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O despertar da arte contemporânea

A professora e pesquisadora Jane Pinheiro publica, quase 20 anos depois da defesa, sua dissertação, que documenta a cena artística recifense dos anos 1990

TEXTO Mariana Oliveira

01 de Abril de 2017

A mostra Arte Contemporânea (2000-1) Pernambuco reuniu, em 1999, muitos artistas da cena no MAMAM

A mostra Arte Contemporânea (2000-1) Pernambuco reuniu, em 1999, muitos artistas da cena no MAMAM

Foto Jane Pinheiro/repordução

[conteúdo da ed. 196 | abril 2017]

No catálogo da exposição Pernambuco moderno (2006), o curador Paulo Herkenhoff assina o texto  Do Recife para o mundo: o Pernambuco moderno antes do Modernismo. Nele, é feito um resgate de nomes que, antes mesmo da Semana de 22, já abriam os caminhos do projeto de modernismo brasileiro. Dizia ele: “É preciso começar a desconstruir a história montada no Sul para que Pernambuco possa sair do papel de espelho e volver à lente que foi. Essa é a tarefa da historiografia pernambucana da modernidade: tornar visível a diferença pernambucana. Todas as visões totalizadoras do Brasil são problemáticas. O país não se resume a um único modelo, dada sua complexidade. Foi assim com o moderno, o Modernismo e a experiência pernambucana. O paradoxo é que toda intencionalidade geopolítica modernista ou a sua historiografia que desfaça Pernambuco deve ser reavaliada”, escreve.

O estado foi protagonista em muitos movimentos estéticos da história brasileira, mas, ao longo dos anos, sempre lhe faltou um aparato que pudesse dar visibilidade e amplitude nacional a essas atividades no campo das artes. Foi só em meados da década de 1990 que começaram a surgir iniciativas e instituições que visavam incluir essa produção num contexto nacional. A citada exposição vem justamente na esteira dessas propostas.

Essa década e sua importante contribuição para as artes visuais pernambucanas foi o ponto de partida para a pesquisa de mestrado da professora Jane Pinheiro, que ganhou publicação agora, quase 20 anos depois de sua defesa, em 1999. Arte contemporânea no Recife dos anos 1990 apresenta, num formato editorial bem particular, como se organizavam os artistas contemporâneos pernambucanos e como, a partir de ações que envolveram várias instituições, eles conseguiram ser vistos e reconhecidos para além do contexto local, outra vez desconstruindo ideias consagradas nos eixos centrais da arte sobre essa produção.

Naquele momento, a arte pernambucana era inevitavelmente associada a obras regionalistas. Assim como, no passado, havia o desconhecimento do que produziam artistas como Vicente do Rego Monteiro e Lula Cardos Ayres, também não se vislumbrava uma produção contemporânea profícua, na qual os elementos regionais não eram relevantes. “A produção pernambucana sempre foi arrojada, mas havia um aprisionamento numa determinada caracterização. Vejo o final da década de 1990 como um momento em que o olhar para Pernambuco mudou e passou a ser mais acolhedor a essa produção contemporânea”, pontua Jane Pinheiro.

Essa descoberta, esse novo olhar externo para a cena pernambucana, tem uma relação direta com uma série de iniciativas de instituições como a Fundaj, que passou a promover cursos na área; com a criação do Instituto de Arte Contemporânea (IAC), ligado à UFPE; a conceituação do Mamam como museu e a chegada de Marcos Lontra para coordená-lo. O próprio curador, convidado a escrever o prefácio do livro de Jane, destaca: “O Mamam estrutura-se a partir dessa necessidade de incluir a produção artística pernambucana no contexto artístico nacional dos anos 1990”.

Para a pesquisadora, a presença de Lontra foi algo fundamental, não só pelas mostras expressivas dessa geração produzidas por ele no Mamam, mas por sua grande interlocução com os mais diversos agentes do mundo da arte, colocando o Recife em diálogo com o mundo, trazendo artistas de fora para exibir na cidade, mas sem esquecer de abrir espaço para a produção local, convidando curadores para atividades diversas. À época, passaram por aqui nomes como Tadeu Chiarelli, Fernando Cocchiarale, que visitavam ateliês, faziam leituras de portfólios, e começavam a conhecer a produção local e atestar sua consistência. Esse período, documentado por Jane Pinheiro, foi determinante também para que artistas como Paulo Bruscky – que tinha uma trajetória bastante longa, iniciada por volta da década de 1970, e que já estava em contato com movimentos internacionais, mas que ainda não tinham espaço no território nacional – ganhassem visibilidade.

