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Minsk: Realismo socialista na arquitetura

Ao andar pelas ruas da capital da Bielorrússia, o visitante entra em contato com a memória do socialismo soviético, em construções erguidas nos padrões do neoclássico stalinista

TEXTO Marcelo Abreu

01 de Novembro de 2015

Minsk

Minsk

Foto Divulgação

A Avenida Nezalezhnostsi corta o centro de Minsk e é um aberto e amplo museu de arquitetura. Em poucos outros lugares do mundo, a monumentalidade bombástica da arquitetura baseada no realismo socialista foi praticada de forma tão evidente como na capital da Bielorrússia. Destruída quase completamente no final da Segunda Guerra Mundial, Minsk foi reerguida a partir do final dos anos 1940, no melhor estilo soviético, o chamado neoclássico stalinista, usado para a glorificação da classe trabalhadora supostamente no poder. Com o fim da União Soviética, em 1991, a república da Bielorrússia tornou-se independente, mas soube preservar o conjunto arquitetônico.

A avenida principal da cidade reúne o que há de mais curioso no estilo. A mudança no nome da rua reflete as vicissitudes da história. No período soviético, chamava-se Leninski Prospekt (Avenida Lênin). Com a desintegração da URSS, quando se tentava afirmar a identidade nacional, passou a ser conhecida como Frantsysk Skaryna, em homenagem ao humanista bielorrusso do século 16, considerado como herói nacional por ter sido o primeiro a imprimir uma tradução da Bíblia no idioma eslavônico antigo. Já na década passada, a mesma avenida tornou-se Nezalezhnostsi, que significa “independência”. Dependendo da placa ou do mapa consultado, de alguma forma, todos os nomes ainda são citados para designar o mesmo lugar.

A Avenida Independência começa no centro-sul da cidade, na praça do mesmo nome, onde estão situados o Palácio do Governo e a Universidade Estatal – com uma estátua de Vladimir Lênin no centro. E segue em direção ao noroeste com seis faixas de rolamento e calçada amplas, abrigando dos dois lados edifícios imponentes, como os Correios e Telégrafos, o Hotel Minsk e o Cinema Tsentralnyi. Atenção especial merece a sede do Ministério do Interior, responsável pela segurança interna no país (leia-se, controle dos dissidentes políticos), que divide as salas do amplo edifício com os agentes da KGB, a polícia secreta local. O edifício neoclássico com colunas gregas em cor amarelada é harmonioso, mas quem passa na frente olha com receio para suas janelas de vidro, imaginando que pode estar sendo observado do lado de dentro.

Em seguida, na Praça de Outubro – o centro cívico da capital – estão os enormes prédios do Palácio da República e o Museu da Grande Guerra Patriótica. O Palácio de Cultura dos Sindicatos é outro belo exemplo do neoclássico socialista com suas imponentes colunas gregas. Curioso é também o estilo do Circo Estatal. Ao contrário do que acontece no Ocidente, os circos no antigo mundo socialista não são estruturas temporárias de lona, mas grandes ginásios cobertos, de concreto, que mantêm programação o ano inteiro.

A avenida continua com grandes edifícios como o da Gum, a tradicional loja de departamentos. Na cidade, as lojas ainda são no estilo soviético, com balcões de madeira escura separando os clientes dos funcionários, que buscam as mercadorias solicitadas nas prateleiras.


A praça Podeby Ploschad tem um enorme obelisco, em homenagem à expulsão
das tropas alemãs em 1944. Foto: Divulgação

HOMENAGEM A ESCRITORES
É no Parque Yanka Kupala que fica uma casa simples de madeira, celebrada por ter sido o local da reunião que fundou, em 1898, o Partido Social-Democrata Russo, que viria a tornar-se o Partido Comunista da União Soviética, depois da revolução de 1917. No parque, há uma grande quantidade de árvores exuberantes, amplos gramados, córregos e tem a dignidade característica dos grandes espaços públicos no socialismo, algo que parece saído de outra era, se comparado com a degradação de muitas praças e parques no Brasil. O nome é uma homenagem ao escritor Yanka Kupala, conhecido pelo seu envolvimento com a Revolução de 1917 e depois por suas posições críticas ao regime. No parque, fica o Museu Literário, construído no local da casa em que o escritor morou entre 1927 e 1941 e que foi destruída durante a Segunda Guerra. Do outro lado da avenida, a área verde continua, desta vez homenageando Maxim Gorky, um dos maiores nomes da literatura soviética.

