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Jerry Lewis: Os 90 anos do diamante da comédia

Ator, roteirista e diretor norte-americano, que redefiniu o humor no cinema falado, mantém-se como a maior lenda viva do riso

TEXTO Débora Nascimento

01 de Março de 2016

Jerry Lewis

Jerry Lewis

Foto Divulgação

Martin Scorsese, no começo de sua carreira, costumava levar aos sets de filmagens um mesmo livro: The total film-maker. A publicação de 1971 reunia os temas das concorridas aulas de um certo professor aloprado da Universidade da Califórnia: Jerry Lewis. Constavam, dentre os alunos da pós-graduação em Cinema, Steven Spielberg e George Lucas, dois iniciantes que se tornariam, em meados dos anos 1970, os nomes mais poderosos da indústria cinematográfica norte-americana, status que, nas duas décadas anteriores, pertencera ao próprio Jerry Lewis. “Ele foi o maior astro do mundo”, atesta Billy Cristal.

Durante oito anos, o famoso docente ensinou o que vinha aprendendo desde quando estreou nas telas, em 1949. A trajetória de Joseph Lewitch, descendente de judeus russos, nascido em 16 de março de 1926 em Newark (Nova Jersey), começou muito cedo. Com apenas cinco anos, a pedido de um contratante dos pais, foi iniciado na vida artística, ganhando U$ 10 por participação no show do pai e da mãe, Danny Lewis, mestre de cerimônias, e Rachel Lewitch, pianista e maestrina. O casal integrava a última geração do vaudeville. Dez anos depois, o filho único, criado pela avó, passou a fazer turnês sozinho como entertainer. Sua especialidade era a mímica sobre músicas, algo que futuramente estaria em algumas de suas memoráveis cenas nas telas.

A porta para o estrelato foi aberta quando, em 25 de julho de 1946, convenceu o então cantor iniciante Dean Martin a formar dupla com ele. Passaram a se apresentar em palcos de pequenos teatros e casas de shows, depois no cinema e na TV (NBC). No final dos anos 1940 e início dos anos 1950, a dupla atraía uma multidão, cerca de 20 mil fãs tumultuando o centro de Nova York. “Quando estouraram, foi como Beatles, Sinatra, Elvis. Havia milhares de pessoas nas ruas. Parecia festa de Ano-Novo. Eles foram os primeiros rock stars, numa época em que ainda não havia rock stars”, lembrou Eddie Murphy, um dos vários comediantes influenciados e beneficiados por Jerry Lewis, que elevou o patamar profissional da categoria. Em seis meses de formação, o duo Martin & Lewis passou a receber de U$ 450 a U$ 20 mil semanais. “Eles redefiniram a natureza do show business”, avaliou o humorista Richard Lewis (o sobrenome não tem a ver com Jerry). A dupla de ouro foi disputada acirradamente por vários estúdios. O Paramount venceu.


Jerry entre o pai, Danny, e o primeiro dos seus filhos, Gary. Foto: Divulgação

Jerry Lewis surgiu no ainda conservador período do pós-guerra, seu humor ingênuo e anárquico tornou-se entretenimento para toda a família. Na época, o cinema falado se firmava como mercado extremamente rentável em meio ao historicamente difícil campo da arte; diretores talentosos ganhavam fama; atores, com a ajuda extra da imprensa, do rádio e da TV, eram alçados ao posto de estrelas internacionais, e os estúdios já tinham aprendido seu modus operandi: descobrir, comprar, revelar, manter, usar e até fabricar talentos, para, enfim, fazer muito dinheiro.

O começo da dupla no cinema foi arrebatador. Embora Jerry Lewis fosse jovem, simpático, alto e bonito o suficiente para encarar o papel de galã, este encargo ficava com Dean Martin. A química perfeita entre o pateta e o conquistador funcionou durante exatos 10 anos, de 25 de julho de 1946 a 25 de julho de 1956. Nas horas vagas, enquanto Dean, com seus 30 e poucos anos, casado e com três filhos, aproveitava para desfrutar da fama ao lado de mulheres e bebidas, Jerry, com 20 e poucos, também casado e com o primeiro dos seis filhos, circulava pelos bastidores dos estúdios para conhecer todo o processo de realização de um filme. Isso seria crucial para o futuro de Jerry, após o rompimento da dupla milionária, que, entre 1949 e 1956, protagonizou 16 bem-sucedidas comédias.

A ótima recepção das películas pós-separação atestou o que todos já desconfiavam: Jerry era quem atraía a maior parte do público aos cinemas. Poderia, então, segurar sozinho o protagonismo, tanto nas telas quanto nos gibis publicados pela DC Comics e lidos vorazmente por milhares de fãs, como o garoto Quentin Tarantino.


