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Entrevista

"O perdão implica uma forma de rebelião"

João Silvério Trevisan conversa sobre o atual momento de censura artística no Brasil e sobre o seu recente livro, 'Pai, pai', em que constrói uma narrativa pessoal

TEXTO Mariana Filgueiras

01 de Dezembro de 2017

O autor João Silvério Trevisan, para o lançamento de 'Pai, pai'

O autor João Silvério Trevisan, para o lançamento de 'Pai, pai'

Foto Pedro Stephan/Divulgação

[conteúdo na íntegra (degustação) | ed. 204| dezembro 2017]

Em meio ao espectro moralista que voltou a assombrar as manifestações artísticas brasileiras, que faz lembrar a “temperatura sufocante e ar irrespirável” de outrora, o escritor e diretor João Silvério Trevisan abre um janelão por onde entra muita luz e ar fresco. “Enquanto eles gritam, nós criamos”, diz ele, em entrevista à Continente.

Aos 73 anos, com 13 livros publicados, três prêmios Jabuti, um prêmio da Associação Paulista de Críticos de Arte (APCA) e a carapaça de quem teve um filme proibido pela ditadura por mais de 10 anos (Orgia ou O homem que deu cria, de 1970), ele lança o livro de memórias Pai, pai (Alfaguara), um corajoso acerto de contas com a própria história – que também tinha o bafo quente da censura moral no seu cangote, centrada na figura do pai. Na obra, João expia o sofrimento pela descoberta da homossexualidade na juventude, a fuga para o seminário, a difícil relação com a família e a completa ausência de afeto paterno. A luz vem exatamente daí: ao final de um longo processo de elaboração da dor, o autor oferece a própria vida como matéria artística. “Desarmei processos pré concebidos dentro de mim. O perdão implica um gesto possível de superação que nos liberta de perigosas cadeias emocionais”, acrescenta ele, que tirou o título de um versículo bíblico desconcertante. “Pai, pai, por que me abandonaste?” (Mateus, 46, 27).

Nessa conversa, João Silvério abre ainda outras janelas: compara a censura vivida por ele durante a ditadura militar à dos tempos atuais, defende a criação artística como espaço de resistência, recusa o vitimismo de uma literatura sentimentalista, acusa a sociedade falocrática de não fazer as perguntas certas diante de episódios simbólicos – como no caso do menino deixado pelo pai numa cela de presídio no Piauí –, fala da relação entre a dor e a potência literária e enumera as obras de arte que o ajudaram, ao longo dos anos, a ver o céu mais azul. “A beleza criada leva quem a criou a partilhar um pouco do divino”, garante João.

CONTINENTE Dada a crescente ameaça de censura e reações de ódio contra expressões artísticas, você acredita que estejamos vivendo o pior momento para a classe no Brasil?
JOÃO SILVÉRIO TREVISAN Concordo que seja um momento muito crítico, mas não sei se é o pior – considerando o que já houve. As novas gerações não têm ideia dos 20 anos de ditadura militar, a partir de 1964, em que o controle censório sobre a expressão artística e política ocorria em várias frentes, de maneira sistemática. Hoje, não há um projeto formal de censura, o que permite o debate, bem ou mal. Em compensação, há um projeto de ditadura não explícita que nasce de ressentimentos antigos, praticamente incontroláveis no ambiente de uma suposta democracia. Se a ditadura de ontem impedia totalmente o processo democrático, a democracia de hoje é um terreno aberto para ideias totalitárias vicejarem, como de fato está acontecendo. Do ponto de vista político, estamos diante de uma situação dramática. Mas os pesos e contrapesos do regime democrático ainda permitem que se respire alguma liberdade. A necessidade de resistência hoje é a mesma que já praticamos no período da ditadura. Quanto mais reação conservadora, maior deve ser nossa resistência democrática.

