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Curtas

Gira

Grupo Corpo (MG) faz homenagem a Exu em seu novo espetáculo

TEXTO

31 de Agosto de 2017

Espetáculo 'Gira', do Corpo, estreia em setembro, em São Paulo

Espetáculo 'Gira', do Corpo, estreia em setembro, em São Paulo

Foto José Luiz Pederneiras/Divulgação

[conteúdo na íntegra (degustação) | ed. 201 | setembro 2017]

A origem do termo gira está nos ritos do candomblé, em que os movimentos ritualísticos são apresentados em círculos. Na umbanda, uma das mais cultuadas religiões nascidas no país, patrimônio imaterial do Rio de Janeiro, as giras são manifestações às entidades nos terreiros. Durante as rodas, oferendas, danças e passes se intercalam para compor o ritual, que, na maioria das casas, dirige-se em primeiro lugar ao orixá Exu – responsável pela dinâmica e pela ligação entre o mundo espiritual (Orum) e o mundo terreno (Ayié), segundo a cosmologia das religiões de matriz afro-brasileira. A potência de Exu foi a inspiração que a companhia mineira de dança Corpo e o trio paulistano Metá Metá buscou para criar o espetáculo Gira.

Tudo começou com um convite de Paulo Pederneiras, diretor artístico e cenógrafo do Corpo, ao trio Thiago França, Juçara Marçal e Kiko Dinucci, para que sugerissem uma temática e criassem a trilha sonora. “Logo pensamos no orixá Exu, pois trata-se de uma divindade totalmente ligada ao movimento, ao corpo, e temos um encantamento especial por essa divindade. Sempre que possível, gostamos de exaltar as características dele, que foram sendo demonizadas no Brasil, sobretudo por causa do sincretismo religioso. Seu símbolo é um falo, ele é uma força que não se domina. Talvez, por isso, ocorreu essa demonização”, explica Juçara, voz emblemática do Metá Metá. Com toda autonomia de criação para as músicas, o único briefing foi que precisava ter pulso, já que os movimentos marcados são características da linguagem do grupo mineiro em vários outros espetáculos, a exemplo de Parabelo (1997), Nazareth (1993) e Dança sinfônica (2015). O resto ficou ao critério dos três. “A gente dá toda liberdade e gosta muito dessa ideia de deixar que os outros nos influenciem. A gente acredita que isso é fundamental”, afirmou o coreógrafo do grupo, Rodrigo Pederneiras, à Continente.

Com tema definido, Rodrigo comenta a necessidade de leituras e pesquisas de campo, para só assim partir para a criação coreográfica. Como já faz parte das obras do Corpo, o que se vê em Gira não se resume a tentativas de imitação dos movimentos ritualísticos, mas identidade. “Nunca tivemos a pretensão de reproduzir um terreiro. Tinha algumas coisas definidas na cabeça, como não usar dança afro. Então, a ideia era fazer um trabalho de dança contemporânea, mas baseada em certas atitudes e movimentos que a gente foi buscar na umbanda. Queríamos um espetáculo genuinamente em homenagem a Exu”, afirma Rodrigo, que declara estar fascinado pela umbanda e pelas pessoas que conheceu durante todo percurso criativo, tanto que agora se tornou frequentador da Casa do Divino Espírito Santo, em Belo Horizonte.

Toda essa imersão da equipe acabou repercutindo na linguagem da companhia, pois, segundo Rodrigo, Gira o fez retomar o uso dos braços que há alguns anos tinha sido minimizado. “Nesse espetáculo, eu voltei com isso de uma forma muito violenta.” Além disso, o figurino, assinado por Freusa Zechmeister, colabora para que os bailarinos tenham os braços livres. Com apresentações agendadas em São Paulo, Rio de Janeiro, Belo Horizonte e Porto Alegre, o grupo comenta que pretende vir ao Recife. “Não temos nada marcado, temos que ver só os custos para levar. Mas seria maravilhoso fazer no Santa Isabel. Adoro aquele teatro!”, diz Rodrigo Pederneiras. 

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