino. E até um dia, loja de tirar retratos ou de pentear cabelos. No alto, em varandas de pau surdiam de furto rostos de moças, quando não transitavam procissões de quaresma para encher de todo esses balcões rendados. Rua Nova... Passam cadeirinhas de arruar, ônibus de terraços, carroças de açúcar, traquitanas, bondes... Rua Nova sempre.

E a do Queimado com seu “fogo” espetacular, no tempo em que o povo se armava de gamelas, de baldes, de quartinhas para apagá-lo? E a da Cadeia Velha com seu sobrado de grades onde espiavam condenados às galés ou à forca? E a das Águas Verdes com seu pântano de inverno? Cais do Apolo, vaidoso de ter deixado de ser praia e com o seu teatro a atrair a alta sociedade para ouvir a Norma ou o Trovador. Rua do Cotovelo, rica de ângulos e de mistérios. Rua da Aurora, primeira a receber as pompas do Sol. Ponte Velha, a recordar os tempos em que Nassau do seu palácio olhava as matas do continente ou Franz Post pintava nossas primeiras telas. E os doces cultos ao Rosário, à Conceição, ao Bom Jesus, à Santa Cruz, à Santa Rita, traduzidos em artérias e pátios onde existiam igrejas ou nichos para se rezarem novenas e terços. As guerras de antanho emprestavam feitos para a Rua das Trincheiras, para o Largo das Cinco Pontas, para a Rua de São Jorge, para a dos Guararapes. Ouvimos cadências de marchas, entrechoques de piques, ribombos de peças, toques de chamarelas, ressoos de vitória e de reconquista. A nossa outra rua elegante de hoje, que se chama da Imperatriz, fora por muitos anos do Aterro da Boa Vista — vastos mangues que se encheram de lixo e de areia, transformando-se numa via pública a rivalizar depois com a sua vizinha de além-rio — a Rua Nova. E por que não falar também dos becos? Afigura-se-me que essas passagens estreitas nasceram de um imperativo de sociabilidade. Comunicações mais curtas e rápidas por necessidades de relações, de visitas, de comércio, de amores. Ia-se mais depressa por ali, por entre casas. E a passagem como serventia pública persistiu na paisagem urbana. Sua fisionomia, seu préstimo, sua figura popular veio a dar-lhe o nome. Beco da Viração, do Serigado, da Luxúria, do Sarapatel, do Veras, do Calabouço, da Roda, do Quiabo, das Sete Casas... Cada denominação dessas ressalta uma origem. É uma tela, é um retrato. Tem cor, tem cheiro, tem malícia... As maxambombas, trifurcando-se a caminho de Dois Irmãos, do Arraial, da Várzea, com seus apitos e seus barulhos de vapor, batizaram o Largo do Entroncamento. Sumiram-se os trenzinhos suburbanos, demoliram a velha estação de três plataformas, porém o nome ficou nas bocas de novas gerações.

Quem “adivinha” agora os quadros vivos ali representados todos os dias ao rápido encontro dos trens cheios de passageiros habituais ou de “passadores de festas”, na convivência diária dos mesmos vagões e por vezes dos mesmos bancos? Comenta-se o fato político da Europa ou do país, lê-se A Província ou a Gazeta da Tarde, discute— se a crise do açúcar, critica-se a prima-dona do Santa Isabel, planeja-se a dança do sábado, pensa-se na noite de Ano-Bom no Bonfim ou no Poço...

Quem avalia o antigo Bairro do Recife torturado de ruas estreitas e becos incríveis de tortuosidade; o Largo do Corpo Santo, o Beco das Sete Casas, a Rua da Cadeia, o Arco do Bom Jesus, a Doca do Arsenal, o Cais da Companhia Pernambucana... Tudo isso se sumiu na paisagem da cidade. Ninguém o reconstitui mais sem tê-la conhecido. E mesmo entre os que o conheceram, quantos de memória pouco nítida!


Mercado Público da Encruzilhada, Recife, 1940. Foto: Benicio Dias/Reprodução

Não há saudosismo em recordá-lo. Nem desejo de que a vida houvesse parado. Há, porém, uma modalidade de amor a tudo o que desapareceu, e que se não foi nosso contemporâneo, terá sido de nossos bisavós: cenário de sua infância, de seus amores, de suas preocupações, de suas atividades, de seus sonhos e de suas saudades também... Daí nossa ânsia de saber-lhes particularizadamente dos costumes, dos trajos, dos hábitos sociais. Essa existência longínqua e apagada é bem verdade que se projeta somente numa quase realidade através das velhas crônicas, dos romances, dos relatos verbais de pessoas idosas, numa carta, mas, sobretudo, nas páginas amarelecidas dos jornais da época. Essas, sim, são de um flagrante que lembra os instantâneos de hoje. Porém é preciso saber interpretá-las, às vezes. Um anúncio de loja trai uma cena, até uma conversa. Uma reclamação revela um costume. Quem não o sentirá, lendo aquela advertência a um novo morador de rua, que ali não se tolera mais deitarem-se águas servidas da varanda abaixo? E a venda de uma cadeirinha estofada, por qualquer preço, certamente por ter caído da moda? E o toucado riquíssimo chegado de Lisboa, por encomenda, muito próprio para noiva, e do qual “se declara que é talvez o primeiro aqui visto, principalmente pelas ricas plumas que tem”? Qual a moça que não sonharia possuí-lo para sua tarde de núpcias? E a casa da Rua da Matriz por 6$000 mensais, uma botija de cerveja por um tostão, trazendo-se o casco, um queijo do reino por 1$500, leite diariamente por três vinténs a garrafa? Queixavam-se da carestia, sim, queixavam-se. E dos maus processos de educação. Meninos já grandes que antigamente dormiam nos colos das iaiás gordas, chupando os dedos — agora.... empinavam papagaios e tomavam genebra... Vejam só!...

