Clique ao lado para visualizar o sumário da nova CONTINENTE.

Arquivo

“Meu projeto é sobreviver dia após dia”

Esta entrevista foi concedida por e-mail por Juan Tomás Ávila Laurel, respeitado escritor, dramaturgo e conferencista internacional natural da Guiné Equatorial

TEXTO Rogério Mendes

01 de Agosto de 2017

O escritor e dramaturgo Juan Tomás Ávila Laurel

O escritor e dramaturgo Juan Tomás Ávila Laurel

Foto Ana Brigida/RA/Divulgação

[conteúdo vinculado ao especial da edição 199 (julho 2017]

Juan Tomás
Ávila Laurel é, possivelmente, uma das mais representativas vozes políticas e literárias da África de língua espanhola. Natural da Guiné Equatorial, é respeitado escritor, dramaturgo, conferencista internacional e um dos mais ferrenhos críticos a uma das mais sangrentas e longevas ditaduras africanas, conduzida por Teodoro Obiang Nguema Mbasogo, desde os anos 1970, há quase 50 anos, portanto. 

Colônia Ibérica de 1471 a 1968, e regida por ditaduras oligárquicas desde então, a Guiné Equatorial é o país com o maior PIB per capita do continente africano, 69º do mundo, em razão de ser o terceiro maior produtor de petróleo da África Subsariana; entretanto, ocupa a 144ª posição no Índice de Desenvolvimento Humano (ONU, 2014). Menos da metade da população tem acesso à água potável e 20% das crianças morrem antes de completar cinco anos. 

Entre golpes institucionais e com apoio e sustentação política internacional das maiores potências econômicas do globo, incluindo-se o Brasil, o regime totalitário de Mbasogo encontra em Juan Tomás Ávila Laurel um dos seus maiores antagonistas. Razão pela qual é perseguido político até os dias correntes. 

Conhecido na comunidade acadêmica global como “Valiente”, é reconhecido por equilibrar tradição ancestral e política global em seu projeto estético-literário. Algo que pode ser visto em alguns títulos de sua vasta obra, tais como: La carga (Editorial Palmart, 1999, novela); Historia intima de la humanidad (Editorial Pángola, 2000, poemário); Áwala cu sangui (Editorial Pángola, 2000, relatos); El fracaso de las sombras (Centro Cultural Español de Malabo, 2004, teatro); Cuentos crudos (Centro Cultural Español de Malabo, Contos, 2008); Diccionário basico de la dictadura guineana (Ceiba Ediciones, 2011, ensaios), além de sua recente novela afrofuturista Panga Rilene (Calambur, 2016). 

Esta entrevista foi concedida por e-mail por Juan Tomás Ávila Laurel a partir de alguma cidade africana.

CONTINENTE Você é um escritor guinéu-equatoriano, africano, alfabetizado e educado em língua espanhola, o que é natural, relevando-se o contexto histórico de seu país, apesar de muitos não suporem que existam na África hispanofalantes. Alguns o consideram um escritor africano; outros, um escritor hispânico e ainda há aqueles que o consideram, acima de tudo, um escritor. Quais as implicações da necessidade do enquadramento acadêmico, político e ideológico pelos críticos para um escritor que prioriza, sobretudo, o humanismo e a liberdade?
JUAN TOMÁS ÁVILA LAUREL O que se pode passar a um autor com minhas características, que responde a esses nomes e sobrenomes, é o sentimento de estar em busca de uma tradição literária próxima dos seus leitores. Isso se dá porque venho de zonas geográficas onde os aspectos artísticos estão vinculados à oralidade. O que pode ocorrer a um escritor nessas condições é que ele seja visto como uma “ave rara”. Na Guiné Equatorial, a construção ou o estabelecimento de uma tradição literária depende dos testemunhos de sua própria comunidade. É necessário dizê-lo, porque eu poderia ser confundido com escritores de outras margens da hispanidade cujas referências são distintas. As comunidades das margens sabem que eu sou um “antagonista”. Alguém cujas credenciais têm que se olhar com “lupa inglesa” (Laurel usa o termo ironicamente, para citar o esforço que o Ocidente faria para reconhecer uma literatura marginal/periférica a partir de seus valores e prerrogativas). Já se sabe que o que é dito por mim não carece de maiores explicações. Se não houvesse nascido numa zona que sofreu com um processo de colonização seguido de uma ditadura, que viveu as arestas mais ásperas de ambas as situações, sobre a minha vida e obra não haveria o que falar. Não faz sentido um escritor originário de um lugar em que pesem as condições descritas apenas limitar-se a flertar com as musas. É preciso dar um passo à frente. Muitas vezes nos deparamos com pessoas ou escritores bem-instruídos, mas que não têm referência alguma do lugar de sua procedência, como se a geografia e a história tivessem sido inventadas hoje. É preciso saber se seus potenciais leitores passaram pelo inferno. 

