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Claudia Andujar: Entre a realidade, o sonho e a epifania

Instituto Moreira Salles abriga exposição com mais de 300 imagens da fotógrafa que registrou um Brasil em transformação

TEXTO Luciana Veras

01 de Outubro de 2015

Fotógrafa empreendeu imersão na vida de quatro famílias de diferentes cidades do país

Fotógrafa empreendeu imersão na vida de quatro famílias de diferentes cidades do país

Foto Claudia Andujar

Por não saber falar o idioma do país em que desembarcara aos 24 anos, vinda dos Estados Unidos e com um passado de perseguições nazistas e fugas transcontinentais, a imigrante instituiu o exercício cotidiano de aprendizado pelas lentes de uma câmera fotográfica. O quão provável seria, então, que aprendesse a domar as técnicas da fotografia e a regência, os pronomes e a ortografia do português? “No impossível é que está a realidade”, escreveu, certa vez, Clarice Lispector. Se pudesse ver as imagens de Claudia Andujar – No lugar do outro, em cartaz até novembro no Instituto Moreira Salles, na Gávea, no Rio de Janeiro, a escritora ucraniana, membro da “legião estrangeira” que se fez brasileira como a própria fotógrafa, tenderia a concordar com a frase do curador Thyago Nogueira: do olhar de Claudia e do resultado de suas incursões imagéticas precipita-se “uma visão que transcende o registro e oscila entre o sonho e a epifania”.

Assim é o conjunto de mais de 300 imagens da exposição, espalhadas pelos amplos cômodos do elegante exemplar modernista que é a sede da instituição, fundada pelo embaixador Walther Moreira Salles no mesmo imóvel que serviu, durante décadas, de residência para a família. É um amálgama de contornos interessantes a junção das fotografias de Claudia Andujar e o ambiente de aposentos que outrora serviram de quartos, salões de baile e salas de jantar. Porque boa parte de No lugar do outro constitui-se de registros que a fotógrafa fez, entre 1962 e 1964, a partir de imersões na rotina de quatro famílias brasileiras – pescadores em Picinguaba, perto de Ubatuba, no litoral norte de São Paulo; os Porciúncula, clã abastado que cultivava cacau em São Francisco do Conde, na Bahia; uma família em Jabaquara, na zona sul da capital paulista; e um numeroso grupo de pais, filhos, sobrinhos, tios e primos em Minas Gerais.


Registro da natureza feito nas primeiras viagens à Amazônia. Foto: Claudia Andujar

O recorte curatorial engendrado por Thyago Nogueira, editor da revista ZUM e coordenador de fotografia contemporânea do Instituto Moreira Salles, transcende os encontros de Andujar com os brasileiros. Abarca as quedas d’água do Rio Jari e outras exuberantes paisagens amazônicas; a Rua Direita, no centro de São Paulo, e os transeuntes que por lá circulavam, sacolas na mão, olhar de espanto para a câmera localizada no ângulo do chão; as cirurgias espirituais do médium Zé Arigó, cujo principal modus operandi consistia em enfiar uma faca entre a pálpebra e olho do paciente; a paixão interditada entre dois homens gays e os lugares por eles frequentados; o sagrado momento em que uma parteira acolhe o bebê, metade já pertencente a esse mundo, a outra metade ainda a sair do corpo da mãe; o “trem do diabo”, expresso que saía de São Paulo e demorava sete dias para voltar à Bahia, “devolvendo” passageiros que não haviam tido êxito na sua experiência migratória; e os experimentos no ensaio A Sônia, com adoção de filmes infravermelhos e sobreposições na sua investigação do corpo feminino.


Ensaio experimental A Sônia reúne série de nus feita com filme infravermelho.
Foto: Claudia Andujar

Trata-se de uma produção circunscrita entre o início dos anos 1960 e meados de 1970, que abrange, por exemplo, os anos em que a fotógrafa integrou o escrete da revista Realidade e precede o seu mergulho na vida dos yanomamis. “A exposição lança um olhar para um período pouco visto e estudado de sua carreira. Todo mundo conhece as fotos de Claudia com os yanomamis, mas se você repara nessas imagens, percebe que a originalidade, a complexidade, o domínio da técnica e a generosidade em procurar entender o outro, em se relacionar com aquelas pessoas, já estavam ali”, expõe Nogueira à Continente. Sua aproximação com ela deu-se a partir de 2012, quando trabalharam juntos para o segundo número da ZUM.


Registro das cirurgias espirituais do médium Zé Arigó. Foto: Claudia Andujar

Surgiu a ideia de trazer à tona essa produção, de uma certa maneira eclipsada pela potência e pelo alcance das imagens dos índios – bem como pelo fato de que a própria história de vida dela passou a se confundir com a dos yanomamis que se comprometeu a defender, visibilizar e proteger. Thyago Nogueira conta que foram dois anos de visitas semanais com o propósito de exploração de acervo. Era quase uma prospecção arqueológica: “Toda segunda-feira, eu ia à casa dela e ficávamos a olhar o material que ela guardava no arquivo. Fomos fazendo uma revisão de tudo, separando por eixos, mas nunca com o pensamento de fazer algo cronológico. Claudia nunca quis que a exposição tomasse um rumo explicativo ou óbvio demais, digamos assim. Há imagens na exposição que nunca haviam sido impressas, muito menos mostradas antes”.

Claudia Andujar – No lugar do outro opera menos como o registro de um Brasil que buscava se (re)construir em época de ditadura militar (muito embora existam registros que simbolizem essa urbanidade tão tupiniquim, como as fotografias de uma São Paulo que remete a um cenário de ficção científica, ou mesmo os instantâneos de florestas e cachoeiras prestes a ser extintas na Amazônia, e costumes que hoje parecem obsoletos) e mais como impressionante testemunho da produção artística e política de uma das maiores fotógrafas em atividade no país. “Acredito que as imagens também deixam transparecer a verdade e a coragem de Claudia, que, no início dos anos 1960, ainda sem falar quase nada em português, viajava sozinha de barco apenas para conhecer uma simples família de pescadores, ou que depois encarava sete dias em um trem, dormindo nas mesmas condições que os passageiros, só para poder retratar aquela jornada”, conclui o curador Thyago Nogueira. 

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