CONTINENTE O retrocesso o desanima ou o inflama?
JOÃO SILVÉRIO TREVISAN Obviamente, é um processo que assusta, porque vai na contramão das conquistas democráticas já consolidadas. Olhando a seco, dá desânimo. Olhando de modo mais abrangente, apenas incentiva a prática libertária de permitir, ainda mais, que todas as expressões cidadãs sejam contempladas no ambiente democrático. Parto do princípio de que não deve haver retrocesso em conquistas sociais, portanto, a resistência é uma consequência natural. Se hoje o projeto moralista e autoritário tem como intuito a instauração de uma ordem teocrático-militar, nós continuaremos aqui, mais presentes do que nunca, para dizer: não passarão. É engraçado? Nem um pouco. Mas é estimulante, sim. Enquanto eles gritam, nós criamos: obras, ideias, projetos, leis, espaços de resistência. Se eles propõem a destruição, nós respondemos com a criação. Nós sabemos que a liberdade está sempre em construção, deve ser conquistada sem descanso. É nossa vantagem sobre a ordem estratificada que o estado autoritário propõe.

CONTINENTE De que forma você espera que o livro Pai, pai contribua para esse debate?
JOÃO SILVÉRIO TREVISAN O que eu fiz foi relatar uma vida. Ninguém pode negar minhas experiências de vida, o que inclui dores, amores e lutas contra a corrente. A realidade vivida se coloca muito acima de quaisquer propostas dogmáticas, que são abstratas, sujeitas a humores e interesses até escusos. Diante de uma história de vida, nenhuma reação de desaprovação poderá apagar o que aconteceu. No máximo, pode-se argumentar que estou mentindo, inventando, exagerando. Mas isso não prejudica a legitimidade da minha narrativa. A vida comporta verdades que não cabem em manuais doutrinários, porque essas verdades nasceram de experiências pessoais únicas. Robôs de Deus não sabem sequer rezar, ainda que citem a Bíblia sem parar. Nós não citamos palavras alheias: nós vivemos aquilo que somos. Se meu livro pode contribuir para o debate é exatamente nesse sentido: vivi intensamente o que me foi dado viver. Abram alas para minhas dores e prazeres passarem. Quem for incapaz de reconhecer a legitimidade de uma vida vivida está traindo tudo aquilo mesmo que embasa suas palavras. Quer dizer, trata-se da minha verdade contra o fiasco dos que invejam o que vivi. Inclusive o meu gozo.



CONTINENTE Nesse sentido, a confissão, a memória, são gêneros que tranquilizam o autor?
JOÃO SILVÉRIO TREVISAN Seguramente, não. Mesmo que a gente escreva em busca de alguma paz, a vida é um espaço de luta permanente, pelo simples fato de que viver é estar sempre em devir, em construção, nunca propõe descanso. Escrever memórias talvez ajude no processo de conhecimento de si mesmo. Mas, no final, o que se compreende é que uma vida inteira é pouco para conhecer nosso mistério pessoal. Ou seja, em se tratando de viver a vida, nós não temos cura. Viver é muito doentio. Digamos: deliciosamente doentio e maravilhosamente assustador. A paz que a gente procura não pode ser uma maneira de renunciar à vida.

CONTINENTE É impossível não pensar em Carta ao pai, de Kafka, durante a leitura… Você lista diversas referências culturais ao longo da obra, mas, em relação às obras confessionais, com quais títulos você diria que Pai, pai dialoga?
JOÃO SILVÉRIO TREVISAN Eu não saberia dizer. As memórias são sempre muito pessoais, e aí está contida sua riqueza. Em todo caso, não sou grande admirador da Carta ao pai, de Kafka, que me parece coisa de adolescente reclamão. Desde o começo, tudo o que eu não queria era escrever um relato vitimista. Ter o pai que tive foi parte do meu mistério, e o papel de vítima é óbvio demais para iluminar mistérios. As obras que cito – entre livros, filmes, peças de teatro, músicas – são antes de tudo referências que busquei para me ajudar a desvendar o caminho até mim, sem me preocupar com influências. Assim, um filme como Andrei Rublev, de Andrei Tarkovsky, me proporcionou incríveis epifanias em relação à traição paterna. Numa abordagem mais teórica, Totem e tabu, de Freud, me deu impulso para compreender a morte do pai na vida de cada pessoa.