CONTINENTE América Latina e África são regiões que possuem histórias semelhantes. São regiões cujos povos sofreram traumas civilizatórios desde os tempos coloniais e sentem, até hoje, dificuldades para consolidar autonomias políticas e governos soberanos. Nossos líderes, quase sempre, estão alinhados em projetos e modelos políticos com prioridades distantes da realidade da população. O significado prático de ideias como democracia e liberdade muitas vezes nos parecem inviáveis. Por quê? Qual a responsabilidade ou importância da América Latina e África no atual contexto global? 
JUAN TOMÁS ÁVILA LAUREL África e América Latina sofreram com a colonização e a implementação dos ambiciosos planos das potências europeias quase ao mesmo tempo. A irrupção dessas potências interrompeu o processo histórico dessas regiões, instaurando um sistema produtivo para seus próprios benefícios. Houve um período breve de reflexão em que se colocou em dúvida essa irrupção, e foi o que se chamou de independência, mas foi um processo emancipatório que apenas se apresenta como nome, sem conteúdo real, porque a produção de riqueza para o benefício dos herdeiros das potências coloniais não cessou. Na África, dá-se a impressão de que o poder está nas mãos africanas, mas permanece a apropriação dos recursos pelas elites, que são lacaios das mesmas potências. Evidentemente, a existência dessas potências não exime as elites africanas de sua culpa, mas é importante destacar o paradoxo que está implícito: a esperança de que as antigas potências sejam parte da solução. É impossível que isso aconteça, e isso deveria chamar a atenção dos intelectuais dessas zonas. Não o farão os políticos, porque há muito tempo se sabe que os seus objetivos consistem em não resolver nenhuma questão pública. Definitivamente, a realidade dos países latino-americanos e africanos que sofreram a colonização ainda alimenta a ideia de que se desenvolvam com um tempo histórico que não os pertence. Impõe-se a busca de um caminho próprio, pois está claro que não pode haver democracia, autogoverno ou liberdade quando há um grupo estável que está roubando os demais. Não se pode constituir comunidade solvente se a corrupção interfere. África e América Latina têm suas culpas ao não saberem identificar e eliminar os elementos que causam seus atrasos. Esqueci de dizer que a relação entre América Latina e África deveria servir para que as elites políticas, principalmente de toda América Latina, soubessem que não precisam ir à distante África para se encontrarem com negros que ignoram e marginalizam. Os países latino-americanos poderiam responder que os mesmos governantes africanos tampouco se preocupam com seus negros.

CONTINENTE Para nós, na América Latina, a ideia de hispanismo, ao menos relacionado às Letras, em contexto político e acadêmico, sempre priorizou uma polarização entre Espanha e América hispânica. Sabemos que essa circunstância não corresponde à realidade. Existe uma literatura de língua espanhola consolidada e reconhecida também na África e Ásia, sem esquecermos os fenômenos fronteiriços spanglish, portunhol, chicano e suas respectivas literaturas. Qual a sua análise, do ponto de vista político, artístico e linguístico sobre a relevância da língua espanhola como expressão no contexto global?
JUAN TOMÁS ÁVILA LAUREL Parece que, quando um grupo é marginalizado, sente dificuldades de identificar os elementos para encontrar um caminho ou uma via alternativa para suas questões. Deixe-me colocar um exemplo de outro contexto: é estranho observar milhares de nigerianos vidrados na Liga Inglesa de Futebol, enquanto outros milhares de africanos que poderiam e gostariam de jogar futebol para os seus muitas vezes são impossibilitados de fazê-lo. O necessário, na circunstância em que perguntas, é tentar entender os desdobramentos das dinâmicas populacionais e a relutância em reconhecer os valores da periferia. Em todo caso, essa periferia deve persistir, pois, em outras áreas do conhecimento, ocorreu que o inicialmente preterido pelas elites passou depois a ser reconhecido como essência em suas respectivas artes. Acredito que um autor tem mais condições para triunfar se tem apoio e reconhecimento local, ainda que os exemplos do contrário sejam abundantes. Acredito, ainda, que – à parte das expressões locais, sempre enriquecedoras – as literaturas da periferia têm que ser rigorosas com a norma, pois sei que apenas o conhecimento das normas básicas de uma arte pode romper para, depois, conseguir uma heterodoxia exitosa. Isso acontece tanto com a língua quanto com os pressupostos teóricos. Uma coisa que o mundo hispânico faz mal é render-se à aparente superioridade do mundo cultural anglo-saxão quando, em contrapartida, parte dessa hispanidade, que não é emergente, é também ignorada. Uma parte das populações do mundo latino-americano, e muitos africanos, gostariam de ser anglofalantes. Trata-se de um assunto que deveria fazer refletir as comunidades nas que se produz essa deserção cultural. 