GRUPOS E FOTOGRAFIA
Na obra, a pesquisadora se detêm em artistas que compunham dois grupos: o Camelo e o Carga e Descarga, além da artista – hoje mais conhecida como gestora – Betânia Corrêa de Araújo. Segundo Jane Pinheiro, o recorte necessário para pesquisa usou como critério a seleção de nomes que estivessem trabalhando com as mais diversas formas de expressão.

O grupo Camelo, formado por Ismael Portela, Jobalo, Marcelo Coutinho, Paulo Meira, Renata Pinheiro e Oriana Duarte, foi criado oficialmente em 1996. Os integrantes não buscavam uma produção conjunta, mas, sim, uma interlocução, uma conversa, uma discussão sobre a arte. Essa proposta – consagrada no projeto Camelo no IAC, que promoveu individuais ao longo do ano, com um vernissage seguido por uma mesa redonda – deu a eles uma imagem de grupo intelectualizado. “A proposta do Camelo, como grupo instituído, era de criar um corpo com possibilidades maiores de articulação com o sistema de legitimação de produção, com maiores condições de diálogo com a sociedade e de conquistar um espaço para os trabalhos que seus integrantes estavam desenvolvendo na cidade. Um trabalho que não estava diretamente voltado para questões regionais e que não se inseria na tradição pernambucana de pintura e escultura”, escreve a autora.

Entre os diversos depoimentos transcritos no livro, chama a atenção um de Paulo Meira sobre sua primeira performance, realizada em 1997, na sua individual O sono turbulento, no IAC. Meira conta que faria sua estreia em performances sem nunca ter assistido a uma ao vivo. “Eu não sabia como era, eu nunca vi antes e até brinquei da minha condição, pois fiz a performance e continuo sem ter visto. Eu fiz e, por isso, não vi.” São falas como essa que, lançadas ao longo do livro, vão recriando a cena das artes recifenses na década de 1990 e comprovando a importância do período para a consolidação da produção contemporânea, mas também para o resgate de boa parte da produção anterior que havia vivido um ostracismo de anos.

O outro grupo que tem espaço na obra é o Carga e Descarga, formado por Flávio Emanuel, Maurício Silva, Márcio Almeida e Dantas Suassuna. Todos frequentavam o Bar Royal, no Bairro do Recife, e decidiram criar uma revista. A publicação nunca foi editada, mas um coletivo terminou se estruturando a partir dela. Diferentemente do Camelo, o Carga e Descarga realizava trabalhos em conjunto, tais como performances e ações em eventos na rua, numa guinada clara para a produção de uma arte pública. “A marca mais forte do Carga e Descarga é, para mim, o fato de eles insistirem em realizar criações coletivas. Os trabalhos do grupo são criados em conjunto. Eles se dispõem a lidar com todas as dificuldades que uma empreitada desse tipo requer, como a dificuldade de várias pessoas trabalhando juntas, uma interferindo no trabalho das outras.”

Além de dar voz aos artistas selecionados, um espaço importante da obra trata da aproximação da Antropologia com a fotografia e a arte contemporânea. O peso dessa questão é tão forte, que um dos capítulos é dedicado exclusivamente às imagens, que surgem como protagonistas e não como acessórios de um texto, sem legendas e sem informações complementares à vista. “A imagem fotográfica fala de coisas que a imagem verbal não consegue falar, esse é o ponto. E esse é o ponto que, na minha maneira de perceber, possibilita que a utilize como forma de expressão, como texto, como metáfora, e não apenas como registro ou documento, num trabalho de cunho antropológico. Pela fotografia, pode-se fazer convergir ciência e arte num só trabalho: um ampliando o outro. A arte já se deu conta da riqueza do viés antropológico para seu território, as grandes exposições internacionais recentes dão mostra disso”, escreve a pesquisadora.

Durante a banca do mestrado, foi em silêncio também que a autora apresentou essas fotos, apostando na potência das mesmas. “A fotografia era, na época, um modo de expressão muito relevante para mim. Talvez, dentro da Antropologia, a maior contribuição que eu tenha deixado seja justamente esse olhar sobre as relações entre a fotografia, a arte e a Antropologia”, diz, lembrando a atualidade da discussão.