Ali perto, outra curiosidade, evidentemente não explorada nos guias turísticos oficiais: o prédio de apartamentos em que morou, no início dos anos 1960, o desertor norte-americano Lee Harvey Oswald, que viria, logo depois, a ficar mundialmente conhecido como responsável pelo assassinato do presidente John Kennedy, em 1963.

Ao passar pelo Parque Yanka Kupala e cruzar o Rio Svisloch, a Avenida da Independência vai ficando mais larga e ainda mais imponente, até chegar na Pobedy Ploschad (a Praça da Vitória), com um enorme obelisco no centro, em homenagem à expulsão das tropas alemãs em 1944. Tudo é superlativo e solene nessa área da cidade. Se o centro de Chicago, nos Estados Unidos, representa o ápice da arquitetura moderna no capitalismo, Minsk pode ser considerada como sua antítese, uma cidade-irmã no outro sistema, o máximo em monumentalidade proletária.

Mais adiante, a Praça Yakuba Kolasa é outro bom exemplo de planejamento urbano grandioso. Uma curiosidade na área é o formato redondo e parcialmente suspenso do Kino Oktiabr (Cinema Outubro), estilo que reflete o otimismo futurista dos anos 1960. A sede da Academia de Ciências da Bielorrússia também se destaca na paisagem com sua fachada dominada por grandes arcos brancos.

SOVIÉTICO TARDIO
A grandiosidade de Minsk, entretanto, não se restringe à sua longa avenida principal. O conjunto arquitetônico é homogêneo, já que toda a cidade é resultado da reconstrução ocorrida, em grande parte, entre o fim dos anos 1940 e a década de 1960. O que surgiu depois disso também seguiu o estilo. É o caso da Avenida Pobeditelei, que margeia o Rio Svisloch, com prédios de escritório e hotéis de um lado e um enorme Palácio dos Esportes à beira do rio. Nessa área, impera o estilo soviético tardio, o padrão funcional dos anos 1970, empobrecido em relação à grandiosidade da utopia neoclássica, mas, mesmo assim, ousado, às vezes até escandaloso. Nas fachadas, ainda se veem cartazes dominados pela cor vermelha, utilizados para anunciar campanhas cívicas, e cenas de heroísmo retratadas em alto-relevo.


Um dos símbolos do país, a Biblioteca Nacional foi projetada por M.K. Vinogrdov e V.V. Kramarenko. Foto: Divulgação

Apesar de o regime ter mudado formalmente no final de 1991, a Bielorrússia é um dos países mais conservadores do Leste Europeu. O presidente Alexandr Lukashenko está no poder desde 1994, tendo sido reeleito três vezes seguidas. Há muitas acusações de violação dos direitos humanos e poucos consideram que o país se democratizou após o fim da URSS. Isso se reflete nas características arquitetônicas da capital, que se conservam em sua imponência.

Curiosamente, o centro de Minsk não conta com elementos comuns à paisagem urbana de boa parte do mundo atual. Mendigos, aglomeração de jovens alternativos, pichações, lanchonetes de fast-food, comunidades de imigrantes, comércio informal são quase desconhecidos na cidade.

Em contrapartida, a capital apresenta todos os cacoetes da sociedade centralizada e socialista: grandes prédios de estatais por toda parte, monumentos que comemoram grandes eventos cívicos – como o caso da vitória sobre os nazistas na Segunda Guerra –, e a ênfase na cultura clássica, com grandes instalações culturais nas quais se abrigam companhias de óperas, balés, teatros, cinemas, bibliotecas e museus. Esculturas de bronze e concreto, divertidas e um tanto quanto infantis, enfeitam parques e calçadas.

Existem também muitas instalações para a prática dos esportes, uma das forças do antigo bloco socialista. Boa parte dos estádios, ginásios e parques aquáticos foram erguidos num estilo audacioso, que reflete a força e a energia de modalidades variadas como levantamento de peso, tênis, hóquei e futebol.

O metrô, como é comum ocorrer nas grandes capitais que foram governadas pelos comunistas, também é eficiente e grandioso. Tem 28 estações e, numa cidade de área relativamente pequena, percorre 35 quilômetros e continua em expansão. Pelas ruas, ônibus elétricos e bondes reforçam o climaretrô.