CONTINENTE Certamente, o leitor que se identificar com o trauma paterno terá uma leitura muito rica desse livro. O que a escrita o ensinou sobre o relacionamento entre pai e filho?
JOÃO SILVÉRIO TREVISAN Talvez você lamente eu dizer que não consigo me ver ensinando a partir da minha experiência. Cada pai é um pai, então, cada experiência é única com um pai único. O dado inegável é que todo mundo tem um pai. Também é fácil perceber que o gênero masculino encarnado por muitos pais está sempre malpreparado para a paternidade. Em nossas sociedades, homens são seres frágeis que posam de durões para se disfarçar de uma realidade que não aceitam. Gostam de parecer super-homens, alegando proteger a família. Ora, eles tentam projetar sobre a desproteção da família o seu próprio desamparo. Ao não encarar suas fragilidades, quer dizer, ao mascarar sua frágil realidade com autoritarismo e arrogância, eles metem os pés pelas mãos.

CONTINENTE Por exemplo?
JOÃO SILVÉRIO TREVISAN Jogar um filho adolescente na cela de um estuprador confesso, como no recente caso do Piauí, é emblemático dessas distorções. Ninguém se perguntou os reais motivos de tal crueldade, porque expor a histeria masculina assusta a sociedade falocrática. E se esse pai estivesse transferindo para o filho o gozo que teria (ou talvez tenha tido) com o amigo estuprador, com quem passou meses repartindo uma cela? No caso do nu masculino exposto no MAM de São Paulo, será que o escândalo ocorreria com uma mulher nua, ou bateriam palmas à “beleza feminina”? Não é demais perguntar aqui: por que a sociedade falocrática tem tanto medo do pênis? Não seria uma tentativa de se proteger diante da tentação libidinosa de um falo? Esses exemplos atuais mostram que a crise do masculino está vivíssima e recai facilmente sobre as crianças. Nossos pais de família estão batendo cabeça com espantosa facilidade – seja por seu desamparo não assumido, por seu abandono dos filhos ou por suas fugas (aí incluindo o alcoolismo). Basta ver as estatísticas que apontam grande quantidade de mulheres como cabeças da família, no Brasil atual. Então, é forçoso reconhecer que a própria família, tão defendida pelos moralistas e hipócritas, ostenta seu estado de desintegração a partir mesmo da vã tentativa de defendê-la.

CONTINENTE Pai, pai ensina mais a perdoar ou mais a se rebelar?
JOÃO SILVÉRIO TREVISAN Não creio que eu tenha escrito para ensinar alguma coisa, considerando que só desarmei processos preconcebidos dentro de mim. Mas eu diria que o perdão implica uma forma de rebelião. Quando cultivamos o ressentimento, estamos diante de uma reação defensiva que pode chegar às raias da obsessão, sempre que se torna ódio. O perdão implica um gesto possível de superação que nos liberta de perigosas cadeias emocionais. Daí que, no perdão, ocorre uma verdadeira rebelião do eu em busca da sua libertação. Mas isso que pareceria bonitinho é complicadíssimo. Em Pai, pai reitero como o perdão não resulta de uma decisão racional de perdoar meu pai a partir de hoje, e estamos resolvidos. Isso é uma falácia. Perdoar só é possível mediante um longo processo de elaboração interior. Como conto no livro, perdoei meu pai inúmeras vezes durante a vida, e elas nunca se mostraram suficientes. Perdoar não é um verbo a ser conjugado no passado. Faz parte da vida presente, e como tal tem que ser permanentemente atualizado.

CONTINENTE Você só escreveu esse livro porque seu pai estava morto?
JOÃO SILVÉRIO TREVISAN Não foi por causa da morte física de José Trevisan. Quando realizei o filme Orgia, meu pai ainda era vivo, e aí eu aludia à minha conturbada relação com ele, que desprezava as coisas que eu fazia. Na verdade escrevi Pai, pai para entender melhor a mim mesmo, no sentido de saber como eu vinha realizando o sepultamento dos restos mortais do meu pai, que apodreciam dentro de mim. Deixar o cadáver do pai exposto no meio da sala é antes de tudo um recurso tóxico. Ele precisava ser enterrado para que eu o amasse de fato, com tudo aquilo que ele significou, em especial suas fraquezas difíceis de engolir. Pai, pai contém sem dúvida um movimento em direção ao perdão, o que implica gratidão às imperfeições desse pai que me ensinou, sem querer, o sentido da misericórdia. Chegar à gratidão, por sua vez, implica abrir os braços para o amor, que é a mais grandiosa experiência humana. Poder dizer agora que eu amo meu pai não é abraçar um fantasma, mas assumir a figura paterna que ele plantou dentro de mim, para sempre. Em última análise, esse homem tão imperfeito foi quem me deixou o legado do amor.