Em 1982, com o fã Martin Scorsese, no set do filme O rei da comédia.
Foto: Divulgação


Vendo o ator tão jovem e com trejeitos abobalhados, a plateia não fazia ideia do quão rico e poderoso seu ídolo era. “Se ele quiser queimar um estúdio, eu dou um fósforo”, costumava dizer Barney Balaban, presidente do Paramount, que ofereceu um novo contrato, prontamente assinado pelo artista workaholic: ganharia U$ 800 milhões para realizar 14 filmes em sete anos.

COMO DIRETOR
O astro permaneceu trabalhando com diretores como Frank Tashlin, George Marshall e Don McGuire, mas a estreia por trás das câmeras em O mensageiro trapalhão (The bellboy), em 1960, confirmou o múltiplo talento. Considerado por muitos como sua obra-prima, o filme era ambicioso e ousado para a época, seu público e Hollywood; não havia história, enredo, personagens. Montado a partir de sequências de gags hilárias, mostrava o cotidiano de um camareiro desastrado. Em pleno período da explosão das cores no cinema, foi rodado em preto e branco com uma fotografia arrojada e arriscada dentro do Fontainebleau Hotel, em Miami Beach.

Como de costume, o Paramount lançava dois filmes de Jerry Lewis por ano: um nas férias de julho, outro no Natal. O artista já tinha um pronto para o verão, Cinderelo sem sapato. No entanto, só queria lançá-lo em dezembro. Para cumprir a demanda do estúdio, The bellboy foi escrito, produzido, dirigido e atuado pelo gênio em tempo recorde (48 dias), mas houve uma condição: teria os direitos sobre a produção. Resultado: arrecadou U$ 300 milhões e a atenção da crítica.

Embora fosse sucesso de bilheteria, ou talvez até por isso, Jerry não despertava o respeito dos críticos norte-americanos, mais interessados no trabalho de diretores como Billy Wilder, William Wyller e Alfred Hitchcock. No entanto, era tratado como um deus na Itália, Alemanha, Holanda, Austrália, no Japão e na França, onde foi escolhido o “homem do ano” pela Cahiers du Cinéma, em 1961, com O terror das mulheres. “Nunca recebi tanto apreço e amor quanto recebo dos franceses”, disse. Uma das melhores definições do humorista veio de François Truffaut: “Jerry Lewis vale por um ano todo de desenhos animados em uma única performance”.


Lewis estreou como diretor em 1960, com o filme O mensageiro trapalhão. Foto: Divulgação

Curiosamente, o personagem icônico da filmografia de Truffaut, Antoine Doinel, tem um quê de Jerry Lewis, principalmente no curta Antoine & Colette (1962) e na comédia Beijos proibidos (1968): o trapalhão nos empregos e com as mulheres. Em 1959, ano em que Doinel estreou em Os incompreendidos, também despontava outro título importantíssimo para a história do cinema, Quanto mais quente melhor. O ator, em uma das poucas falhas de sua trajetória, não aceitou o convite de Billy Wilder para interpretar Jerry, que se traveste de Daphne. O papel acabou ficando com Jack Lemmon e o filme foi e ainda é considerado a melhor comédia de todos os tempos. O comediante revelaria que se arrependeu da recusa. Alegou que não queria se travestir. Mas já havia feito isso nas suas películas e continuaria eventualmente a fazer. Uma razão mais plausível seria o fato de que, além de ator, roteirista, produtor e showman, estava investindo fortemente na função de diretor. Queria ser reconhecido também como cineasta.

Somente aceitou trabalhar num filme que fugisse ao estilo dos seus em 1982, quando Martin Scorsese o chamou para interpretar um tipo totalmente diferente, um apresentador de TV sério e impaciente, perseguido por dois fãs loucos (Robert De Niro e Sandra Bernhard), em O rei da comédia. Dez anos depois, atuou em Arizona dream, de Emir Kusturica, em que contracena com Johnny Depp.

EM 2016
Fora a recusa a Billy Wilder, Jerry também cometeu um outro deslize: o drama O dia em que o palhaço chorou (1971), que marcou o declínio de sua carreira cinematográfica nos anos 1970. Nele, interpreta um clown que tenta animar crianças num campo de concentração nazista. Considerado de péssima qualidade por ele e pelo estúdio, o drama nunca foi lançado, mas uma ideia semelhante conquistou o Oscar de Melhor Filme Estrangeiro de 1999, A vida é bela. Ele reconheceu que o longa-metragem dirigido por Robert Benigni era melhor do que o seu. Mas isso o mundo só vai saber realmente em 2026, quando O dia em que o palhaço chorou estará liberado para lançamento. Nesse ano, nosso herói completará um século de nascimento. A expectativa é que consiga chegar até lá. Afinal, já sobreviveu a um câncer de próstata, úlcera, fibrose pulmonar, diabetes e três enfartes (1958, 1959, 1982, 2006). O segundo lhe ocorreu aos 35 anos, em dezembro de 1959, após terminar de subir 66 degraus em 8 segundos na filmagem da cena do baile de Cinderelo sem sapato (Cinderfella).

