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Comer e descomer

TEXTO José Cláudio

01 de Outubro de 2015

Piero Manzoni e sua  obra 'Merda d'artista'

Piero Manzoni e sua obra 'Merda d'artista'

Fotos Reprodução

Ninguém me pergunta como como. Não vejo ninguém que escreve sobre arte perguntar uma coisa crucial, o alfa e o ômega da vida que é comer, como é que o indivíduo que produz a arte come, junto às outras funções correlatas; como se fosse feio, como se se cometesse uma gafe, ao falar de arte, falar de comida; isto é, não discutir cardápios, mas a própria possibilidade de se alimentar, o ganho necessário para comprar comida. Sem comer, sem beber, ninguém vive. Seria a primeira indagação, procurar saber como ele mora, se tem um teto, suas condições de vida. Por isso achei genial a obra (sem trocadilho) do italiano Piero Manzoni (1933-1963) Merda d’artista (merda de artista), “a afirmação última da unidade da arte e da vida” segundo ele, noventa latinhas contendo trinta gramas cada, vendidas ao preço equivalente na época, 1961, a trinta gramas de ouro, cotada cada latinha hoje a setenta mil euros, valorização de setenta vezes, cálculo de Armando Garrido.

Já o poeta Castro Alves, lido em tempo de ginásio, e que nunca esqueci, denunciava em Ahasverus e o Gênio, mesmo que naquela época eu não me colocasse no lugar do “gênio”, isto é, pintor, pois não me passava pela cabeça àquela altura vir a me dedicar à pintura ou qualquer outra arte: “Pede u’a mão de amigo — dão-lhe palmas:/Pede um beijo de amor — e as outras almas/Fogem pasmas de si./E o mísero de glória em glória corre.../Mas quando a terra diz: — ‘Ele não morre’/Responde o desgraçado: —‘Eu não vivi!...’” Exato: nunca tem nem o que comer, que é o primeiro item. Era assim que eu entendia, talvez por não pensar ainda em “beijo de amor” e “u’a mão de amigo”, de que tanto precisei e tive, como necessidades básicas, ter o que comer, ter onde dormir, ter o mínimo para suprir as necessidades primárias, ter onde tomar um banho, ter onde fazer necessidade, tempo e espaço sossegado para trabalhar, material de pintura, ver quadros, convívio com outros pintores e o mais difícil: vender.

O pintor Gil Vicente contou que um pintor estava pintando um painel numa agência bancária quando o dono do banco passou e perguntou ao gerente o que era aquilo. O gerente explicou que era para embelezar a agência. Quando soube do custo o dono espantou-se. “Isso até meu filho faz”, disse. O pintor, que ouviu a conversa, atalhou: “Fazer, até que faz. Quero ver é ele vender”. Também Gil contou que perguntaram a um pintor como iam as vendas. “Bem”, respondeu o pintor: “Já vendi a televisão, o carro, a geladeira...”

Para o vulgo, o pintor é sustentado por um corvo que lhe atira um pão, como Santo Antão no deserto, e isso lhe basta. Nem isso: “O deserto negou-lhe — o grão de areia,/A gota d’água — rejeitou-lhe o mar” já dizia Castro Alves. E para não sair da Bahia, lembro a frase da mulher de Rui Barbosa ante a pletora de convites a apresentações gratuitas: “O Conselheiro também come”, citado por João Ubaldo Ribeiro. “E descome”, diria Piero Manzoni. Eu nunca vi quem escreve sobre arte se interessar em saber como o pintor come, esse “bípede implume” que por isso precise de maior leveza que os mamíferos. Notório é que os pintores que exercem maior influência na praça são os mais vendáveis. Quando a maré de vendas muda de rumo, uns procuram migrar imediatamente para o novo campeão de vendas; outros continuam fiéis à antiga filiação, até por já terem sido relativamente reconhecidos, isto é, já terem começado a vender; outros procuram uma aproximação com a nova tendência sem no entanto aderir completamente, sem arriscar todas as fichas. Acredito nem serem essas mudanças totalmente conscientes ou interesseiras e aí entram outros fatores, a origem do candidato a pintor, se de origem mais modesta cuja família não pode ou não quer “sustentar vadio”, a idade, se se trata de puro encantamento ou propósito de mudar de vida, se quer construir ou reconstruir a vida através da pintura, tratando-se de indivíduo que não tem outra fonte de renda que não o quadro, além do puro mergulho sem volta, da vocação incontrolável. Mesmo para o pintor de origem burguesa, ou que se tornou burguês por acidente de percurso, há essa necessidade de conferir seu valor de mercado, como dizem que acontecia com Lasar Segall aqui no Brasil, como se no mundo capitalista o único valor incontestável seja o preço. Até para quem não come, porque já morreu, por força dos herdeiros ou proprietários de suas obras, a se digladiarem nos leilões, Van Gogh, Picasso e outros. Di Cavalcanti aqui no Brasil.

Um desses casos me toca de perto porque pintor com quem trabalhei. Içado às alturas nos jornais, recebendo visita de intelectuais, artistas estrangeiros de nomeada — foi assim que conheci Léonide Massine e Sacha Guitry —, me mandava com quadros debaixo do braço oferecê-los a compradores seus em troca de algum dinheiro, pouco, tanto assim que era eu que trazia, a pé, e raramente eu não voltava com os quadros e a resposta: “Diga a Fulano que no momento não estou podendo”. Era comum eu ir buscar o almoço fiado.

Quando Sócrates perguntou a um menino qualquer na rua onde encontrar os bens necessários à vida, o menino, que se chamava Xenofonte, respondeu sem titubear: no mercado. Sei que mercado hoje pode ser o mundo todo. Dizem que um ricaço na Grécia, tinha um avião para comprar pão em Paris. Mas mercado de que falou Xenofonte geralmente dá para ir a pé. Fica bem ali na esquina. E, decorrência disso, de se viver uma vida local, é o surgimento de uma arte local, sem alarde, sem patrocínio, sem preconceito, sem manifesto. 

JOSÉ CLÁUDIO, artista plástico.

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