APROXIMAÇÃO
Foi em 1993, quando Jane Pinheiro iniciou suas atividades como professora de artes no Colégio de Aplicação da UFPE, que ela passou a estabelecer um diálogo mais próximo com a cena artística contemporânea do Recife. A troca com os adolescentes levou-a a se questionar como se dava a aproximação deles com a arte contemporânea. Passou, então, a frequentar as exposições em busca de respostas sobre essa relação e foi com esse problema que iniciou sua pesquisa de mestrado em Antropologia.

Ela se inseriu na cena e passou também a fazer parte dela. Não era uma pesquisadora que se colocava num ponto distanciado. Infiltrou-se nos grupos, fez amizades, criou intimidade, fez trabalhos em conjunto, fotografou algumas mostras e ações. Nesse processo, a pesquisa passou a ganhar novos contornos. Afinal, ela havia presenciado, de um lugar privilegiado, ao longo de cerca de quatro anos, o momento em que a arte contemporânea pernambucana, que não trazia claramente elementos associados ao Nordeste e ao regionalismo, começava a ser reconhecida no circuito nacional como nunca antes. “Eu percebi que tinha esse material na minha mão. Uma pesquisa sobre a recepção da arte contemporânea qualquer outra pessoa poderia fazer. Mas eu tinha vivenciado um momento muito especial de uma posição muito privilegiada”, conta.

O fato de estar muito próxima gerou nela uma angústia, afinal há um ponto ideal que deve ser alcançado pelo pesquisador, perfeito em distância e em proximidade. Foi dentro desse contexto e desses questionamentos que a autora decidiu-se por construir uma dissertação pouco convencional, na qual sua presença e voz aparecem de modo direto, quase como um diário de bordo daquilo que ela havia acompanhado.

Para sustentar teoricamente suas opções, buscou referências em Edgar Morin. “Encontrar Morin e os autores de complexidade foi como um conforto epistemológico. Com base neles, eu podia desenvolver aquilo em que acreditava, trazendo mais suavidade para a ciência, trazendo a arte para dentro da ciência.” Foi a partir da proposta de Morin – que o sujeito da pesquisa se repense a si próprio dentro do corpo da pesquisa –, que Jane Pinheiro optou por estar presente no texto através da narração de uma terceira pessoa.

EDIÇÃO
O livro é uma publicação na íntegra da dissertação, sem adaptações textuais. “Os textos guardam, portanto, o frescor dos escritos no calor da hora, de quando a autora artista vivenciava, com apaixonada imersão participante, a teoria da complexidade e a antropologia visual na cena contemporânea do Recife de 1990”, escreve a editora, Maria Alice Amorim, numa nota em que detalha o projeto.

Há uma alternância de vozes na narrativa, bem marcada por elementos gráficos. Num texto central, a pesquisadora expõe sues questionamentos, aponta seus referenciais teóricos, dá voz aos artistas, explica suas escolhas, fala do seu problema, inclusive utilizando a primeira pessoa. Num segundo texto, que vai surgindo em meio ao discurso principal, uma terceira pessoa narra fatos e vivências muito particulares da vida da pesquisadora, num emaranhado de informações que dá ao texto um tom intimista de diário. “Minha vida não parou enquanto eu fazia o mestrado.”

O projeto gráfico segue as referências utilizadas quando da defesa da tese, em 1999. As fontes tipográficas, a capa, a identidade visual, tudo estabelece uma conexão com essa primeira “montagem” do texto. Como se trata de uma edição bilíngue, entra agora o texto em inglês, lançado ao reverso, dando à obra duas capas, uma em cada língua, e se intricando no miolo do livro de modo não muito convencional, assim como a vida e a produção acadêmica da autora se conectam no texto. Um texto não convencional não poderia ter um projeto gráfico convencional. Dessa forma, a edição entra em sintonia com a proposta de mesclar arte, vida, ciência.

Sua publicação, após quase 20 anos da defesa da dissertação, possibilita uma aproximação do público e também de outros pesquisadores com os acontecimentos que marcaram a cena artística pernambucana na década de 1990, os quais foram certamente fundamentais para a espécie de boom vivido nas artes visuais locais no início dos anos 2000. A autora e a editora Maria Alice Amorim veem a obra, na verdade, como um documento histórico não só sobre a produção de arte, mas também sobre a própria produção acadêmica. Isso foi feito dessa forma dentro da academia”, diz a autora, cujo doutorado também em Antropologia trabalha, em linhas gerais, com uma mostra imaginária de cinema. 

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