O segredo da longevidade de Jorge Luis Borges
História contada pelo escritor a um grupo de crianças que o visitou em casa, nos anos 1980, é retomada em livro por um menino que participou da visita
TEXTO Mariana Camaroti
01 de Julho de 2017
Ilustração Diego Alterleib/Divulgação
[conteúdo da ed. 199 | jul 2017]
Corria o ano de 1981 em Buenos Aires e o pequeno Matías Alinovi viveria uma aventura casual e única, daquelas que deixam marcas numa criança para sempre. Junto com os colegas da escola, passaria a tarde na casa de um dos maiores escritores argentinos e mais respeitados da língua espanhola, Jorge Luis Borges. Autor de contos, ensaios, poemas e crítica literária, ele improvisou e impressionou o seu desavisado público com o que seria seu único e jamais escrito conto infantil. Naquela tarde, as crianças sentaram-se no chão da sala de Borges para ouvir atentamente seu relato fantástico e envolvente sobre como havia conseguido chegar a ser tão velho. Borges nasceu em 1899 e, naquele então, somava 82 primaveras. Trinta e seis anos depois, aquele despretensioso relato se tornaria o livro El secreto de Borges (Editora Pequeño Editor), lançado há pouco na Argentina, na Feira Internacional do Livro de Buenos Aires.
“Me marcou ver Borges sentado numa poltrona verde, com uma cortina atrás, quando a senhora que o cuidava abriu a porta. E ele contou a história tão bem sobre a sua longevidade, usando recursos que retiveram nossa atenção desde o primeiro instante, fazendo com que aquela tarde ainda hoje esteja tão viva na minha cabeça”, revela o autor. Físico e escritor, Alinovi pensou em imortalizar aquele momento em um ensaio, artigo ou crônica, mas recuou, diante da ideia ambiciosa de escrever sobre esse grande escritor.
“O plano foi amadurecendo, até que um dia deu um estalo: escrever para crianças o que aconteceu com uma criança. E aqui está.” Com capa dura, 40 páginas e ilustrações de Diego Alterleib que ambientam a história, o livro não apenas entretém o leitor com uma boa história infantil, mas também introduz nos pequenos esse ícone da literatura latino-americana. Um resumo da sua vida contextualiza Borges na Buenos Aires em que nasceu, cresceu e envelheceu.
Tudo começou quando Matías Alinovi escutou do seu amigo JuanManuel, na saída da escola, que naquele dia, excepcionalmente, não iria mais tarde à praça brincar acompanhado da avó. Não. Naquele dia iria com um tal Borges. A cara do amigo foi de tristeza, levando a supor que, certamente, pelo novo acompanhante ,eles não poderiam se divertir tanto como em outras oportunidades.
Matías, por outro lado, não tinha a mínima ideia de quem era o acompanhante e, ao chegar em casa, comentou com a mãe a novidade. “Juan Manuel mentiu pra você, Matías”, disse a mãe, explicando que Jorge Luis Borges era um escritor argentino muito famoso e que não poderia ir à praça com o amiguinho. “Ele deve ter escutado esse nome por aí e repetiu”, justificou.
Mas era verdade. Na hora combinada, lá estava Juan Manuel do outro lado da rua, esperando para atravessar com um senhor velho, cego e distraído, que se apoiava no seu braço. Como todas as tardes na tradicional Praça San Martín, no coração de Buenos Aires, os estudantes correram para o parquinho, subiram no monumento ao herói nacional e riram, enquanto Borges continuava sentado num dos lindos e antigos bancos de pedra da bela praça. A presença do acompanhante não impediu a diversão da dupla.
Obviamente, no dia seguinte, a professora já sabia do acontecido e perguntou detalhes ao menino, que explicou que, junto com a avó, morava com Borges. A avó era quem cuidava daquele ancião cego. A mestra oportunidade que se apresentava diante dela. Pediu que Juan Manuel perguntasse a Borges se os meninos do quarto ano do Ensino Fundamental poderiam visitá-lo. A resposta, surpreendentemente, foi sim.