Na década de 1990, o nome de Jerry voltou aos holofotes com a refilmagem de um de seus clássicos, O professor aloprado, produzido por ele e estrelado por Eddie Murphy. Disse, mais tarde, que não deveria ter aprovado o remake. Seu argumento: não se muda o que já é perfeito. A falta de modéstia é aceitável, afinal, a interpretação dos dois papéis no título de 1963, dirigido por ele, foi marcante.


O professor aloprado rendeu remake nos anos 1990. Foto: Divulgação

Embora tenha seu próprio estilo, o cinema de Jerry Lewis abrange influências do teatro burlesco, de Harold Lloyd, Buster Keaton, Charlie Chaplin (na importância dada à expressão corporal e facial, aos gestos tanto exagerados quanto sutis e, assim como o ator e cineasta inglês, também compunha músicas para seus filmes, embalados a jazz), Looney Tunes (ao aplicar brincadeiras visuais, a exemplo dos braços esticados até os pés em uma cena de O professor aloprado), e Hitchcock (ao construir um cenário gigantesco à maneira de Janela indiscreta, em O terror das mulheres, que resultou numa das melhores fotografias de sua filmografia).

Nas filmagens de O terror das mulheres, ainda entrou para a história como pioneiro no uso do video assist system – muitos atribuem a Lewis a invenção. O aparelho exibe no set o que a câmera está filmando. A tecnologia, que proporcionava ao artista cumprir as funções de ator e diretor, revolucionou o cinema mundial a partir de então. Os cineastas, dali em diante, não ficariam mais tão reféns do olhar dos operadores de câmera e passariam a ver e avaliar, no próprio estúdio, elementos como fotografia, atuação, figurino, cenário e maquiagem.

Após conseguir superar o já estrondoso sucesso no cinema ao lado de Dean Martin e vender 7 milhões de cópias com seu único álbum Jerry Lewis just sings, lançado no mesmo ano do fim da dupla, só reencontrou seu antigo partner 20 anos depois da separação. Esse momento, que oscila entre emocionante e constrangedor, aconteceu ao vivo, diante de milhões de telespectadores, no programa beneficente Jerry Lewis MDA Telethon (em prol da luta contra a distrofia muscular), e foi arquitetado secretamente pelo amigo de ambos, Frank Sinatra.

Em 2005, uma década depois da morte do ex-parceiro, Jerry publicou o livro Dean and me: A love story – talvez uma tentativa de dar sua versão dos fatos após a repercussão do filme para a TV A verdadeira história de Martin e Lewis (2002), que descortina os bastidores da dupla e mostra como a diferença de idade e de comportamento afetou a convivência. Embora a redução da importância dos papéis de Dean, pelo Paramount, tenha sido decisiva para o fim.


Jerry Lewis reviveu papel de camareiro em filme com Leandro Hassum. Foto: Divulgação

O Brasil teve uma pequena chance de usufruir do talento desse gênio. Ele, surpreendentemente, acolheu o pedido para fazer uma ponta na comédia Até que a sorte nos separe 2 (2013), repetindo o papel de O mensageiro trapalhão (1960). O seu sim causou furor na equipe. “Foi o prêmio maior que um comediante pode ter: trabalhar com o cara que eu considero o maior de todos os tempos”, disse o protagonista Leandro Hassum.

O humorista brasileiro soma-se a uma lista de tantos outros influenciados por esse imbatível e incansável professor. Jerry, agora aos 90 anos, não se aposentou, muito menos abandonou o espírito infantil, continua firme na missão de atuar e de fazer rir (eventualmente faz stand-up comedy e, neste ano, participa de mais dois filmes!). Fãs como Billy Cristal, Leslie Nielsen, Steve Martin, Jim Carrey, Michael Richards, Chris Rock, Julia Louis-Dreyfus e Carol Burnett devem muito a ele e são unânimes em apontá-lo como a maior lenda viva da comédia. Mais um deles, Jerry Seinfeld sentenciou: “Se você não entende Jerry Lewis, não entende a comédia, porque ele é a essência da comédia. Ele é o diamante da comédia”. 

DÉBORA NASCIMENTO, repórter especial da revista Continente.

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