Frame do filme Orgia ou o homem que deu cria, realizado por Trevisan em 1970. Imagem: Reprodução

CONTINENTE Como convive em você a sensação de que, se não fosse tão dura sua relação com ele, você também não teria feito tanto do mundo?
JOÃO SILVÉRIO TREVISAN Antes de tudo, foi uma descoberta surpreendente, mas paradoxalmente já prevista. Esse pai biológico que, com seu desamor, me ensinou a construir um pai interior. Agora, com os fatos coletados e ordenados, o processo da descoberta ficou mais claro. No capítulo-poema chamado Invocação ao perdão, eu explicito essa percepção de maneira aguda: ao me dar um espermatozoide tão improvável, meu pai fez de mim um ser humano capaz de experimentar a misericórdia como “artéria central do coração humano”. A legítima percepção da dor nos torna mais solidários com a vulnerabilidade do mundo. Chegar a isso não tem preço.

CONTINENTE Há relação entre dor e potência literária?
JOÃO SILVÉRIO TREVISAN Não acho que a dor mobilize a criatividade literária, necessariamente. Já escrevi livros quando estava muito deprimido, e também quando estava muito apaixonado. A criação através da literatura nos obriga a um mergulho nas profundezas do eu, e esse processo pode ser doloroso, porque a palavra escrita está muito colada à expressão que busca a verdade pessoal, quase sempre doída. Mas o resultado da criação é sempre prazeroso quando a gente tem a convicção de que se expressou legitimamente e deu o seu melhor nessa expressão. É um olhar-se ao espelho do seu mistério e ver alguns poucos sentidos. Não se trata apenas de uma tarefa cumprida, mas de uma missão profética que está sendo atualizada permanentemente através da arte. A beleza criada leva quem a criou a partilhar um pouco do divino.

CONTINENTE É o primeiro livro que li que me fez chorar logo na primeira página. Qual o retorno que você teve até agora da obra?
JOÃO SILVÉRIO TREVISAN Choram. Por vezes, choram muito. De início, isso me assustou. Eu escrevi para me fazer compreender, mas meu objetivo nunca foi levar as pessoas a chorarem com isso. Mesmo sendo um chorão, tenho medo do choro fácil, desse cacoete dos folhetins que vendem personagens estereotipados. Espero não ter escrito uma obra piegas. O sentimentalismo mata qualquer intenção literária de instigar. Assim, as lágrimas correm o risco de ser uma maneira de se livrar rapidamente da dor. O amortecimento que provocam é daninho, porque traz uma falsa paz, ou satisfação.

CONTINENTE Você diz, em diferentes partes do texto, que o livro é um “acerto de contas”. Um “ritual de cura”. Um “inventário de fantasmagorias”. O que é, fundamentalmente, Pai, pai?
JOÃO SILVÉRIO TREVISAN É uma obra que fala do desamparo humano, universalmente disseminado, e do gesto de perdão resultante da consciência desse desamparo.

CONTINENTE Em outro trecho, você percebe que envelhecer também é compreender melhor as canções. Quais são as outras vantagens de envelhecer?
JOÃO SILVÉRIO TREVISAN Posso apontar compensações na velhice. Nós temos um melhor conhecimento da vida. E se a vida se revela pior do que nos parecia quando jovens, é provável que tenhamos apenas nos deparado com uma inevitabilidade inerente ao ato de viver: a de que somos incuravelmente imperfeitos, e a imperfeição maior é a morte. Prefiro pensar a velhice sempre como um estágio de inevitável proximidade com nossa morte, nossa verdade – o que implica um sentido de urgência. Isso que pareceria mórbido e autocomplacente é o que nos propicia descobrir valores em detalhes que nunca valorizamos. Cada momento que vivemos é único, e só nos damos conta disso quando aceitamos que vamos morrer. Para mim, uma das maiores vantagens da velhice é aprender a acolher a morte como parte da vida. 

MARIANA FILGUEIRAS, jornalista, mestranda em Literatura pela UFF.

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