A professora disse que os alunos precisavam então preparar perguntas para fazer ao escritor. “Vamos lá, meninos, que perguntas vocês fariam a Borges?” E os meninos, com sua ingenuidade e sensibilidade, foram sagazes em dois temas que continuamente rodearam o autor de Historia universal de la infamia. A primeira foi “Quantas vezes ganhou o Prêmio Nobel?”. Na mosca. A segunda: “Quantas vezes se casou?”. Bingo. Mas a professora disse que não, essas perguntas não poderiam ser feitas. “É uma lástima que ela não tenha deixado fazer essas perguntas, porque as duas eram certeiras. E o que ele teria respondido? Isso me intriga”, diz o autor.
Borges nunca contraiu matrimônio e, por essas injustiças da vida, nunca recebeu o máximo prêmio de literatura. Apesar da sua consagração e reconhecimento internacional ainda em vida, a sua sexualidade provavelmente influenciou de maneira negativa. Matías lembra um ano no qual, muito cotado para receber o Nobel, Borges chegou ao responder com humor e ironia quando entrevistado a respeito. “Eu sempre serei o futuro Prêmio Nobel. Deve ser uma tradição escandinava.”
O GRANDE DIA
Chegado o dia da visita à casa do escritor, os estudantes foram recebidos pela avó de Juan Manuel, que abriu a porta. Bombons importados aguardavam numa bandeja como boas-vindas. As crianças, por sua vez, levaram um pacote de Sugus (bala popular na Argentina). O escritor estava sentado numa poltrona verde, com seu bastão apoiado ao lado, numa sala solene de piso de madeira e adornada com uma enorme cortina. Imagem guardada como uma fotografia na mente de Matías. A casa de Borges, num bairro portenho senhorial e conhecida por ter uma abundante biblioteca, com livros do mundo todo, era por si só um grande passeio para o grupo.
Após perguntar o nome de cada um dos expectadores, o anfitrião confessou que antes de que eles chegassem ele tinha dois medos. O primeiro era que as crianças fossem, já que ele não saberia o que falar para estudantes do quarto ano. O segundo, ainda maior, era que elas faltassem ao encontro marcado. Portanto, agora, disse, estava feliz pois elas haviam ido.
Ciente de que sua figura provavelmente impressionaria os visitantes, Borges finalmente disse: “Vou contar para vocês como consegui viver tantos anos”. Aqueles olhinhos que vagavam pelos detalhes da elegante casa, pousaram então expectantes sobre ele. Daí em diante, Borges começou a fazer o que havia feito a vida toda: contar histórias.
Falou que, na enorme casa em que vivia quando pequeno, no Bairro de Palermo, havia um chafariz de onde retirava água. Todas as casas do lugar tinham um poço, abastecidos pela mesma lagoa. Acontece que um vizinho colocou tartarugas no poço, com a ajuda de um balde amarrado a uma corda. Com a luz que lhe chegava de todos os chafarizes, as tartarugas nadavam contentes, levantando a cabeça de vez em quando, espetáculo que os moradores apreciavam de lá de cima.
Certo dia, ao refletir sobre essa curiosa fauna que habitava a Lagoa de Palermo, Borges deduziu que não bebia qualquer água, mas, sim, água de tartaruga. E que, como elas viviam muitos anos, provavelmente teriam transmitido a ele a mesma fortuna.
Não se sabe até hoje se ele criou essa história ou se se baseou no livro de Mujica Lainez El hombrecito del azulejo, que também fala de um poço e suas tartarugas. Borges e Mujica faziam parte do mesmo grupo de finos intelectuais da sociedade portenha, que frequentavam os mesmos ciclos e mantinham posições políticas polêmicas e semelhantes. Borges morreria em 1986, aos 87, em Genebra, onde foi sepultado.
O extraordinário segredo da longevidade intrigou os alunos, que retornaram andando à escola, próxima àquela casa. O conto do chafariz e a água das tartarugas voltaria à tona em muitas conversas entre Matías e Juan Manuel, como este ano, quando o autor levou ao amigo o livro que acabara de publicar.
Juan Manuel, que quando menino não tinha noção da extraordinária casa em que vivia, que o velho Borges era um escritor famoso e que fazia as tarefas escolares rodeado por uma invejável biblioteca universal, ficou feliz em ver em livro um lapso da sua infância. El secreto de Borges voltaria a unir, então, as vidas daqueles dois amigos de escola e praça, de certa forma separadas pelo destino.