E que dizer das modas de antanho? Estou em que as mulheres especialmente se sentirão curiosas de conhecer os figurinos dessa época distante. Já havia, sim, publicações do gênero, doutrinando em galanteria, em feitios, em modelos. Não será difícil formular uns “retratos vivos” dessas elegantes de faces de papoila que se chamavam, por exemplo, coquetes e casquilhas, tinham mel nos lábios feiticeiros, vestiam lantejoulas, só faltavam cuspir à francesa, mostravam dengues e medeixes, dardejavam olhares sedutores, dançavam valsas de corrupio e usavam adereços de diamantes, anéis de crisólitas, broches de coral, atacas de ouro... Mas gastavam fazenda muita para se vestir, bojudas e recheadas que eram. Patos, anquinhas, babados, mangas-presuntos. A ponto de se aconselhar aos pais e maridos:

Se vossa filha ou esposa
Já com seis varas de cassa
Para um vestido bem passa.
Por cumprir com o modernismo
Dar-lhe mais é patetice.

E, também a respeito:

Antigamente, a mulher, quanto menor, melhor, porque levava menos fazenda nos vestidos; hoje, alta ou baixa, bojuda como uma pipa ou esguia como um espeto, gasta as mesmas varas de côvado porque o que sobeja no comprimento acomoda nas ancas, embora pareça campainha de cima de mesa.

O hábito de sair de casa para compras, para consultas ao médico, para tratamento dos dentes, mesmo a passeio, seria restrito depois de haver sido por longos séculos proibido e pecaminoso. Mas o século XIX, já de início, se prometia revolucionário pelas terras do Brasil, mormente pelas de Pernambuco, até nas usanças e na guerra aos preconceitos. O arruar, como outros hábitos, ia ganhando alento. A ponto de um moralista se insurgir:

Muita moça sai à rua
Somente pra se mostrar
E vai toda enfeitadinha
Como se fosse casar.

Arruar. Na cadeirinha de vidraça, a princípio, e depois na sege, no ônibus, no bonde... Vejam que escândalo!... Na promiscuidade desses transportes coletivos. Também as ruas já iam oferecendo atrativos e comodidades: sapatinhos de duraque e cetim a 4$500, frasco de extrato de Paris por 1$500, chita da mesma procedência a 120 rs, o côvado, e o leque de madrepérola, todo de seda, com figuras de cera em relevo, ou de longas plumas, a 15$000. “Um desperdício, minha gente!” Mas — o leque! Amenizava o calor, acompanhava graciosamente o ritmo das músicas, batia no ombro da amiga, e tapava o rosto pudicamente ao ouvir uma confissão, ao prodigalizar um sorriso... As lojas de Mesdames Rey, Milochaud, Théard, anunciavam tanta coisa: blondes, capotinhos de retrós, chapéus de palha de Itália, a fazenda da moda gros de Naples, as bareges de listras, os espartilhos, além de fazerem pregas a vintém a vara... E os artigos de compra discreta, quase em segredo: depilatório para os pelos do rosto e do corpo, a água-de-vênus para apagar manchas, os pós para criar e empretecer os cabelos. Não esquecer o xale de toquim de 50$000, a que a modinha exaltava o préstimo:

Meu papai, eu quero sedas,
Quero um xale de toquim...

Os dentistas franceses ou ingleses abriam consultórios: inserir um dente, 10$; arrancá-lo, 2$; chumbar a ouro, 3$; dentadura completa, 30$. Preços de Mawson ou Gaignoux. Os cabeleireiros, outra tentação: o Jaime, o Gustave, o Desmarais, Mme. Potellier, o Odilon. “Quarto particular para cortar cabelos à moda.” Penteavam à marrafa a uma pataca. Tabela de preços para domicílio no estabelecimento. Penteado de noiva, 5$000.

Arruar... para tirar o retrato, sim senhor. A moda do retrato dera que falar. Não mais as demoradas poses para os “óleos” dos artistas estrangeiros de passagem ou de estada na cidade. Agora, os daguerreótipos. O Mavignier, o Decoux, o J. Pereira tiravam esses retratos a 10$ em fumo e 20$ coloridos. Também miniaturas para caixa de rapé, broches, medalhas, alfinetes de gravatas. Depois, os retratos em negativo, às dúzias, para distribuir com parentes, padrinhos, amizades e... “Lá vem mamãe! Abriam-se fotografias de luxo, de artistas premiados na Exposição de Paris. Retratos a qualquer hora e com qualquer roupa. Não se entregavam senão os parecidos e não faziam as pessoas mais velhas. Ao contrário... E para tirá-los lá se ia a sinhá com seu vestido de seda de quadros, com bico francês no talho e babado largo em roda da saia. A Madama cobrara-lhe de feitio 10$. Se fora de merinó, 8$; de cambraia, 6$; e de chita, 4$. Para vestido de noiva (pobre não podia mais casar, meu pai do céu)... 15$000.