As duas torres da estação de trem são conhecidas como as portas da cidadede Minsk.
Foto: Divulgação

Os nomes das ruas e de bairros, em língua russa ou bielorussa, dispensam traduções e refletem o clima político ainda dominante: Kommunitcheskaya, Sovetiskaya, Partizanski, Karl Marx, Engels, Sverdlov, Kropotkin, Kirov, Maiakovski e Dzerzhinski, esta, em homenagem ao famoso fundador da KGB, nascido no país.

ARES MEDIEVAIS
A única área da cidade que destoa do monumentalismo de concreto é o bairro conhecido como Traetskaye (Trindade), em que os edifícios foram reconstruídos sob o estilo dominante até o século 19. Centro da cidade no fim da Idade Média, lá se encontram casas antigas em ruas estreitas e curvas, calçadas com paralelepípedos, e velhas igrejas que foram reconstruídas com esmero. Apesar da beleza do local, o bairro parece meio artificial, sem vida própria. A reconstrução nos anos 1980 teve o objetivo de explorar turisticamente o local. Mas os turistas não apareceram. Uma viagem à Bielorrússia implica, ainda agora, em tantos trâmites burocráticos (novamente, no velho estilo soviético), que o turismo de massa acaba não sendo estimulado. Assim, as ruas de Traetskaye, com suas casas charmosas e grandes igrejas de inspiração barroca, ficam como uma obra do passado esperando um projeto de uso futuro.

A composição étnica e cultural de Minsk reflete a história da região, caminho natural entre a Europa Ocidental e a Rússia. Apenas entre 1917 e 1921, a Bielorrússia trocou de governo pelo menos cinco vezes, sendo comandada sucessivamente por russos czaristas, ocupantes alemães, nacionalistas bielorrussos, poloneses e soviéticos. Antes da invasão nazista, em 1942, a cidade tinha 300 mil habitantes. No final da guerra, somente 50 mil continuavam. Hoje, Minsk tem quase 2 milhões de pessoas, das quais 79% se declaram bielorrussos. Mas a língua russa também é amplamente falada.

A cidade se orgulha de ser um centro industrial importante, com fábricas de tratores, automóveis e refrigeradores, exportados principalmente para os países da Comunidade de Estados Independentes, que substituiu o antigo mercado soviético. Quarenta por cento dos trabalhadores estão empregados nas fábricas. Esse lado proletário explica, em parte, a adesão da capital bielorrussa ao passado comunista. Alheia à expansão imobiliária dominada pelo aço e pelo vidro, Minsk parece consolidar sua posição como museu vivo da arquitetura socialista. 

VARSÓVIA: Memorabilia soviética
Se temos ousadia suficiente para ir à capital da Bielorrússia, não podemos perder a chance de conhecer a vizinha Varsóvia, capital da Polônia, 475 km distante de Minsk. Como várias cidades europeias, Varsóvia tem uma old town medieval, com estrutura urbanística de grande praça, ao redor da qual se estabelecem residências, igrejas, comércio e, sobretudo em tempos de turismo massivo, instituições culturais.


Foto: Divulgação

Museus estão entre esses aparelhos incontornáveis. Na capital polonesa, destaque para o peculiar Czar PRL – Life under Communism Museum (acima), constituído de memorabilia do período soviético, e o Fryderyka Chopina (na grafia local), em homenagem ao compositor que, nascido em 1810 num ducado de Varsóvia, aos 20 anos mudou-se para Paris, onde se tornou o incrível Chopin.

ODESSA: À beira do Mar Morto

Quando a gente pensa a Ucrânia, lembra logo as barricadas sangrentas na Praça Maidan, em Kiev. Mas este terceiro maior país da Europa também pode povoar de forma leve o nosso imaginário. Basta mencionar Odessa, cidade portuária à beira do Mar Morto, que concilia influências mediterrâneas, russas, otomanas e europeias, evidentes na arquitetura e no estilo de vida.


Foto: Divulgação

Os viajantes destacam seu balneário de águas mornas (no verão) e seu traçado de bulevares, tão ao gosto francês, de cujos prédios despontam estilos arquitetônicos como o eclético e o de cúpulas bulbosas, típicas das construções russas. Um marco na história local, este do período soviético, foi a cidade ter sido cenário de O encouraçado Potemkin, de Eisenstein, na memorável cena da escadaria (acima). 

MARCELO ABREU, jornalista, autor dos livros De Londres a Kathmandu e Viva o grande líder - Um repórter brasileiro na Coreia do Norte.

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