CONTINENTE A Guiné Equatorial destaca-se, também, por sua literatura, já que no país há grandes escritores e intelectuais, dentre os quais poderíamos elencar Donato Ndongo, Justo Bolekia Boleka, María Nsué Agüe, Remei Sipi, Juan Balboa Doneke. É comum observá-los como destacados catedráticos e conferencistas em diversas universidades, inclusive, na Europa e nos Estados Unidos. As obras desses autores são cada vez mais reconhecidas. Porém, percebe-se que há muitos desses intelectuais que não vivem na Guiné Equatorial, ainda que se observe outros vivendo lá e os que vão e voltam. Podemos dizer que os comprometimentos com as realidades do país relativizam-se, na medida em que esses fluxos acontecem? Podemos pensar em narrativas distintas para essas diferentes circunstâncias? 
JUAN TOMÁS ÁVILA LAUREL Bom, uma parte disso já foi comentada. Existe realmente uma necessidade imperante em encontrar acolhida e também reconhecimento fora da Guiné Equatorial. Deve-se considerar o caráter oral da comunidade guineana e o fato de uma das caraterísticas do regime político do país ser a predileção pela incultura. Se os cargos diretivos e políticos estivessem em mãos de pessoas com formação adequada, não haveria espaço para a legião de analfabetos que controla o poder nacional. Então, o que acontece na Guiné Equatorial é que muitos escrevem e, além disso, lutam contra a opressão. Isso faz com que escritores peçam permissão às musas para fazer ouvir sua voz. Além do mais, já sabem que, se não falassem da literatura de seu país, dificilmente encontrariam comunidade que pudesse acolhê-los. Finalmente, há de se saber que Guiné é uma ditadura, e a sobrevivência é um dos fatores determinantes da vida humana. É normal que uns, os que vivem no país, sintam que, se falarem mais do que devem, podem acabar na miséria. Para mim, o que é pior é não apenas não dizer nada sobre a situação, mas colocar-se à disposição do detentor do poder. Ou seja, se os que calam já outorgam, imaginem os que falam a favor dos criminosos? Existe nesse assunto muita confusão. Ante a situação de opressão, o que se exige de um escritor não é que altere o conteúdo de sua produção, adaptando-a a supostos reivindicativos, mas comprometer-se com o que de fato acontece, como outros atores, aos que ninguém exige que alterem ou produzam conteúdos que podem não estar ao alcance. É um ato de traição não dar a cara pelos teus, se tua voz pode chegar mais além que a deles. 

CONTINENTE Em 2011, você fez uma greve de fome com o objetivo de chamar a atenção do mundo para o regime totalitário da Guiné Equatorial. Na ocasião, houve apoio considerável da comunidade global, inclusive, escritores e intelectuais brasileiros. Desde então, vozes guiné-equatorianas ganharam reconhecimento e força. Desde sua manifestação, o que mudou na realidade política, social e cultural de seu país? 
JUAN TOMÁS ÁVILA LAUREL O que supus sobre a greve é que muita gente que não tinha informação da situação do país se informou. E como, naquele tempo, eu vivia na Guiné Equatoriana, a greve fez com que muitas pessoas que tinham medo de expressarem seu descontentamento soubessem que a via correta era alçar a voz, ainda que fosse do Exterior. Posso dizer que, desde aquela greve, muitos jovens que estavam em uma atitude passiva passaram a ter mais atitudes e a serem mais ativos nas redes sociais. De fato, desde aquela greve, o governo guineano bloqueou o Facebook e outras redes sociais várias vezes. No momento em que agora escrevo, muitas redes sociais estão parcialmente bloqueadas. Eu mesmo acesso a rede da Guiné com um programa que fiz o download para o desbloqueio. Devo dizer que, antes da greve, muitos guineanos tinham cuidado ao se expressarem por estarem no país. Agora, é possível encontrar casos isolados de guineanos que individualmente denunciam do país. Evidentemente, sou um deles. Fazer a greve, sair do país e voltar foi importante para que a gente não se cale ante os abusos, ainda que isso aconteça num ritmo mais lento do que desejaríamos. Em todo caso, as estruturas do poder, de qualquer poder, são insuficientemente fortes para que o mesmo não vacile pelo ativismo cibernético. A situação exige dar um passo adiante.