Um poeta do tempo dizia, embora escrevendo em prosa, da sua perturbante impressão de um encontro de rua:

“Vi passar, dentro de um palanquim, uma moça que me feriu o coração. Era uma jovem cor de pelica branca, olhos azulados cor de céu em primavera, boquinha composta de duas pétalas de rosa”.

O vagar da cadeirinha dava tempo para todas essas minúcias, todas essas e mais algumas que o enamorado calou sem dúvida. O palanquim simboliza bem as baladas, os poemas de outrora, longos, rimados, líricos. Ao passo que o automóvel de hoje, chispando, mal permitindo distinguir o sexo de sua guiadora, tão confusa é a indumentária, será uma dessas poesias modernas em verso livre e de sentido super-realista.

E que dizer dos outros atrativos? O Cosmorama, com vistas novas todas as semanas, inclusive as horríveis da guerra da Europa... Na Europa há sempre uma guerra. As sorveterias... O sorvete, outro capítulo verdadeiramente saboroso na história da cidade. De creme ou de frutas. O Café Rui tinha-o duplo. De começo, um tostão. Depois — talvez a tal guerra do momento... — subida para dois tostões. Mesmo assim:

Das 10 às 9, fregueses,
A sorveteria está pronta:
Um sorvete a 2 tostões.
Não há nada mais em conta.

Numa das mesinhas, as famílias conversam:

— Já soube da estreia da Companhia Lírica com A Favorita?
— Preferia que fosse com A Sonâmbula. Toco a partitura toda.
— Será a 2ª récita de assinatura. Não vai?
— E então! Meu marido assinou um camarote de 2ª ordem.
— Nós, também. Camarotes só de 2ª ordem; é mais caro, porém...
— Os de 1ª são para esse povo de pé-rapado que não mora na Madalena... Mas dizem que a prima-dona é um rouxinol.

Do mesmo modo comentava-se a festa do Poço, a corrida do prado, as temporadas de festa nos arrabaldes ou em Olinda. Dali, da sorveteria, iam às lojas do Pavão ou do Zé Bigodinho, à Ville de Paris ou Paradis des Dames, comprar a carteirinha de 100 agulhas a 28:0 rs., as baleias a 1$ meia dúzia, o pente para alisar a 1$200 e, mais baixinho, o de “tirar piolhos”, a uma pataca. Linha de carretel, 80 rs. As anquinhas estavam subindo com a moda: 2$500 as francesas. Também chamadas, por quem vinha da Europa no paquete de vapor: tournure. Adquiria-se na Livraria do Pátio do Colégio a revista de moças A Bonina, os Suspiros Poéticos de um Desterrado... Nas lojas de ourives, as rosetas de ouro, os camafeus com cercadura de brilhantes, os diademas para os penteados...

A rua era já um paraíso. O progresso cercava-a de comodidades — calçamento, luz, passeios de lajes, vitrinas e até músicas. Sim, ouviam-se pianos nas lojas que os vendiam, de cauda ou de coluna. Polcas, quadrilhas, valsas e até modinhas como a que dizia:

Se eu brigar com meu amor
Não se intrometa ninguém,
Que, acabados os arrufos,
Ou eu vou ou ele vem.

Via-se, ouvia-se, sentia-se, amava-se. Os olhos, pelo menos, andavam livres das rótulas dos balcões ou dos postigos das janelas. Os janotas esperavam as gamenhas em plenas portas das lojas. E embora severamente acompanhadas — pudera não... — quem as privaria de dar ou receber um sorriso ou um sinal? Difícil falar, sim. Porém já o jornal consentia, em prolongamento dos olhares de rua, os quadrinhos com as confissões, as queixas, os avisos e até os “desabafos”:

Desabafo

Enganei-me quando a vós me dirigi.
Foi recebida e um recado fez-me nutrir esperanças.
Julguei ser realidade mas eram aparências.
O recado foi um estratagema. E o estratagema? Foi para ser
[eu desfeiteado bruscamente.

O fim meu era puro, confesso-o.
A nossa união, talvez, se por acaso obtivesse vosso consentimento e de vossos pais. Foi um sonho — dissipou-se — procuro distrair-me — Contudo, desejo-lhe um futuro lisonjeiro.

MÁRIO SETTE nasceu no Recife, em 1886. Ainda muito jovem (11 anos) mudou-se para o Rio de Janeiro, retornando poucos anos depois, aos 16. Tornou-se ficcionista, memorialista e cronista que habilmente registrou a história recifense e também elementos interessantes e pitorescos da cultura urbana. Seus escritos, hoje, tornam-se também história.

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