CONTINENTE Em 2013, o governo brasileiro perdoou dívidas da Guiné Equatorial e apoiou a entrada do país na Comunidade dos Países de Língua Portuguesa, mesmo sendo a língua portuguesa a quarta língua falada no país. Os Estados Unidos se aproximaram do país e, a exemplo do governo chinês, nele atuam na exploração comercial e mineral, com o argumento de que investir na Guiné Equatorial significa investir no desenvolvimento da economia. Nota-se, com isso, cortesias e atenções diplomáticas incomuns de países relevantes na corte global, que ignoram uma das ditaduras mais antigas e sangrentas da África. A impressão que passa é a da indiferença ante o crime humanitário. Como manter a esperança em um país que é a terceira maior economia da África e, ao mesmo tempo, possui 60% da população em condições mínimas de sobrevivência? 
JUAN TOMÁS ÁVILA LAUREL Acredito que nem o Brasil nem os Estados Unidos podem tomar-se exemplos de países onde a sensibilidade pela democracia ou a liberdade de outros países sejam de interesse. A China, por exemplo, constituiu-se como o país que encobriu a hipocrisia norte-americana na temática dos direitos humanos e da democracia. A China tinha a vantagem no comércio internacional justamente por seu nulo interesse nos direitos humanos e na democracia. É um país com direito a veto no Conselho de Segurança da ONU. Haveria de se perguntar no que acreditava a ONU, ao observar que um de seus membros proeminentes nunca havia dito nada sobre o descumprimento dos direitos humanos em nenhum país, além de não os cumprir ele próprio. Acredito que, neste assunto de ser pobres na riqueza, são os próprios guineanos que devem tomar consciência. Como muitos países da África, a Guiné é uma comunidade que escapa às reflexões racionais de sua própria realidade. Fazer esforços para encontrar um caminho de autossuficiência é difícil nos países africanos, em que o pensamento mítico e as variadas maneiras de superstição lançaram suas raízes. Devo terminar dizendo que o cristianismo também é uma forma de superstição. 

CONTINENTE Seu último livro, Panga Rilene (2016) está sendo reconhecido como uma obra fundamental em língua espanhola. Para alguns críticos, a obra atualiza um sentido de humanidade que, aos poucos, foi desvirtuado. A ideia de que  somos orientados para um mundo que não existe é bastante significativa. O que significou para você escrevê-lo? 
JUAN TOMÁS ÁVILA LAUREL De todos os adivinhos, espíritas e magos que tentaram predizer o futuro, os únicos que fizeram um mundo distante de sua contemporaneidade – sem pretender fazê-lo, e com pasmosa exatidão – foram os escritores. Podemos mencionar Julio Verne e Aldous Huxley, o autor de Um mundo feliz. Depois de ler Panga Rilene, que é obra minha, cresço na convicção de que, para os indivíduos de raça negra, o futuro está cheio de nuvens carregadas – negros nubarrones (nuvens negras). Panga é um livro de ficção científica que alguns críticos enquadrariam como afrofuturista. Acredito que é uma de minhas obras fundamentais e, até onde saiba, não foi bem-recebida. Ao responder estritamente à pergunta, digo que, ao ser guineano, o provável é que os escritores esperem que aborde o âmbito guineano ou, como muitos, o africano. Aos que pensam assim, deveria ser perguntado por que enquadram os escritores, como se faz com Julio Verne, se o rótulo pretendido não tem correspondência? 

CONTINENTE Quais são seus projetos atuais?
JUAN TOMÁS ÁVILA LAUREL Acredito que meu projeto é sobreviver. Dia após dia. 

 

 

Publicidade

veja também

A voz hispânica da África

A África de língua espanhola e suas literaturas

comentários